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Message in a bottle

Terça-feira, 11.11.14

Message in a bottle.jpg

Queria soltar o grito que lhe apertava a garganta mas o som saía seco, quase morto, asfixiado pela vergonha de ter chegado a esse ponto. Pedir ajuda era como descer ao grau mínimo da condição humana, era assumir-se como não vencedor, um mero mortal sujeito às fragilidades dessa incómoda condição. No fundo da sua derrota estava uma fervilhante vontade de dizer a todos aqueles que ainda acreditava lhe queriam bem que precisava deles, de um abraço, de um empurrão, em suma, de ajuda. Estava preso em si, nos ensinamentos e ditames de uma sociedade que valorizava o sucesso e a capacidade de levar tudo à frente sem um braço em redor dos ombros, sem olhar para o lado, sem uma palavra de incentivo. Deixou o tempo passar, carcomido por dentro, enterrado na desesperança. Mais tarde, bem mais tarde, olhou em volta e sentiu-se finalmente acompanhado, integrado num grupo. Por todo o lado sentia aquela impotência, aquele silêncio desesperado, a ensurdecedora incapacidade de estender a mão, de verter uma lágrima, de clamar por um abraço ou uma palavra, um olhar que fosse.

Estas histórias imaginadas têm apenas um inconveniente – não há imaginação que não se sustente num pedaço de realidade. E a doença, muito mais do que a sua ausência, tem uma capacidade de multiplicação imparável, sobretudo se não controlada no momento devido. Be aware, be very aware.

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publicado por bolaseletras às 17:42

"Mujeres presas con sus hijas"

Quinta-feira, 07.08.14

 

Encontro por aí esta fotografia da autoria de Adriana Lestido, tirada em 1991 na Argentina, com o fantástico título de “Mujeres presas com sus hijas”. O título não é nada fantástico, é cruel, tenebroso, um curtíssimo resumo de uma história que dificilmente acabará bem. A imagem que as palavras ilustram é, ainda assim, mil vezes mais cruel, triste e vazia de esperança que as palavras que já de si continham demasiada desesperança para tão pequena frase. Se o medo, a dor do que aí vem e o sofrimento que se adivinha nos corpos pudesse ser apelidado de belo, bela seria esta composição, os olhos negros de animal assustado de uma mãe que não o deveria ainda ser, de uma cria tão frágil, tão desprotegida que parece afundar-se ainda mais naqueles braços que sabe sem o saber não conseguirão embalá-la na vida que deveria ser doce e bela. Mas a beleza nada tem a ver com isto, a beleza foi secamente riscada de uma fotografia que nunca será bela.

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publicado por bolaseletras às 18:45

Fazer das fraquezas forças ou das forças fraquezas

Quarta-feira, 23.07.14

 

Robert de Niro é Jake LaMotta. A personagem teve o poder de eclipsar da minha memória que por trás havia de facto um actor que criou uma personagem mais real do que tantas vidas. Devo ter revisto o Raging Bull várias vezes, a última já há alguns anos, e o sabor que me fica na boca sempre que a memória o ressuscita é de desespero, é de um sofrimento agudo, aquela indizível dor que nasce de uma força aparentemente imbatível que existe apenas para ocultar as fraquezas que só o são pela recusa da sua existência.

 

Jake La Motta: Did you fuck my wife?

Joey LaMotta: What?

Jake La Motta: Did you fuck my wife?

Joey LaMotta: [pauses] How do you ask me that? I'm your brother and you ask me that? Where do you get you're balls big enough to ask me that?

Jake La Motta: You're very smart, Joey. You're giving me a lot of answers, but you ain't giving me the right answer. I'm gonna ask you again: did you or did you not?

Joey LaMotta: I'm not gonna answer that. It's stupid. It's a sick question and you're a sick fuck and I'm not that sick that I'm gonna answer it. I'm leaving, If Nora calls tell her I went home. I'm not staying in this nuthouse with you. You're a sick bastard, I feel sorry for you, I really do. You know what you should do? Try a little more fucking and a little less eating, so you won't have problems upstairs in the bedroom and you pick on me and everybody else. You understand me, you fucking wacko? You're cracking up! Fucking screw ball ya!

