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O carrossel

Quinta-feira, 11.10.18

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Gira que gira e volta a girar.

 

Creio que esta era uma lengalenga entoada nos idos da infância, provavelmente a acompanhar a dança do pião de madeira, embalado pela corda suja e coçada dos nossos sonhos. Éramos felizes como jamais o voltámos a ser e pouco interessa se o sabíamos ou não, pensar nisso era um absurdo visto aos olhos de crianças sorridentes e de joelhos esfolados, era uma perda de tempo, apenas mais uma parvoíce aborrecida do mundo dos adultos. A lenta valsa do pião, naqueles vagarosos segundos que antecipavam a sua inevitável queda por terra, era um vislumbre nebuloso da tristeza que ainda não conhecíamos. Arrumávamos o pião no bolso do fato de treino e rumávamos aos casulos onde a alcatifa já não cheirava a relva, onde os joelhos já não se esfolavam no mar de risos dos nossos amigos. Vinha o banho e a pele enjoativamente cheirosa, o jantar invariavelmente a contragosto, os trabalhos de casa sem necessidade de qualificativos, os traumáticos deveres que diziam ser as ferramentas do nosso futuro, daquele futuro que hoje conhecemos e que sabe a saudade e a desperdício.

 

O carrossel de ontem, de corridas sem fim, saltos e gargalhadas, é hoje o passo esbaforido e exausto para impedir que mais uma porta do autocarro se feche nas trombas dos nossos sonhos. Os saudosos gritos estridentes de alegria pura e descontrolada são hoje as buzinas irritadas e chorosas que temperam o túnel de alcatrão gasto e de prédios tristes, a rua dos nossos pesadelos.

 

Não, a vida não é assim tão triste quando abandonamos a criança que fomos. Não é? Será que a vivemos com uma réstia do brilho da nossa infância? Será que percebemos que é aí que estará a nossa salvação, o Santo Graal da felicidade? Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 14:30


3 comentários

De Teresa a 15.10.2018 às 15:10

Uns enjoam no carrossel (compreensivo já que estás a rodopiar sem sair do sítio...), outros têm medo da montanha-russa (todos aqueles altos e baixos e curvas inesperadas...), outros ficam com vertigens no baloiço (parece que a subida não termina mais, ou então aqueles breves segundos em que no regresso olhas para o chão em baixo e seguras-te com toda a força para não te estatelar de cara no chão a 100 km/h...) mas creio que será bem pior ficar de fora. Do Parque de Diversões. Da Vida.

Fizeste-me lembrar aquela que se ouve pelas feiras: "Mais uma voltinha, mais uma viagem." E AINDA BEM. A alternativa é muito mais dolorosa, entediante e de um silêncio que desagarra a alma do ser... Estamos vivos e na luta! . O truque é fazermos como os miúdos que andam no baloiço como se nunca fossem cair, no carrossel acenando continuamente como se de regresso de uma viagem longa. e a correr para a montanha-russa porque querem apanhar o carro da frente ou o último mas querem chegar lá e poder escolher

De bolaseletras a 17.10.2018 às 14:39

"O truque é fazermos como os miúdos"...e, incrivelmente, passamos boa parte da nossa vida como pais a preparar os miúdos para se comportarem como adultos. Há dias em que parece que nada faz sentido.

Abraço
A.

De Teresa a 19.10.2018 às 11:19

Eles é que sabem. E esqueci-me de acrescentar que correm de uma para outra - atracção - com os atacadores desapertados e a comer um chupa

São fases da vida que passam demasiado rápido. Antes de que o adulto tome conta e desaprenda a viver . Mas só assim faz sentido. Trust me

Bom fim de semana!

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