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Entre a nobre arte da sedução e as dúvidas helénicas - algures por aí estará a resposta

Quinta-feira, 05.02.15

Yanis-Varoufakis-009[1].jpg

Ontem, uma colega minha que sempre tive por relativamente discreta, séria, e pouco dada a manifestações públicas de preferências amorosas, rasgou as vestes do seu estado de respeitosa quarentona divorciada e declarou, a mim e a outra colega, a sua mais recente paixão, bem espelhada no êxtase com que todas as manhãs acompanha as mais recentes manobras de sedução internacional de Yanis Varoufakis, o novel e nada politicamente correcto ministro das Finanças grego. Ainda recupero do momento em que o rubor invadiu a face desta vítima da loucura à primeira vista e proclamou: “Por mim pagava os impostos que ele quisesse, onde ele quisesse, na posição que ele quisesse”. Especialista na oculta ciência económica da “teoria dos jogos”, ofício que na minha ignorância associo à arte de elaborar estratégias complexas que conduzam ao sucesso dos nossos objectivos mais ocultos, esta nova estrela do firmamento político europeu tem sabido ser um sedutor nato. Se primeiro convenceu, juntamente com o primeiro-ministro Alexis Tsipras (outro artista da sedução), os seus eleitores a concederem-lhes o poder em troca do paraíso, do rasgar de incómodos e dispendiosos compromissos que soçobrariam diante das suas eloquentes e brilhantes propostas para toda uma nova forma de fazer girar as envelhecidas e ferrugentas rodas da economia europeia, quiçá mundial, por outro lado, Varoufakis, nessa ronda de visitas aos seus financiadores e parceiros europeus tem sabido recuar convenientemente, naquele jeito de quem recua para ganhar mais balanço. Para dentro um discurso, para fora fala em acabar com o problema endémico de comandar uma Grécia afogada na corrupção e noutros pecados que tais, declarando humildemente que é ministro de um país falido. Se as suas sedutoras teorias encantam alguns, sobretudo aqueles e aquelas que não resistem ao namorico entre a fria e aborrecida realidade dos números e os gestos e as palavras grandiloquentes, haverá que não esquecer que, do outro lado, estão instituições, países e organizações internacionais sustentadas e constituídas por gente eleita pelos chamados partidos moderados do centrão. Será que as recém-empossadas estrelas gregas acreditam realmente que o sucesso de um partido de esquerda radical no governo é um desejo profundo dessas instituições, organizações e partidos? Não percebem que esse sucesso equivaleria aos donos do poder abrirem, de par em par, as portas do poder a esses pequenos partidos radicais? Não perceberam os claros sinais de ontem do BCE? Ou será que essa suposta ingenuidade faz parte do jogo?

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publicado por bolaseletras às 18:11


5 comentários

De Carlos Azevedo a 06.02.2015 às 02:37

Não sei responder a nenhuma das tuas questões, mas devo dizer que torço pelos gregos. Não porque seja particularmente romântico no que concerne à política, mas porque acho que tudo tem um límite e a UE já deixou de ser uma democracia há muito. É uma burocracia, uma máquina que se alimenta a si mesma, sem qualquer respeito pelas pessoas. E nem falo do papel da Alemanha, porque falar da Merkel tira-me o apetite. Quanto ao ministro das Finanças grego, por aqui o mulherio também está em polvorosa, mas sejamos francos: as inglesas (e os ingleses) não são propriamente selectivas.

De Teresa a 06.02.2015 às 10:05

Que o diga aquela personagem dos Algarves cujo nome me escapa neste momento ... ou escapa ou de propósito não incluo num post dedicado ao - espera que tenho de ir ver o nome, que nem é assim tão importante na figura - Varoufakis

Yanis - esta parte é mais fácil - e Tsipras são, acima de tudo, um aviso à navegação. Demasiados preliminares e estratégias acabam por dar cabo do "jogo".

A Merkel sabe isso! Por isso desce afoita quando a Alemanha ganha - ela sabe que a melhor forma de beijar Podolskis e Muhlers é apanhá-los com a mão na... toalha. Se avisam que a Chanceler "vai descer" não há selfies de peito suado e aquela expressão ainda extasiada de... vitória

Agora Merkel (e, o que foi um choque para mim, a Europa) está agora cheia de meninos bons (daqueles das anedotas de "a menina dá licença?" e Europeistas ambicionando ser Japoneses, com cerimónia de chá de 3 horas como prelimira e poesia sobre a alegria do pássaro solitário (booooring) incluída.

Assim, não há como resistir a esta lufada de ar fresco . De repente somos todas Marilyn (Monroe) e não há John (Kennedy) que nos faça pesar os ah mas, e se, talvez seja melhor...

http://marieclaire.media.ipcdigital.co.uk/11116/000077784/d9e1/Marilyn-Monroe-thumb.jpg

Bom fim de semana! Com Astros alinhados para emoção ao limite. Deixa ir ver o Twitter dos brilhantes estrategas tugas ainda de pijama e a pensar se pôem adoçante ou açúcar no café descafeínado enquanto mandam bitaites do que a Europa deveria fazer a estes malandros dos Gregos

De bolaseletras a 06.02.2015 às 13:17

A lufada pode ser de ar fresco, Teresa, só não sei é se não acabará em ventania da grossa...e não te esqueças que quem paga é sempre o mexilhão...bom fim de semana!

De Teresa a 06.02.2015 às 13:48

Claro, mas isso acontecerá, quer brinques quer não. (outro aviso à navegação!)

E, no fundo, pouco podes - enquanto cidadão - fazer quanto a isso.

Se não fossem os Gregos seriam outros quaisquer envolvendo o mexilhão em salganhadas pornográficas que ninguém explicou (e continuam sem explicar a quem entra) quando propõem a entrada na "comunidade"...

A Alemanha pagou no aniversário da sua unificação (20 anos! durante os quais exigiu aos seus contribuintes uma contribuição extraordinária para suportar a unificação) o que devia (ao Mundo!) desde a 1ª (Primeira!) Guerra Mundial. John Maynard Keynes deve estar a dar voltas no tumulo pensando que o que disse então, há quase 100 anos aquando do tratado, em relação à Alemanha serve para tantos - todos? - os Estados Membros...


Daí a graça de brincar um bocadinho com o teu post... Brincar com o cabelo (ou falta dele) do Yanis e do Tsipras é uma forma de disfarçar uma admiração secreta por quem manda calar a gorda e feia. Não, não sou eu... a Merkel. Vão dar-se mal? Muito provavelmente. Acho que todos vamos, qual dominó da loja do chinês... Mas enquanto não deu brincou-se e viveu-se (e, como essa imagem icónica da MM, ninguém nos tira)... e admiraram-se coragens que (já) não se pensavam possíveis.

De bolaseletras a 06.02.2015 às 13:15

Carlos,

Também torço pelos gregos, não desejo o mal a ninguém, abomino que se castiguem cidadãos pelos males dos seus governantes. Mas não torço irracionalmente, custa-me aceitar que se comece pelo fim quando se deveria começar pelo princípio. Chegar e aumentar subsídios sem ter "plafond" para tal, numa atitude demagógica e de desafio parece-me um muito mal começo. Espero que acertem as agulhas, espero que saibam dar à Europa uma lição que desmonte esta merda de solução única e santificada que é a austeridade. Mas espero também que não nos façam de parvos. Abraço!

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