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O mergulho

Quarta-feira, 25.01.17

  

z_mergulho no mar.jpg

 

Nunca saberia se aquele seria o momento certo para o mergulho desejado, para a fusão tão esperada no abraço dos elementos, a comunhão mais inexplicável de sensações. Desconhecia igualmente se quando sentisse que aquele era o momento os elementos estariam disponíveis para a receber. O som das ondas devolvia-lhe a memória de mergulhos passados e, recordando toda a beleza e plenitude desses momentos, sabia que o próximo seria sempre único e inigualável. Contudo, hesitava. Porquê? Porque essa dança de avanços e recuos era também o que fazia do momento O momento.

 

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publicado por bolaseletras às 14:52

"Cântico negro", por José Régio

Quinta-feira, 05.01.17

 

z_regio3.jpg

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

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publicado por bolaseletras às 06:33

E para mais logo - personalidade, fé e poesia

Quarta-feira, 06.07.16

 

cr.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 10:13

A lua e o corpo

Sexta-feira, 10.06.16

 

lua.jpg

  

Autor da Letra:

Rui Manuel

Autor da Música:

Alfredo Marceneiro

Intérprete:

Chico Madureira

Fado Tradicional:

Fado Menor com Versículo

 

Eis que a lua devagar te vai despindo

Atrevendo uma carícia em cada gesto

De tal modo é que a nudez te vai vestindo

E o teu corpo condescendo sem protesto

 

Mal os ombros se desnudam, surge o peito

Logo o ventre no desenho da cintura

Cada músculo detém o mais perfeito

Movimento, em sincronia com a ternura

 

Já as ancas se arredondam e projectam

Sobre as coxas, sobre os vales, sobre os montes

Onde as vidas, noutras vidas se completam

Quando o tempo é um sorriso, ou uma fonte

 

Fica a roupa amontoada junto aos pés

Quer dos teus, quer dos da cama que sou eu

Estendo a mão, apago a luz, que a nudez

Do teu corpo, fica acesa sobre o meu

 

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publicado por bolaseletras às 00:22

O rebanho

Sexta-feira, 20.05.16

  

John Trent.jpg

  Fotografia por John Trent

 

O olhar baço replicava as suas almas indiferenciadas.

A fuga desesperada da exclusão

do dedo acusatório a quem se afastava do caminho

mimetizou as suas almas e vontades numa paisagem de indistintas cores

de um branco sujo mesclado pelo cinzento do esquecimento

de transparências opacas imunes à luz do sol.

 

O caminho era agora uma infinita linha recta

paralela ao silêncio das almas penadas

uma estranha comunhão entre uma vida sem sentido

e uma morte que não se sente

pois já nada se sente.

 

O olhar resistia sem razão à força surda da ausência de vontades.

Viver era espreitar eternamente a fronteira indistinta do nada que jaz do outro lado do rio.

  

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publicado por bolaseletras às 08:13

O co(r)po (con)sentido

Quarta-feira, 17.02.16

  b1.jpg

 

Há imagens que me inspiram histórias e quimeras, outras que se entregam à sede do poema. Há quem meça o quanto se ama pelo quanto se sofre desse amor. Valerá a pena amar para sofrer assim? Sofre assim quem um dia sentiu amor?

 

 

Renego neste preciso instante o doce abraço deste copo.

Já te esqueci

muito para além da paixão etílica a que me entreguei

já sangrei a dor das feridas.

Sou esquecimento de ti e de mim

pureza da reconfortante sonolência

estou para lá da superlativa bebedeira.

O copo sou já eu

o veneno que me polui entranhou-se no meu sangue.

 

O que resta de ti sou eu neste bar cinzento e nebuloso

recordar e sofrer

recordar e sofrer

a dor já sem efeito sobre mim

tanto que sangrei já de ti.

O ciclo de auto-destruição dispensa mais acções

o trabalho está feito e bem feito.

 

Canonizei-me nos meus e só meus rituais de auto-mutilação

fiz de ti a minha cruz

o meu monte dos vendavais.

Emigrei para um país distante de mim

esqueci a língua mãe

penetrei na raíz dos pesadelos

abracei esta morte lenta

lenta

lenta.

 

Posso agora pedir a conta

entregar nas tuas mãos a gorjeta de uma vida sem sentido.

