Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Portugal, a flor e a foice - da emigração lusitana

“De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravidão que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta”.
Esta análise de J. Rentes de Carvalho sobre o fenómeno da emigração está naturalmente desatualizada face à realidade atual. Se este movimento persiste nos dias de hoje, se ganhou novo impulso com a merda da crise e respetivas consequências troikianas, o que hoje nos deve preocupar não é apenas a saída das pessoas em si mas, sobretudo, que hoje estejamos a perder aqueles em quem investimos tanto, os melhores, o fruto do esforço que o país fez para formar os nossos filhos. Já não são apenas as mãos que seguram as enxadas ou que cimentam os tijolos que saem do país, são agora também os cérebros, as ideias e a vontade de inovar que nos esvaziam o futuro a cada quilómetro que se afastam, a cada dia que estão longe de nós. São escravos os meus amigos que me deixam mais só e menos rico (de espírito, entenda-se, que essa malta nem uma imperial pagava) neste país cada vez mais envelhecido? Não, não o serão, acho que neste ponto Rentes de Carvalho privilegiou a literatura face à realidade das coisas. Serão eles vítimas da negação do direito elementar a viver no seu país? Em parte sim, porque a busca de melhores condições profissionais que de alguma forma aqui lhes são negadas ou dificultadas os forçaram a procurar novos rumos. E do ponto de vista político, será justo dizer que renunciaram à revolta? Aqui tendo a concordar com o autor, talvez pudessem ter contribuído um pouco mais, insistido mais uns pozinhos para mudar por dentro o país que os forçou a partir. Não é uma crítica, meus amigos, é um apelo para que não desistam da ideia de voltar e de juntos mudarmos esta bandalheira. Um abraço com saudades vossas.
