Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Possível diálogo entre Pablo Picasso e Brigitte Bardot
- Não consigo perceber o que receias, Brigitte. Estás no auge da tua beleza, este é o momento a imortalizar, minha querida.
- Não quero, sei que não me sentirei bem nua durante tantas horas, exposta, indefesa, diante de ti, diante de qualquer homem.
- Minha preciosa menina, a nudez é o teu estado mais natural, é, desde o primeiro minuto, desde o primeiro choro, a emanação de toda a pureza do ser humano. Quanto a mim, meu doce, não tens que te preocupar, já vi demasiadas mulheres nuas para me deixar impressionar ou excitar por isso. Para mim será como ver despida a minha filha a quem vou dar banho.
- Queres com isso dizer que o meu corpo não te excita?
- Poderei deleitar-me interiormente com a visão de tão rara beleza, mas será mais um agradecimento à natureza por não desistir de tentar alcançar a perfeição do que um qualquer arrobo de excitação física. Estou velho, Brigitte, já não sou ameaça para velhas mulheres quanto mais para pepitas reluzentes como tu.
- Desculpa Pablo, não estou certa de que posar nua diante de alguém a quem não desperto desejo vá dar de mim a melhor imagem. Acho que por mais belo que fosse o retrato que de mim pintasses lhe faltaria vida, vibração, calor.
- As mulheres, minha querida, foram as mulheres que me sugaram a energia toda com essas eternas dúvidas e contradições. Vou-te pintar na mesma, bastou-me esta conversa para te despir com os olhos muito além da pele, bem mais perto do teu âmago do que imaginas.

