Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O assédio - a traição da carne

Domingo, 04.09.11

 

 

"Emudecem as guitarras, aplaudem os homens, lançando inconveniências em todas as línguas da Europa. Imóvel, com a cintura dobrada para trás e uma mão ainda ao alto, a bailarina passeia os seus olhos negríssimos pela assistência. Vê-se que está desafiadora. Segura. Sabe que, com o desejo à sua volta espicaçado pela dança, agora pode escolher. O seu instinto ou a sua experiência – é jovem, mas isso tem pouco a ver – dizem-lhe que qualquer um dos presentes colocará dinheiro entre as suas coxas, bastando-lhe pousar nele o olhar. (…) Talvez um dia aquela mulher morra de fome numa guerra futura, quando ficar murcha ou velha. Mas isso não acontecerá nesta. Basta ver os olhares lúbricos que se cravam nela."

 

As armas das mulheres em tempo de guerra são tudo menos convencionais. Os jogos de cintura e a volúpia das formas podem muito mais para desgraçar soldados desprevenidos do que obuses de má pontaria. Pérez-Reverte descerra o véu desse encantamento por alguns recantos de “O Assédio”, historiando os muitos casos em que as mulheres de Espanha se aliaram ao amor pelo inimigo francês, quer por medo, quer por interesse, ou, acredito também, pela seta irresistível do próprio amor. Essa seria a pior traição para um povo, além da traição da bandeira sentir na carne a traição da própria carne. Como tal, o castigo para as que eram resgatadas passava pela humilhação eterna e em muitos casos a morte. Valeria mais morrer de fome do que pelo chicote? Triste destino.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 12:22

London calling - O vento e as cinzas da justiça

Sexta-feira, 19.08.11

 

 

Desilusão? Impotência? Raiva contida? Medo? O que sentirá este polícia que caminha pelas ruínas da sua cidade consumida por cinza ainda fumegante, por entre as ruas que agora lhe escapam ao controlo e à compreensão? Os cidadãos que jurou defender são agora os seus inimigos, os inimigos da restante parcela de cidadãos que ainda procuram a paz apesar dos apertos da vida, aqueles que buscam uma saída pacífica para a violência de uma sociedade onde já não parece caber a concórdia. O bastão da justiça pesa-lhe na cintura e arde-lhe nas mãos nuas e suadas. Numa cidade a ferro e fogo, a justiça vale tanto como as cinzas que o vento inabalavelmente leva consigo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 20:39

London calling - O silêncio dos inocentes

Quinta-feira, 11.08.11

 

 

Não consigo imaginar o que sentirá um pai, daqueles que se preocupam e não dos que julgam que a educação é encher-lhes os olhos de Canal Panda e a barriga de hambúrgueres, ao sentir-se impotente perante as cenas de violência que lhes macularão as memórias. Como explicar o que não tem explicação a seres em formação que procuram a causa de cada mínimo acontecimento, a razão de cada palavra, de cada gesto. E não me venham com merdas, a violência gratuita e desproporcionada contra inocentes e bens de inocentes só tem uma explicação, a maldade que, nada há a fazer, reside em seres humanos que dão mau nome à humanidade que lamentavelmente não lhes assiste. Como o medo não assistia ao cozinheiro Hélio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 22:48

London calling - Até quando?

Quinta-feira, 11.08.11

 

 

Sempre os capuzes, a penumbra, a rua deserta ou sem vigilância. A coragem vem-lhes da impunidade, o sangue ferve na convicção de uma reacção sem igual violência, a raiva jorra sem sentido. Sempre em grupo, de preferência contra objectos ou um reduzido número de adversários. Os que mostram o peito e cospem às autoridades confiam que estas respeitarão o escudo das câmaras, dos milhões que aguardam por um qualquer excesso de legítima defesa. Os estilhaços serão varridos no dia seguinte mas o rasto de uma sociedade doente permanecerá nas ruas que circundam as suas casas, as escolas dos seus filhos, os seus empregos. Até quando a cobardia, até quando o medo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 13:08

A importância das primeiras palavras

Segunda-feira, 01.08.11

 

 

Comecei ontem o terceiro livro das férias e finalmente uma entrada auspiciosa. Não é que as primeiras frases garantam um bom resto de livro, mas confunde-me o espírito que um escritor aparente não se preocupar minuciosamente com a abertura da sua obra. Eis as primeiras e prometedoras palavra de “O Assédio”, de Arturo Pérez-Reverte.

 

“À décima sexta pancada, o homem amarrado em cima da mesa desmaia. A sua pele tornou-se amarela, quase translúcida, e a cabeça pende imóvel na beira do tampo. A luz do candeeiro a azeite pendurado na parede insinua sulcos de lágrimas nas suas faces sujas e um fio de sangue que goteja do nariz. Aquele que lhe batia permanece imóvel por instantes, indeciso, com o vergalho numa mão e, com a outra, limpando das sobrancelhas o suor que também lhe encharca a camisa. Volta-se depois para um terceiro que está de pé atrás de si, na penumbra, apoiado na porta. O do vergalho tem agora o olhar de um cão de guarda que se desculpa diante do seu dono. De um mastim grande, brutal e desastrado”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 22:11

A semente germina na multidão

Sábado, 23.07.11

 A semente que germina na multidão

 

O mal, esse véu negro que nunca deixa de pairar sobre a humanidade, desceu desta vez sobre o povo norueguês. A semente do ódio habita sempre o coração de alguém no meio da multidão. A sua força, mesmo que isolada, reside na alucinação das suas convicções. A névoa que os pacatos cidadãos desconhecem turva a mente mais determinada, encaminha-a para o trilho da desgraça até ao objectivo final: a dor indizível da multidão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 14:50

Aquela fatídica altura do mês

Sábado, 02.07.11

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 23:03

País real

Sábado, 04.06.11

 

 

Um post do Luis M. Jorge, um dos meus bloggers predilectos.