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publicado por bolaseletras às 17:27

As vantagens de ser ignorado (fotografias e reflexão, por Saul Leiter)

Quinta-feira, 29.05.14

 

“I spent a great deal of my life being ignored. I was always very happy that way. Being ignored is a great privilege. That is how I think I learnt to see what others do not see and to react to situations differently. I simply looked at the world, not really prepared for anything.”

 

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publicado por bolaseletras às 18:01

E depois das ruínas

Segunda-feira, 17.02.14

 

Depois de tudo ruir, de apenas permanecer o cheiro a destruição, aquela irremediável sensação de que jamais isto nos sairá da pele, haverá saída, haverá uma nova vida? Depende da vontade de ambos, da solidez do que outrora existia e resistiu. Depende se temos força e vontade de tirar as mãos dos bolsos.

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publicado por bolaseletras às 17:34

"Correcções" - O sarcófago dos tempos modernos

Quinta-feira, 21.11.13

 

Tenho negligenciado as letras e os livros em prol das bolas e das divas, o que não sendo pecado ou raiz do mal das coisas que estão mal neste mundo, desequilibra o blog, o que nunca me agradou. A falta de tempo, o excesso de notícias, artigos, baboseiras e afins com que o smartphone me asfixia também me têm mantido afastado do cheiro a papel de livro de que tanto gosto. Esta será uma resolução de fim de ano, voltar aos livros e abrandar nos mergulhos digitais. Para matar saudades, regresso ao “Correcções” de Jonathan Franzen e a um trecho secamente factual mas que tem tanto a ver comigo, sobretudo porque habito num prédio com 60 condóminos de onde saio para entrar numa outra torre, agora não de casulos familiares mas de formiguinhas trabalhadoras. Fiquem com o elevador, esse sarcófago dos tempos modernos.

 

“Finalmente, chegou um elevador. Enquanto a massa de criaturas avançava para ele, Gary considerou a ideia de esperar outro menos povoado, um transporte menos infestado de mediocridade e cheiros corporais. (…) Absolutamente nenhum eco num elevador cheio. Todos os sons eram amortecidos por roupas, carne e penteados. O ar pré-respirado. A cripta sobreaquecida.”

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publicado por bolaseletras às 17:45

A day at the beach

Sexta-feira, 05.07.13

 

 

Recordaremos não os dias de praia em que o sol mais nos confortou, ou em que a água brilhava perfeita como um espelho, mas os dias imperfeitos em que a companhia apagou a memória de tudo o que nos rodeava, porque aqueles dias, aquele lugar, resumem-se a essa partilha. Esta fotografia e reflexão trazem-me à memória uma perceção que sempre fui tendo sobre os resolutos amigos e conhecidos que vivem para a próxima viagem (só ou acompanhados). Sempre pensei que não é chegando àquele novo destino que irão encontrar o que procuram. Atingir esse desejado sítio poderá ser um marco na vida de alguém, sim, mas para isso é preciso que, previamente à viagem, dois pontos estejam plenamente resolvidos no interior do viajante.

 

1)     Viagem individual - o bem-estar consigo próprio tem que estar a um nível que permita a saudável solidão da viagem. Isto é, não se aconselha substituir a ausência de alguém pelo sítio, pelo caminho, pelo alcançar do destino. O propósito tem mesmo de ser esse, buscar só o encontro com um destino, o processo e o percurso da viagem porque connosco e com o mundo está tudo em ordem. Fazer da viagem uma fuga é isso mesmo, não uma viagem mas uma fuga. Viajar para refletir sobre a vida do viajante é desperdiçar tempo e dinheiro, porque a reflexão se pode fazer no sofá lá de casa.

 

2)     Viagem a dois ou em grupo – Se viajamos com pessoas de quem gostamos, deixando para trás aquela pessoa, toda a viagem será ensombrada pela ausência desse fantasma. Inicialmente, poderá pensar-se que é mais fácil não pensar na ausência perante novos mundos e renovados cenários, mas os novos fascínios só reforçarão a vontade não concretizada de os partilhar com o fantasma que paira por ali.

 

Eu sei, esta conversa parece-se bastante com as conversas do zodíaco das revistas cor-de-rosa. Nunca sabemos o que o futuro nos reserva, o melhor é ir treinando.

