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Portugal, a flor e a foice - da emigração lusitana

Quarta-feira, 29.10.14

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“De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravidão que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta”.

 

Esta análise de J. Rentes de Carvalho sobre o fenómeno da emigração está naturalmente desatualizada face à realidade atual. Se este movimento persiste nos dias de hoje, se ganhou novo impulso com a merda da crise e respetivas consequências troikianas, o que hoje nos deve preocupar não é apenas a saída das pessoas em si mas, sobretudo, que hoje estejamos a perder aqueles em quem investimos tanto, os melhores, o fruto do esforço que o país fez para formar os nossos filhos. Já não são apenas as mãos que seguram as enxadas ou que cimentam os tijolos que saem do país, são agora também os cérebros, as ideias e a vontade de inovar que nos esvaziam o futuro a cada quilómetro que se afastam, a cada dia que estão longe de nós. São escravos os meus amigos que me deixam mais só e menos rico (de espírito, entenda-se, que essa malta nem uma imperial pagava) neste país cada vez mais envelhecido? Não, não o serão, acho que neste ponto Rentes de Carvalho privilegiou a literatura face à realidade das coisas. Serão eles vítimas da negação do direito elementar a viver no seu país? Em parte sim, porque a busca de melhores condições profissionais que de alguma forma aqui lhes são negadas ou dificultadas os forçaram a procurar novos rumos. E do ponto de vista político, será justo dizer que renunciaram à revolta? Aqui tendo a concordar com o autor, talvez pudessem ter contribuído um pouco mais, insistido mais uns pozinhos para mudar por dentro o país que os forçou a partir. Não é uma crítica, meus amigos, é um apelo para que não desistam da ideia de voltar e de juntos mudarmos esta bandalheira. Um abraço com saudades vossas.

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publicado por bolaseletras às 17:19


20 comentários

De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 19:38

António, se me permites meter-me onde não sou chamado (estás a referir-te aos teus amigos, mas não resisto a meter a minha colher), os meus pozinhos para mudar o país consistiram em sempre ter vivido (pessoal e profissionalmente) de acordo com as regras do Direito e da Ética (com falhas, evidentemente, porque eu sou só humano) e em ter exigido isso dos outros sempre que estive em posição de o fazer. A certa altura, não vi outra alternativa a não ser sair do país. Não tenho mágoa, não tenho mesmo, porque a vida é muito curta para perder tempo com isso; aí, aqui ou noutro sítio qualquer, o tempo não pára e nós, infelizmente, temos prazo de validade. Mas, para ser sincero, cada vez mais creio que o Jorge de Sena é que tinha razão: «A questão não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal.»
Abraço.

De bolaseletras a 29.10.2014 às 20:52

Carlos, ao escrever o texto também me lembrei de ti e a tua colher é sempre muito bem vinda. Não tenho dúvidas que fizeste tudo pelo melhor que sabias cá pela nossa terra, já tenho dúvidas que ela e os que a governam mereçam muito mais de ti e dos outros. Ainda assim, não resisti a espicaçar-vos, o país precisa dos seus melhores, porra, mesmo que não os mereça!

Grande abraço

De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 21:57

António, obrigado pelas tuas palavras. Posso não ser um dos melhores, mas, modéstia à parte, sou bastante razoável; e, efectivamente, o país não me merece (nem a ti).
Abraço.

De Teresa a 29.10.2014 às 21:04

Não vejo tanta diferença entre a "fuga" do Carlos, que comentou antes, e a do meu Tio Armando que foi de boleia até Chaves, de ali a pé até ao Açude e lá deu o salto até Espanha. Como ele acabou em Montepelier não deve ser história romântica porque até termos notícia dele passaram muitas noites, semanas e meses de velinhas acesas, terço nas mãos e promessas à Sra. da Saúde.

É que não vejo mesmo. Não é (bem) uma desistência. É sucumbirem a um País que lhes nega, rejeita, achincalha os direitos, os deveres, os modos, a criação.

Temos tudo isso que, J.Rentes de Carvalho e tu dizes, para lhes apontar.
Mas têm também, e maior, a nossa admiração eterna por uma coragem que nos falta. E por nos mostraram, para quando nos faltar as forças, o caminho.

