Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Portugal, a flor e a foice - da emigração lusitana

“De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravidão que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta”.
Esta análise de J. Rentes de Carvalho sobre o fenómeno da emigração está naturalmente desatualizada face à realidade atual. Se este movimento persiste nos dias de hoje, se ganhou novo impulso com a merda da crise e respetivas consequências troikianas, o que hoje nos deve preocupar não é apenas a saída das pessoas em si mas, sobretudo, que hoje estejamos a perder aqueles em quem investimos tanto, os melhores, o fruto do esforço que o país fez para formar os nossos filhos. Já não são apenas as mãos que seguram as enxadas ou que cimentam os tijolos que saem do país, são agora também os cérebros, as ideias e a vontade de inovar que nos esvaziam o futuro a cada quilómetro que se afastam, a cada dia que estão longe de nós. São escravos os meus amigos que me deixam mais só e menos rico (de espírito, entenda-se, que essa malta nem uma imperial pagava) neste país cada vez mais envelhecido? Não, não o serão, acho que neste ponto Rentes de Carvalho privilegiou a literatura face à realidade das coisas. Serão eles vítimas da negação do direito elementar a viver no seu país? Em parte sim, porque a busca de melhores condições profissionais que de alguma forma aqui lhes são negadas ou dificultadas os forçaram a procurar novos rumos. E do ponto de vista político, será justo dizer que renunciaram à revolta? Aqui tendo a concordar com o autor, talvez pudessem ter contribuído um pouco mais, insistido mais uns pozinhos para mudar por dentro o país que os forçou a partir. Não é uma crítica, meus amigos, é um apelo para que não desistam da ideia de voltar e de juntos mudarmos esta bandalheira. Um abraço com saudades vossas.
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20 comentários
De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 19:38
Abraço.
De bolaseletras a 29.10.2014 às 20:52
Grande abraço
De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 21:57
Abraço.
De Teresa a 29.10.2014 às 21:04
É que não vejo mesmo. Não é (bem) uma desistência. É sucumbirem a um País que lhes nega, rejeita, achincalha os direitos, os deveres, os modos, a criação.
Temos tudo isso que, J.Rentes de Carvalho e tu dizes, para lhes apontar.
Mas têm também, e maior, a nossa admiração eterna por uma coragem que nos falta. E por nos mostraram, para quando nos faltar as forças, o caminho.
Como dizia o poeta "tudo vale a pena quando a Alma não é pequena" e a desta Gente Brava e Corajosa é enorme.
Gente mais brava não há, António.
De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 22:02
Abraço.
De Teresa a 29.10.2014 às 23:46
O que espera? O que levam. Só esperança. Na proporção da sua cultura e do seu próprio conhecimento. Sim, o Carlos nunca se meteria numa barcaça eu não consigo deixar de pensar no filme os "Deuses devem estar doidos" para entender o que nos parece tão inconcebível.
Ainda bem que uns vão para Londres
Tudo na proporção, Carlos. Daquilo a mais, ou a menos, que a nossa (de cada um) terra nos dá.
Abraço e continuação de boa luta,
Teresa
* periodismohumano.com/migracion/el-video-d
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 02:18
Abraço e, uma vez mais, obrigado pelas suas palavras.
P.S. - Quanto à notícia, vivemos num mundo em que uma parte dos privilegiados não sente qualquer empatia pelos mais miseráveis precisamente porque deixou de os ver como aquilo que são, i.e., como nós mesmos.
De bolaseletras a 29.10.2014 às 22:38
De Teresa a 29.10.2014 às 23:53
A mim bastava mostrarem-me uma foto de pastel de nata ou ler um verso de Fernando Pessoa para voltar atrás. (exageros à Teresa mas acho que entendes...)
Isso, e ou tanto mais, serão um dia um apelo irresistível. Entretanto, também a raiva da traição e o ressentimento, passam e tudo relativizam.
Já é muita gente que me passa pelos olhos e coração em idêntica situação... tantas gerações em quem não souberam investir e prender.
Eles voltam e não é por seres romântico ou utópico. Ou és as duas coisas, e tanto mais, numa embalagem de gente boa.
Fiquem bem,
Teresa
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 02:35
De Teresa a 30.10.2014 às 09:58
Ou então diga só que voltou que ele bebe sozinho e à mesma brindando ao regresso.
Vocês - mesmo aqueles com quem nunca estivemos - fazem-nos falta. São nossos. Falta um quadradinho, especial e vital, desta manta de retalhos de gente boa e feliz (ainda que tantas vezes com lágrimas).
Abraço,
Teresa
PS - O apontamento da TAP era, na brincadeira, e só para mostrar que apesar de que nada mudou há diferenças nas condições com que se dá o "salto"... eu lembro-me do desgarro com que os Tios Armandos da minha infancia partiam... eram meses sem saber se estavam, sequer vivos. Hoje, com algum sacrifício, mas até a tia lurdes se punha a bordo do avião - com os mesmos terços e promessas - e ía dar um jeitinho à casa ahahahah
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 10:50
Quanto à imperial, indo a Lisboa, terei muito gosto em oferecer uma ao António e outra à Teresa. Se forem ao Porto numa altura em que eu esteja lá ou se vierem a Londres, idem. E sublinho a parte do «muito gosto». :-)
Grande abraço a ambos.
De Teresa a 30.10.2014 às 11:11
Os "meus" Polacos já estão de volta a casa - vou ser "tia" de um Francisco cujo nome não vou conseguir pronunciar
Again:
"I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear.
Nelson Mandela"
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 12:50
Quanto a Mandela, não há palavras que lhe façam justiça. Era um ser humano absolutamente excepcional! Deixo aqui «Invictus», o poema de William Ernest Henley de que ele tanto gostava:
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 12:55
De bolaseletras a 30.10.2014 às 13:41
Essa imperial é que era de valor, algures no mundo, com muito, mas mesmo muito gosto! Grande abraço para os dois!
De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 14:00
Grande abraço!
De Teresa a 30.10.2014 às 18:34
O Poema é lindo
Abraço e não quine,
Teresa
De Mcp a 30.10.2014 às 15:56
Aprendi que enquanto soubermos onde é o nosso lugar e quem é a nossa gente o mundo nunca nos irá parecer demasiado grande.
Por isto estou aqui ao teu lado para mudar o que for necessário.
Conta comigo porque bom filho a casa torna...e os outros também
Da um abraço meu à minha gente,
Até ja
Mcp
De bolaseletras a 30.10.2014 às 16:04
Anda daí, isso já está tudo montado, anda daí que há muito por montar ainda neste cantinho à beira mar plantado!
Grande abraço
Até já!
