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O regresso da poesia - Saudade

Sexta-feira, 11.09.15

saudade.jpg

Na adolescência escrevia poemas com a frequência com que o Jardel metia a redondinha lá onde a coruja dorme. A juventude chegou e isso da poesia perdeu espaço para as coisas práticas da vida (copos, miúdas, copos e miúdas). A capa de gajo sensível que as moçoilas sempre apreciaram em mim (aquelas que valiam a pena) foi perdendo brilho à medida que os genes olivalenses ganhavam força, que macho que é macho anda lá agora a escrever parvoíces em forma de verso. Hoje, ainda longe da fase da vida Mário Soares “Estou-me a cagar para o que digo e para o que pensam do que eu digo”, terá chegado a altura de voltar atrás no tempo e, talvez, quem sabe, voltar a ser um pouco mais do que realmente sou. O que ontem foi um texto sobre a saudade, floriu e desabrochou num poema de saudade. Nunca é tarde para voltarmos a ser adolescentes, nunca é tarde para um poema.

 

Dizem que a saudade não se traduz

que a língua inglesa a desconhece

que é só nossa

esta ausência indefinível

esta dor sem cheiro.

Dói quem a vida nos abandonou

dói quem fica mas para sempre se perdeu.

 

Tenho saudades de tudo.

Dos dias sugados a jogar à bola na rua

dos amigos dispersos para lá dos oceanos

dos beijos que não dei

dos que dei e são já passado.

Saudade é bradar ao vento que o que hoje temos não chega

o que hoje se esvai só

nos lega o vazio

o que recebemos é sempre menos do que ontem tivemos.

Somos um povo estranho

marinheiros perdidos na inconsciência desta lusitana maldição.

 

Saudade é ser Verão todo o ano

sentir as memórias do sal a beijar o corpo

a espuma do mar a secar-nos na pele.

Saudade é impedir que os caminhos da memória

esbarrem numa parede nua e fria

é esgotar as palavras que estavam por dizer ou inventar

é deixar as memórias no lume brando da fogueira

que conforta as noites frias.

 

Tenho saudades dos joelhos esfolados na gravilha

dos beijos que dei ou que apenas sonhei.

 

O que somos é feito do passado que tecemos.

 

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publicado por bolaseletras às 15:30


2 comentários

De Teresa a 11.09.2015 às 16:45

Tens jeito.
Chama-se o Abrunhosa para cantar isto, ele traz as miúdas e os copos e a tua reputação fica intacta nos Olivais


Eu acho graça a Soares. Era demasiado nova, e protegida, para o conhecer (verdadeiramente) antes... Quem não deve achar é quem tem de levar com ele todos os dias depois do pequeno-almoço ahahahah

Mas porque acho graça?! Porque vemos a velhice completamente instalada e de repente alguém diz "Soares é fixe" e vês a estamina e alegria dos 40 anos vir ao cimo. Como se a mente rejuvenescesse por momentos até o corpo encurvado. Todos deveríamos ter uma "palavra-passe" para quando chegarmos a essa idade. Um Viagra emocional... e sim essa mesma atitude cagativa de "quero lá saber se fui ontem, hoje também quero ir ao Sócrates" e ala que se faz tarde (uma coisa que me "magoa" é ver como a 3ª idade é tratada e se deixa tratar) "Soares é MESMO Fixe!"

Nada resume melhor Soares, Saudade do que o que dizes: "O que somos é feito do passado que tecemos"

De bolaseletras a 12.09.2015 às 11:42

Soares, no meio dos seus infindáveis defeitos, é o mais genuíno de nós. Fossem todos os nossos velhos como ele, corajosos como ele e, já agora, também amparados como ele. Haveria mais poesia na velhice.

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