Como dizia o poeta "tudo vale a pena quando a Alma não é pequena" e a desta Gente Brava e Corajosa é enorme.
Gente mais brava não há, António. Estes são os Ronaldos, os Fernandos Nobre, os Carlos Azevedo, os J.Rentes de Carvalho (não sei mas acho que ele também emigrou não foi?!) que se puseram a caminho... para eles apontaremos quando precisarmos e temo que precisaremos.

De Carlos Azevedo a 29.10.2014 às 22:02

Teresa, pela minha parte, muito obrigado pelas suas palavras. Não sou corajoso (reservemos isso para quem atravessa África e se mete numa barcaça para atravessar o Mediterrâneo, arriscando a vida), mas luto por aquilo que acredito ser capaz de alcançar. Em Portugal, perdi a esperança no país, mas não em mim. E se é verdade que o país é pequeno, não o é menos que o mundo é vasto.
Abraço.

De Teresa a 29.10.2014 às 23:46

A coragem dos do Mediterrâneo não é menor do que a de tantos que avançam ao desconhecido a bordo de um avião da TAP.
O que espera? O que levam. Só esperança. Na proporção da sua cultura e do seu próprio conhecimento. Sim, o Carlos nunca se meteria numa barcaça eu não consigo deixar de pensar no filme os "Deuses devem estar doidos" para entender o que nos parece tão inconcebível.
Ainda bem que uns vão para Londres e acreditam num futuro melhor. Outros metem-se na barcaça, ou olham do alto da vala*, e acreditam com a mesma ilusão. Para os da barca seria inconcebível que com tanto que, mesmo assim, o Carlos tinha comparativamente deixar a terra mãe e as suas gentes.
Tudo na proporção, Carlos. Daquilo a mais, ou a menos, que a nossa (de cada um) terra nos dá.
Abraço e continuação de boa luta,
Teresa

* periodismohumano.com/migracion/el-video-de-la-foto-juegan-al-golf-mientras-varios-inmigrantes-intentar-saltar-la-valla-de-melilla.html

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 02:18

Teresa, vim para Londres precisamente num avião da TAP. :-) Compreendo o que diz e agradeço-lhe, mas são registos de coragem muito diferentes. Eu faço parte dos privilegiados deste mundo e, acredite, faço por nunca o esquecer. Nos momentos de autocomiseração, que os há, penso sempre nisso e noutra coisa que os meus pais nos ensinaram, a mim e à minha irmã: o respeito que nos é devido deveria ser um adquirido, mas, sendo o mundo o que é, devemos obtê-lo vergando quem no-lo recusa até ao limite das nossas forças.
Abraço e, uma vez mais, obrigado pelas suas palavras.

P.S. - Quanto à notícia, vivemos num mundo em que uma parte dos privilegiados não sente qualquer empatia pelos mais miseráveis precisamente porque deixou de os ver como aquilo que são, i.e., como nós mesmos.

De bolaseletras a 29.10.2014 às 22:38

Transbordam coragem, sim, os nossos emigrantes. Por isso os quero de volta, mesmo que o país os não mereça. Sei que isto é um bocadinho romântico e utópico, mas deixem-me dizê-lo e sonhá-lo.

De Teresa a 29.10.2014 às 23:53

Ah, mas eles voltam. Isto (o País, a Cultura, as Gentes) diz-lhes (diz-nos), mesmo assim, tanto.

A mim bastava mostrarem-me uma foto de pastel de nata ou ler um verso de Fernando Pessoa para voltar atrás. (exageros à Teresa mas acho que entendes...)

Isso, e ou tanto mais, serão um dia um apelo irresistível. Entretanto, também a raiva da traição e o ressentimento, passam e tudo relativizam.

Já é muita gente que me passa pelos olhos e coração em idêntica situação... tantas gerações em quem não souberam investir e prender.

Eles voltam e não é por seres romântico ou utópico. Ou és as duas coisas, e tanto mais, numa embalagem de gente boa.