 

"Ligo a televisão e vejo uma ama, filmada à socapa, a espancar bebés, um fuzileiro a receber sopapos na camarata, uma Kátia a esfaquear uma Vanessa com dezassete golpes de x-acto, uma menina dos olhos da sua avó pontapeada no YouTube e um bife sovado até à morte pela boa juventude do Algarve — aparentemente porque era turista e andava na rua, coisa rara em Albufeira. As caixas do multibanco não têm tido mais sorte: são arrancadas, arrombadas, esventradas e sequestradas com abandono por veículos de alta tonelagem. Na Buraca e na Paiã digladiam-se gangs rivais. Em Almargem do Bispo há velhinhas mortas perdidas em caves desde o primeiro governo de Cavaco Silva: a vizinha? Durante uns anos cheirou, sim senhoras, mas ósdepois habituei-me.

 

O Crespo faz beicinho e denuncia a violência das imagens, dos tempos, dos costumes. O convidado acena com beatitude: é a civilização do espectáculo, da crise de valores, da ausência de referências, de um vazio espiritual que só a religião preenche. Ou então: é a civilização da desigualdade, da segregação urbana, da pobreza abjecta e da ostentação das elites. Ou ainda: é a civilização da improdutividade, do desemprego protegido, dos calaceiros e dos drogados, dos desprezo pela ordem, das fufas e dos maricas. Ou a civilização da carne, que rejeita os vegetais; a civilização dos estrangeirados, que importa a violência da América; a civilização dos imigrantes, ciganos, pretos e brasileiros que corromperam a alminha branca e impoluta do pobre Zé Luis; a civilização do aqui e agora, do curto prazo, de uma mocidade que não conhece o sacrifício, do culto do corpo, do culto da imagem, do culto da Britney e da Lady Gaga, a civilização da bulimia e da anorexia, a civilização dos jogos de computador e do sexo por conveniência, por correspondência, por desfastio. Oh, a civilização do sexo…

Crespo faz beicinho e acena com a cabeça. Tanta, tanta civilização, meu deus."

 

O pior de tudo é que qualquer uma que ela seja é a nossa civilização. Aquela em que as almas impolutas se arrepiam por ver meninas de 16 anos presas, que coitadas, é da educação ou do gueto em que vivem. Aquela em que o Código de Processo Penal tem umas 300 vezes a palavra arguido e os seus milhentos direitos, mas que se esqueceu da palavra, da pessoa vítima. Aquela em que um chefe da guarda prisional da antiga prisão regional de Setúbal me confidenciava, off the record, com o olhar distante e vazio, mas voz firme e certeira, que “tenho aqui miúdos que se o encontrassem na rua e gostassem dos seus ténis, lhe espetavam um balázio nos cornos e nem pestanejavam”.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 17:44

Como o futebol explica o mundo e o potencial de violência que os une

Terça-feira, 31.05.11

 

 

“Os críticos do futebol argumentam que a morte e a destruição é inerente ao futebol. Sustentam que o jogo dá vida a identidades tribais que deviam encontrar-se em extinção num mundo onde uma União Europeia e a globalização destroçam alegremente tais sentimentos arcaicos. Outra teoria similar muito divulgada defende que a origem da violência se pode encontrar no ritmo do próprio jogo. Porque os golos surgem tão irregularmente, os adeptos gastam demasiado tempo sublimando as suas emoções, antecipando mas nunca descarregando. Quando essas emoções se expandem e se tornam incontroláveis, os adeptos irrompem em sombrios acessos dinonisíacos de violência extática.”

 

Este trecho da polémica obra de Franklin Foer (“Como o futebol explica o mundo”) pode facilmente ser acusado de quase tudo: de exagero, de radicalismo, de demagogia, de insensatez. Mas algo do que é expresso neste trecho é falso? É falso que o futebol seja um dos mais apaixonados baluartes das paixões nacionalistas? É falso que o futebol estimule o sentimento de rivalidade e aumente a percepção de que quem não é dos nossos está contra nós? É falso que o suspense e a ansiedade pelo golo libertador seja o combustível de um barril de pólvora cheio de adeptos? É falso que os festejos do golo possam ser momentos da mais pura e louca irracionalidade? Foer ama o futebol mas compreende-lhe os perigos. Talvez não fosse mau seguirmos-lhe o exemplo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 18:46

Não à violência, sim a tudo o resto

Segunda-feira, 16.05.11

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 19:04





mais sobre mim

foto do autor




Flag counter (desde 15-06-2010)

free counters



links

Best of the best - Imperdíveis

Bola, livres directos & foras de jogo

Favoritos - Segunda vaga

Cool, chique & trendy

Livros, letras & afins

Cinema, fitas & curtas

Radio & Grafonolas

Top disco do Miguelinho

Política, asfixias & liberdades

Justiça & Direito

Media, jornais & pasquins

Fora de portas, estrangeirices & resto do mundo

Mulheres, amor & sexo

Humor, sorrisos & gargalhadas

Tintos, brancos & verdes

Restaurantes, tascas & petiscos

Cartoons, BD e artes várias

Fotografia & olhares

Pais & Filhos


arquivos

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

pesquisar

Pesquisar no Blog