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Portugal, a flor e a foice - J. Rentes de Carvalho

Quarta-feira, 27.08.14

 

É vergonhosa a lentidão com que atualmente devoro livros. Desculpar-me com o trabalho ou a nobre ocupação da paternidade é enganar-me a mim próprio. Largasse eu o vício do futebol e das notícias devoradas nos tablets e o tempo para ler regressaria e faria de mim um ser menos informado mas certamente mais interessante. Hesitei se deveria escrever culto, mas desviei de rumo pela lembradura que há por aí tanto leitor compulsivo burro que nem um calhau. Não interessa a quantidade do que lemos, releva sobretudo a qualidade. Ainda mais importante do que isso interessa o que fazemos com o que lemos, o efeito que deixamos que as ideias tenham em nós. Mas isso já é muita areia para a camioneta deste blog, vou tentar não tergiversar mais.

Vem isto a propósito do excelente “Portugal, a flor e a foice” do não menos excelente J. Rentes de Carvalho. Estou a meio do livro e tenho-me deliciado, tanto quanto tenho sofrido, com os tristes episódios da triste/gloriosa história de Portugal, brilhantemente descritos e analisados pelo autor. Esta obra é excelente para quem já muito emprenhou com as ideias feitas de que Portugal já foi um grande império, rico, poderoso e tonitruante, que só a injustiça, as maliciosas forças estrangeiras e o azar relegaram agora para as franjas do esquecimento. Rentes de Carvalho diverte-se e diverte-nos a demolir, uma a uma, as presunções da nossa história e os mitos dos nossos heroísmos. O mais importante contributo para a percepção da genética de um povo é dado com as respostas à questão de como foi possível, em pleno século XX, termo-nos subjugado, durante décadas, às mãos de um pobre ditadorzeco e do anquilosante sistema por ele montado para assegurar um poderzinho triste e paralisante que nos trouxe onde hoje estamos. Muitos acusarão Rentes de Carvalho de abusar na maledicência e na insistência dos males da nação, esquecendo-se de enaltecer o que de bom fizemos ao longo de tantos séculos de história. Confesso que, tendo em conta o estado social, político e económico em que hoje nos encontramos prefiro bem mais conhecer os podres que aqui nos trouxeram, do que as supostas glórias e grandes feitos que, afinal, não trouxeram resultados visíveis que embalem a esperança em dias melhores. Conhecer o passado para orientar o presente e evitar erros no futuro, é para isso que a história deveria servir, não para gritar aos quatro ventos as padeiradas de uma qualquer padeira.

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publicado por bolaseletras às 18:23


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