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De que é feito um olhar?

Quinta-feira, 24.10.13

 

Fotografia de Willy Ronis

 

De que se alimenta o vazio e os sonhos por viver que bailam neste olhar? Do passado desperdiçado e corrompido pelas exigências de uma vida que não a almejada? De um futuro que nunca existiu mas que nunca desistiu de corroer o desejo? Do tempo que foge e jamais voltará? De amores não vividos ou mal vividos? Da relva que não se pisou, da chuva de que se fugiu, do calor excessivo enfrentado com demasiada roupa? Os olhos, o espelho da alma, são berlindes mortos quando por trás deles não há vida, quando escondem vidas secas, quando a estrada percorrida foi um traço contínuo, uma estrada sem curvas ou buracos no asfalto. No olhar, pode também dançar a valsa do arrependimento, mas o brilho dos olhos será bem mais baço se o lamento residir na ausência de ação em detrimento dos excessos da vida. Aliás, poucos são os que se mortificam por terem bebido a vida com goladas de sofreguidão, pois a opacidade do olhar está geralmente associada ao excesso de contemplação. De tanto olhar a janela da vida embaciou, faltou respirar sobre ela para dissipar o nevoeiro e descobrir a nitidez e o brilho esfusiante do astro rei - a vida como ela deve ser.

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publicado por bolaseletras às 17:51

As rugas serão de todos nós

Quinta-feira, 12.09.13

 

 

Inevitavelmente todos chegaremos a velhos. Voltaremos a ser frágeis (como se alguma vez tivéssemos deixado de o ser), regressaremos à dependência dos outros que adorámos na infância e que nesse novo ciclo de vida aprenderemos a odiar. Recriminaremos a nossa vida, a vida em si por nos obrigar a esse agri/doce passeio pelo jardim flutuante do esquecimento. Não seria inteligente fazermos um pacto inter-geracional que permitisse que no rosto gasto dos nossos velhos voltasse a florescer, de quando em quando, o sorriso inocente dos tempos de criança? Não seria mais condizente com a própria natureza humana combatermos o sofrimento dos nossos velhos em vez de tantas vezes o agudizarmos? Todos chegaremos lá, nunca se esqueçam.

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publicado por bolaseletras às 20:01

O segredo

Sexta-feira, 28.06.13

 

 

O segredo da vida eterna está todo aqui. Porque só se vive enquanto a capacidade de rir e de nos alegrarmos connosco ou com as coisas do mundo forem por nós alimentadas. As dores, as rugas, o filha da mãe do reumático nada podem contra a estridência da nossa gargalhada, contra a nossa indómita vontade de sermos felizes. Se não sempre, pelo menos numas loucas golfadas cheias de vida que nos vão temperando os dias.

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publicado por bolaseletras às 17:54

A moldura

Quinta-feira, 28.02.13

 

 Turquia, Istambul, 1996

 

Uma imagem pode trazer-nos o cheiro da fome, o desespero da pobreza, a sensação de que não há saída para além das madeiras velhas e carcomidas do bairro que viu a vida nascer. Uma imagem parece encerrar a vida numa moldura imutável, delinear-lhe o presente e o futuro acorrentado a esse presente. O passado, como os sonhos, está entranhado na clausura e nos tons negros da implacável imagem.  

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publicado por bolaseletras às 22:28

"O Retorno" - Até os velhos fintam a morte

Sábado, 25.08.12

 

 

“Não, a metrópole não pode ser como hoje a vimos. A prova de que Portugal não é um país pequeno está no mapa que mostrava quanto o império apanhava da Europa, um império tão grande como daqui até à Rússia não pode ter uma metrópole com ruas onde mal cabe um carro, não pode ter pessoas tristes e feias, nem velhos desdentados nas janelas tão sem serventia que nem para a morte têm interesse. Lá os velhos tinham dentes postiços muito brancos e andavam de um lado para o outro com o chapéu na cabeça e os fatos dos trópicos engomados. Quando o pai via os velhos a comer marisco no Restinga dizia, aqui até os velhos fintam a morte.”

 

Os filhos dos que para lá foram em busca da felicidade e que por lá cresceram e aprenderam a viver, esses terão sentido o choque, o verdadeiro choque. Não o choque de ter perdido os bens, anos de trabalho, toda uma esperança arduamente erguida, mas o choque do confronto com uma vida desconhecida, tão diferente dos sonhos e das histórias ouvidas. Um sítio onde os velhos andam de um lado para ou outro e não apodrecem nas janelas sem vista ou nos lares sem amor é certamente um sítio onde as crianças e velhos são mais felizes.

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publicado por bolaseletras às 23:34

Solidão na multidão de Verão

Quarta-feira, 03.08.11

 

 

O sol radioso de Verão tem também o condão de nos proteger da tristeza, de nos ofuscar as imagens que não interessam. Grãos de areia sem brilho que jazem num deserto de solidariedades, corpos bronzeados que procuram não ver a pele ressequida pelo tempo. E se o olhar se cruza com a personagem indesejada um mergulho no mar tudo limpa. Menos a consciência que nos atormenta.

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publicado por bolaseletras às 13:48

Mind games na terceira idade

Segunda-feira, 18.07.11

 

 

- Estás à espera de quê? Há 10 minutos que pensas na jogada.

- A pressa é inimiga da perfeição.

- A jogada perfeita não existe, deixa-te de merdas.

- Pode não existir no tabuleiro, mas deixa-me ao menos sentir o prazer de a criar na minha cabeça.

- O único resultado dessas tretas zen que andas a ler é que agora só fazemos um jogo por dia.

- A qualidade é muito mais interessante do que a quantidade.

- Porra João, fizeste-me lembrar a minha mulher há uns anos, quando a crise ainda não me tinha obrigado a cortar no Viagra.

- Eheheheheh, só tu para me fazeres rir. Xeque-mate!

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publicado por bolaseletras às 18:12

Passagem

Sexta-feira, 27.05.11

 

 

"São poucas, e é preciso aprender a compreendê-las, as vantagens da muita idade. Uma delas, a maneira como nos revemos nos mais novos, revela-se um manancial de surpresas. Tive eu este modo apressado, exigente que eles têm? Fui assim egoísta? Ri-me sem tino? Dei-me conta de que parecia ouvir, prestar atenção, quando era só fingimento, ocupado que estava com a sarabanda dos meus interesses? Pregava eu também ideias e certezas? Revemo-nos nos jovens e muito se lhes perdoa, porque vão a caminho pela estrada por onde viemos. E assim nos perdoamos também a nós próprios, descobrindo que, afinal, tudo é quimera. Falamos de experiência, sabedoria, chamamos vida à passagem entre duas incógnitas."

 

Descobri há umas semanas o excelente blog do do escritor J. Rentes de Carvalho, escritor português pouco conhecido no seu país de origem, mas muito premiado e apreciado na Holanda. Pela qualidade da escrita exibida no blog, convenci-me a conhecer a obra do autor, estará para breve o mergulhar no seu legado literário. Esta pérola sobre a velhice e o conhecimento por ela proporcionado poderá convencer outros curiosos. Passem pelo blog do autor que muitas mais pérolas lá encontrarão.

 

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publicado por bolaseletras às 18:43





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