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publicado por bolaseletras às 18:02

Perdidos no meio de nós

Segunda-feira, 22.04.13

 

Fotografia de Gabriele Lopez

 

É um tema já batido este do anonimato dos dias de hoje, das pessoas que vagueiam na multidão como se não fossem pessoas, mas autómatos sem mecanismos de reconhecimento intra espécie, sem qualquer ligação possível com o autómato que se senta no lugar ao lado, com o cyborg de carne e osso que atravessa a passadeira com o corpo colado ao seu. É um tema batido mas não resolvido, este das pessoas que se ignoram por motivos relevantes como a pressa, a indiferença pura, a timidez, o medo do desconhecido, a simples razão de nunca se ter visto aquela cara antes ou, de ao vê-la todos os dias, no mesmo autocarro, na mesma passadeira, se ter tornado um procedimento normal e aceitável a afirmação da indiferença e a queda no anonimato global. Há quem force um sorriso encolhido, não com qualquer intenção de promover a mais ínfima proximidade, mas apenas como um mero reflexo de reconhecimento facial. Ainda assim, serão infinitesimais as situações em que esse esgar obtém reacção semelhante. Caminhamos para uma sociedade em que o contacto se restringirá às relações familiares e de amizade (para aqueles que têm esse privilégio), aos formais contactos profissionais, esvaindo-se pelo esgoto da indiferença todos os restantes biliões de interacções humanas desprovidas de utilidade. O utilitarismo dos tempos modernos é este, a transformação dos viajantes deste tempo não augura um mundo melhor.

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publicado por bolaseletras às 22:45

A possibilidade de uma ilha - o nevoeiro que antecede uma nova espécie

Segunda-feira, 15.04.13

 

 

"Era pouco provável que a espécie chamada a suceder-nos fosse, ao mesmo tempo, uma espécie social; desde a minha infância, a ideia que rematava todas as discussões, que punha termo a todas as divergências, a ideia em torno da qual eu vira quase sempre gerar-se um consenso absoluto, tranquilo, sem histórias, podia resumir-se praticamente assim: «No fundo, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos»."

 

Houellebecq fere-nos quando nos confronta com a nossa natureza, com o caminho que a humanidade vai seguindo. Nesta fábula de um mundo futuro, coloca-nos em frente ao espelho e lava-nos as feridas com sal. Será exagerada a frase que fecha o trecho acima? Talvez…ou talvez não. Há mais de 10 anos, no meio de um grupo de estudo de uma pós-graduação, uma recente mãe teclava alucinadamente no computador enquanto ao seu lado, na alcofa, o bebé de poucos meses chorava em desespero. Uma colega, tão incomodada como todos nós, mas com muito menos resistência à dor alheia, perguntou à “mãe” (sim, entre aspas): “Queres que lhe pegue ao colo”?. A mãe fixou-a incomodada e respondeu, com desleixo, desprezo e uma forte pitada de assustadora convicção: “Não, querida, deixa estar, ela tem que aprender que neste mundo estamos sempre sozinhos”. Foi algo deste género, não terão sido estas as palavras exactas, mas o sentido foi este. É tão triste sempre que a nossa inocência se esfuma mais um pouco no nevoeiro da desumanidade.

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publicado por bolaseletras às 21:57

Convém não esquecer, dá saúde e faz crescer

Quinta-feira, 07.03.13

 

Fotografia por Françoise Huguier

 

Boa parte dos posts deste blog nasce assim: uma fotografia que me desperta a atenção, a minha interpretação da mesma nos segundos seguintes, uma torrente de palavras para descrever o que me passou pela cabeça. Sem grandes filtros, sem reflexões profundas e ponderadas, apenas deixar que o instinto e as primeiras perceções ganhem a forma de letras e se organizem em palavras. Digamos que este projecto nasceu sem ambições de maior, continua sem as ter, permanece como um escape para dar asas ao meu lado criativo, à minha vontade de expelir palavras, sensações, opiniões, gritos, lamentos ou gargalhadas, que se ficarem cá dentro vão acabar por azedar. Como a mulher da imagem, é dever de cada um de nós olhar para dentro de nós. Ao contrário dela, é nosso dever fazer o máximo para não lamentarmos a vida que temos. Criem um blog, tratem de bonsais, tirem fotografias aos pássaros, façam puzzles, apontem as matriculas dos carros amarelos que vos ultrapassam, deem uns tiros online contra ingleses idiotas, mas não se esqueçam de fazer algo só vosso, que vos dê prazer, que vos permita alguns minutos por dia convosco. Vão ver que dá saúde e faz crescer.

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publicado por bolaseletras às 21:10





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