Fiquem bem,
Teresa

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 02:35

Já escrevi isto no meu espaço. Em Setembro, fui a Portugal. Quando o comandante do avião nos informou de que havíamos entrado no espaço aéreo nacional, fiquei comovido -- e essa comoção surpreendeu-me. Pensei: estou em casa. Podemos querer mais mundo do que Portugal tem para nos oferecer, mas não podemos fugir ao sentimento de pertença ao nosso país.

De Teresa a 30.10.2014 às 09:58

Quando voltar, de férias ou de vez, pague uma imperial ao António senão ele não se cala .
Ou então diga só que voltou que ele bebe sozinho e à mesma brindando ao regresso.
Vocês - mesmo aqueles com quem nunca estivemos - fazem-nos falta. São nossos. Falta um quadradinho, especial e vital, desta manta de retalhos de gente boa e feliz (ainda que tantas vezes com lágrimas).
Abraço,
Teresa

PS - O apontamento da TAP era, na brincadeira, e só para mostrar que apesar de que nada mudou há diferenças nas condições com que se dá o "salto"... eu lembro-me do desgarro com que os Tios Armandos da minha infancia partiam... eram meses sem saber se estavam, sequer vivos. Hoje, com algum sacrifício, mas até a tia lurdes se punha a bordo do avião - com os mesmos terços e promessas - e ía dar um jeitinho à casa ahahahah

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 10:50

Teresa, esta conversa parecia-me familiar e, depois de uma breve pesquisa, descobri a razão: já a havíamos tido há uns tempos! :-) [http://thecatscats.blogspot.co.uk/2014/05/um-breve-esclarecimento.html] Pelo menos, somos absolutamente coerentes. ;-)
Quanto à imperial, indo a Lisboa, terei muito gosto em oferecer uma ao António e outra à Teresa. Se forem ao Porto numa altura em que eu esteja lá ou se vierem a Londres, idem. E sublinho a parte do «muito gosto». :-)
Grande abraço a ambos.

De Teresa a 30.10.2014 às 11:11

Eu lembrava-me dessa conversa .

Os "meus" Polacos já estão de volta a casa - vou ser "tia" de um Francisco cujo nome não vou conseguir pronunciar ... o apelo é demasiado forte e com coragem, ainda maior, talvez, do que a que os fez viajar para terras (ainda) de Sua Majestade, preparam-se para dar à Pátria uma 2ª oportunidade.


Again:

"I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear.

Nelson Mandela"

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 12:50

Teresa, fico contente por si e pela sua família. E, sim, um nome polaco não será fácil pronunciar um nome polaco. :-)
Quanto a Mandela, não há palavras que lhe façam justiça. Era um ser humano absolutamente excepcional! Deixo aqui «Invictus», o poema de William Ernest Henley de que ele tanto gostava:

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 12:55

(Errata: repeti «um nome polaco» duas vezes. E reparo que me estou a alongar no número de comentários. É melhor pararmos antes que o António nos corra daqui para fora. Ouvi dizer que a malta dos Olivais não é para brincadeiras! ;-) )

De bolaseletras a 30.10.2014 às 13:41

Carlos, mi casa es su casa, e a vossa conversa só abrilhantou o post.
Essa imperial é que era de valor, algures no mundo, com muito, mas mesmo muito gosto! Grande abraço para os dois!

De Carlos Azevedo a 30.10.2014 às 14:00

António, desde que eu não quine entretanto, essa imperial, mais cedo ou mais tarde, será bebida! :-)
Grande abraço!

De Teresa a 30.10.2014 às 18:34

A malta dos Olivais só é para brincadeiras

O Poema é lindo , vamos voltar a ele muitas vezes. Combinado?

Abraço e não quine,

Teresa

De Mcp a 30.10.2014 às 15:56

Meu querido pequenino,

Aprendi que enquanto soubermos onde é o nosso lugar e quem é a nossa gente o mundo nunca nos irá parecer demasiado grande.

Por isto estou aqui ao teu lado para mudar o que for necessário.

Conta comigo porque bom filho a casa torna...e os outros também

Da um abraço meu à minha gente,

Até ja

Mcp

De bolaseletras a 30.10.2014 às 16:04

Grande reflexão, pequenino, isso é que é falar e viver!

Anda daí, isso já está tudo montado, anda daí que há muito por montar ainda neste cantinho à beira mar plantado!

Grande abraço

Até já!

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