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Estranhas epifanias por entre estilhaços de hambúrgueres

Sexta-feira, 27.06.14

 

Não sei se a modernidade nos encaminha no sentido da felicidade, se todo este interminável trajecto da evolução do homem nos conduzirá a um patamar superior ou a um lugar estranho, onde depois de entrarmos já não poderemos recuar, sob pena de cairmos num qualquer abismo. No outro dia, almoçando sozinho e descansado como gosto, procurando assim uma pausa no turbilhão dos telefonemas, das reuniões intermináveis, das infinitas conversas improfícuas, escutei atentamente a galhofa que decorria numa mesa perto de mim. Três rapazolas bem engravatados e, pensam eles, maravilhosamente penteados, discorriam sobre um amigo que revelara recentemente a sua preferência por seres humanos com cromossomas semelhantes. Dois deles alarvavam felizes com a eliminação definitiva de um possível predador das suas femininas presas, enquanto ao mesmo tempo batiam no peito e afirmavam em alta voz que nada tinham contra a opção do amigo, que para eles se mantinha tudo na mesma.

 

O outro homem, mais discreto e provavelmente pensativo (podia também, aquela calma, revelar apenas uma esforçada tentativa de não desmaiar de asco) abanava a cabeça lentamente, tão lentamente que não consegui perceber se aquele menear preguiçoso de pescoço se inclinava para a concordância ou para o repúdio. Por fim, como que nascendo para uma crescente epifania, os lábios do terceiro homem moveram-se firmes e certeiros, proferindo uma verdade demasiado crua e evidente para o clima de tolerância que pairava naquela mesa: “Eu também vou continuar a gostar do João e a vê-lo hoje como via ontem, nada mudará. Mas há algo que não nos podemos esquecer: se todos nós optarmos por esse caminho daqui a 100 anos apenas restarão neste restaurante estes hambúrgueres gordurosos, estas mesas todas iguais, estes vidros que então serão imundos porque, tal como mais ninguém comerá os hambúrgueres, também mais ninguém existirá para passar um pano na imundície das janelas”.

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publicado por bolaseletras às 21:45


2 comentários

De Teresa a 30.06.2014 às 19:32

Não se encaminha nem para a felicidade nem para essa felicidade de desgarrar de valores e moralidades que os desvalorados e amorais nos querem convencer ser o (único) caminho. Porque não é.

Apanhaste a mesa dos misogénicos (ainda) não calvos. Que acham que por estarem a surfar - por ora - uma onda de realização pessoal (pergunto-me se o que abana a cabeça também estará ou se - minha aposta - enfrenta a tarefa de ter de fazer ele o jantar ou comer, outra vez, hamburger... ou se não põe de parte que falhando as opções "tradicionais" na coragem do João está a possibilidade de felicidade e realização).

Mas haveria por ali ou noutra hamburgueria gente perfeitamente "normal" que escolhe, e vive, caminhos diferentes. Que não são melhores. Talvez. Só não são os mesmos.

Quanto às escolhas do João recordo sempre uma do meu cunhado hetero - "aquilo não deve ser mau de todo. Eu vejo-os "ir" e não voltam" .

Costumo viajar de comboio com um casal de elas e para ter uma gaja daquelas antes preferia um homem bêbado que me batesse todos os dias há algo de doentio nas pessoas que não aceitam o que e como são. Só espero que o João não tenha apanhado um anormal pela frente mas alguém que o completa e faz muito feliz.

De bolaseletras a 02.07.2014 às 19:05

Eu acho que é tudo tão simples e nós complicamos tanto, Teresa, basta respeitar uma regra básica: esticar a nossa liberdade até ao limite da liberdade do próximo. Isso devia ser suficiente para ninguém se sentir incomodado...

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