Bom proveito.

 

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publicado por bolaseletras às 23:59

O regresso da poesia - Saudade

Sexta-feira, 11.09.15

saudade.jpg

Na adolescência escrevia poemas com a frequência com que o Jardel metia a redondinha lá onde a coruja dorme. A juventude chegou e isso da poesia perdeu espaço para as coisas práticas da vida (copos, miúdas, copos e miúdas). A capa de gajo sensível que as moçoilas sempre apreciaram em mim (aquelas que valiam a pena) foi perdendo brilho à medida que os genes olivalenses ganhavam força, que macho que é macho anda lá agora a escrever parvoíces em forma de verso. Hoje, ainda longe da fase da vida Mário Soares “Estou-me a cagar para o que digo e para o que pensam do que eu digo”, terá chegado a altura de voltar atrás no tempo e, talvez, quem sabe, voltar a ser um pouco mais do que realmente sou. O que ontem foi um texto sobre a saudade, floriu e desabrochou num poema de saudade. Nunca é tarde para voltarmos a ser adolescentes, nunca é tarde para um poema.

 

Dizem que a saudade não se traduz

que a língua inglesa a desconhece

que é só nossa

esta ausência indefinível

esta dor sem cheiro.

Dói quem a vida nos abandonou

dói quem fica mas para sempre se perdeu.

 

Tenho saudades de tudo.

Dos dias sugados a jogar à bola na rua

dos amigos dispersos para lá dos oceanos

dos beijos que não dei

dos que dei e são já passado.

Saudade é bradar ao vento que o que hoje temos não chega

o que hoje se esvai só

nos lega o vazio

o que recebemos é sempre menos do que ontem tivemos.

Somos um povo estranho

marinheiros perdidos na inconsciência desta lusitana maldição.

 

Saudade é ser Verão todo o ano

sentir as memórias do sal a beijar o corpo

a espuma do mar a secar-nos na pele.

Saudade é impedir que os caminhos da memória

esbarrem numa parede nua e fria

é esgotar as palavras que estavam por dizer ou inventar

é deixar as memórias no lume brando da fogueira

que conforta as noites frias.

 

Tenho saudades dos joelhos esfolados na gravilha

dos beijos que dei ou que apenas sonhei.

 

O que somos é feito do passado que tecemos.

 

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publicado por bolaseletras às 15:30

Da poesia e da falta dela

Quarta-feira, 20.05.15

Louis Faurer, Looking Toward RCA Building at Rocke

  Fotografia por Louis Faurer - "Looking Toward RCA Building at Rockefeller Center, New York City, 1949"

 

Há anos que não escrevo um poema porque nem todos os anos são anos de escrever poemas. Os poemas nascem do encantamento ou da dor original, dos nossos olhos brilharem com o primeiro amor, do primeiro sangramento que a vida nos inflige. Paixão e traição, por mais cinematográficas que sejam, são a realidade que perpassa pelo descerrar de olhos lento, maravilhado, mas tantas vezes agonizante que é a montanha russa da adolescência e da tenra mas não tão terna juventude. De repente, sem prévia preparação do corpo e da alma, tudo muda, os dramas dissipam-se e aquelas curtas ou longas-metragens mirabolantes de cores mil fundem-se numa só cor, tantas vezes cinzenta, demasiadas vezes apenas preta ou branca. O estado adulto, aquele em que a crua responsabilidade substitui os sonhos indomáveis, mata a poesia. Não tem que ser assim, mas é muito fácil que se nos distrairmos venha efectivamente a ser assim. Vejam lá isso.

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publicado por bolaseletras às 18:08

Sobre as ninfas do mar

Quinta-feira, 25.09.14

 

"She reminded me of the sea; the way she came dancing towards you, wild and beautiful, and just when she was almost close enough to touch she’d rush away again."

                                                                      Glenda Millard, A Small Free Kiss in the Dark

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publicado por bolaseletras às 18:00

Sobre o amor e afins

Quinta-feira, 05.06.14

 

Surripiado ao blog http://frenchkissin.blogspot.pt/ que o terá previamente furtado à colectânea "Qual é a minha ou a tua língua - Cem poemas de amor de outras línguas", da Assírio e Alvim.

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publicado por bolaseletras às 16:17





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