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Cadernos do Sudoeste - Uma questão de minutos

Segunda-feira, 09.08.10

 

 

Sexta-feira, 6 de Agosto (14h40)

 

Uma questão de minutos. Calor sufocante, escaldante cidade de Faro, desesperadamente esperando pela providencial boleia, o clássico atraso. Não é por mal, nunca é, está-nos nos genes. Eu, um adiantado patológico, sofrerei toda a vida. Heranças paternas que não se despegam dos hábitos colocam-me sempre um minuto à frente. Se calhar, são estes preciosos minutos que dão vida ao Bolas e Letras. É o que se chama olhar para o “bright side” da desgraça do atraso genético de um país. Neste caso, o amigo da boleia nem teve culpa, andava a fazer pela vida e a pôr a mexer gente que não gosta de minutos e de horas certas. Mas por causa de uns pagam os outros, isto é uma cadeia sem fim de enlouquecidos ponteiros. A ampulheta esgota-se e o país definha.

 

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publicado por bolaseletras às 23:16

O desterto dos tártaros (pérola 1) - A temível e voraz ampulheta

Sexta-feira, 14.05.10

 

 

 "Vinte e dois meses tinham passado sem trazer nada de novo, e ele ali ficara parado, à espera, como se a vida devesse ter para com ele uma tolerância especial. Contudo, vinte e dois meses são muito tempo e muitas coisas podem acontecer: dá tempo a que se formem novas famílias, nasçam crianças e comecem até a falar, para que surja uma grande casa onde antes só havia ervas, para que uma mulher bonita envelheça e já ninguém a deseje, para que uma doença, mesmo das mais longas, incube (e entretanto o homem continua a viver despreocupado), consuma lentamente o corpo, se retire durante breves aparências de cura para regressar com maior ímpeto sorvendo as últimas esperanças , resta ainda tempo para que o morto seja sepultado e esquecido, para que o filho seja capaz de rir de novo e à noite acompanhe as raparigas pelas alamedas e, leviano, junto ao gradeamento do cemitério".

 

 

 

O consumo do tempo, o desperdício ou a produtividade com que encaramos esse bem tão precioso, é tratado com pinças por Dino Buzzati no deserto onde os soldados esperam o ataque dos Tártaros. Uma hora pode ser decisiva para toda uma vida mas essa vida não se pode esgotar nesse momento. Dez anos podem não significar nada numa vida, depende do tratamento que dermos aos minutos que se atropelam no nosso futuro próximo. A ampulheta avança sem pedir licença, não espera que a acompanhemos na sua voracidade, tudo depende da nossa percepção do que vale a vida e do que a mesma merece que com ela façamos. A areia que se esvai por entre os dedos está nas nossas mãos. Os dedos são nossos e o que fazemos com a areia que deles se escapa é nossa decisão, só nossa.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 11:50





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