Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Message in a bottle

Queria soltar o grito que lhe apertava a garganta mas o som saía seco, quase morto, asfixiado pela vergonha de ter chegado a esse ponto. Pedir ajuda era como descer ao grau mínimo da condição humana, era assumir-se como não vencedor, um mero mortal sujeito às fragilidades dessa incómoda condição. No fundo da sua derrota estava uma fervilhante vontade de dizer a todos aqueles que ainda acreditava lhe queriam bem que precisava deles, de um abraço, de um empurrão, em suma, de ajuda. Estava preso em si, nos ensinamentos e ditames de uma sociedade que valorizava o sucesso e a capacidade de levar tudo à frente sem um braço em redor dos ombros, sem olhar para o lado, sem uma palavra de incentivo. Deixou o tempo passar, carcomido por dentro, enterrado na desesperança. Mais tarde, bem mais tarde, olhou em volta e sentiu-se finalmente acompanhado, integrado num grupo. Por todo o lado sentia aquela impotência, aquele silêncio desesperado, a ensurdecedora incapacidade de estender a mão, de verter uma lágrima, de clamar por um abraço ou uma palavra, um olhar que fosse.
Estas histórias imaginadas têm apenas um inconveniente – não há imaginação que não se sustente num pedaço de realidade. E a doença, muito mais do que a sua ausência, tem uma capacidade de multiplicação imparável, sobretudo se não controlada no momento devido. Be aware, be very aware.
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2 comentários
De Teresa a 12.11.2014 às 15:16
Já vividos, testemunhados, ou a viver e testemunhar.
Faz impressão pensar que esse silêncio, essa dor, pode ser tão profunda que uma pessoa, e mesmo ao lado, não perceba.
Quantos casos conhecemos de que se chegou a um extremo e toda a gente diz que nada faria prever?!
Será desatenção - durante alguns tempos estivemos tão embrenhados no nós e nas nossas coisas que não vimos? - ou será ingenuidade?
Faz impressão fazer este exercício... devemos fazer como o Harvey Specter (SUITS) sugere: "Being a lawyer is like being a doctor. You keep pressing it until it hurts, then you know where to look." ?? Substituindo "lawyer" por "amigo", "conhecido", "humano"?!
Food for thought

