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Saudade

Quarta-feira, 09.09.15

 Hans van der Meer_Budapeste 2000.pngFotografia de Hans van der Meer, Budapeste, 2000

 

Dizem que a palavra saudade não tem tradução para a língua inglesa e para muitas outras línguas. Não sei se isso se deve à riqueza da nossa e à pobreza das outras, ou se de facto se confirma que somos um povo saudosista, agarrado ao passado e doentiamente nostálgico pelo que passou, pelas pessoas que ficaram lá atrás ou que, ainda presentes, não mais conseguiremos recuperar. Eu tenho saudades de tudo. De passar os dias na rua a jogar à bola, dos amigos que deixei noutros continentes, dos beijos que não dei, dos que dei e são já passado. A saudade é a nossa forma de dizer que o que hoje temos nunca é suficiente porque o hoje constantemente se esvai e nos entrega ao vazio do que não para de chegar e que sempre nos parece menos do que o que já foi. Somos um povo estranho. Tenho saudades dos tempos em que não me preocupava com isto e muito menos tinha consciência destas idiossincrasias que os genes da nossa lusitanidade nos legaram. Tenho saudades de fazer mossas nos carros com pontapés estratosféricos e de abalar como se aquela fosse a corrida que me salvaria a vida. Tenho saudades de fugir dos ciganos do bairro do Camboja (as barracas da encosta que dava para a Av. Gago Coutinho) ou de lhes fazer emboscadas nos terraços dos vizinhos com projécteis rupestres. Sim, antes os ciganos eram nossos inimigos assumidos, por nós e por eles, e nem sequer se falava em xenofobia ou se fabricavam integrações forçadas. Era assim e pronto, sem teses de doutoramento sobre a fenomenologia das coisas e sem paparazzi a invadirem-nos as ruas e a explorarem-nos as vergonhas. Tenho saudades dos joelhos esfolados da gravilha. Tenho saudades dos beijos que não sei se dei ou se apenas sonhei.

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publicado por bolaseletras às 13:58


5 comentários

De scpsempre a 09.09.2015 às 15:26

Lindo texto!
Transporta-me também à minha infância, à minha rua, às minhas brincadeiras (saltar ao elástico, sirumba, escondidas).
Obrigada por estes 5 minutos de viagem ao passado....

De bolaseletras a 09.09.2015 às 17:58

De nada, o prazer foi também meu, quando escrevi e recordei...;-).

De Teresa a 10.09.2015 às 09:52

Eras, portanto, um Índio.
Maldita "evolução" e "crescimento" que vai dizimando os Índios. E calando o nome das coisas.
Mas saudades - sinceramente? - tenho de poucas coisas, quase nenhumas.

Não porque não tenha sido feliz ou infeliz (porque esta parte também faz parte e deve ser valorizada - esta história dos "sírios" abriu o quarto escuro do tempo dos Retornados e não tem sido fácil ), ao delírio mesmo, com uma despreocupação que nunca mais sentirei, ou sentiremos... Mas saudades não.

Foi bom ter vivido mas vivo focada no presente e no futuro que gostaria de ter. E vivo vendo o que já vivi ser vivido por outros. E vendo as suas reacções, alegrias, tristezas e lutas relembro o que também vivi e fico feliz por, e com, eles. Não tenho saudades dos amigos que já não são ou estão porque os amei em pleno. Agora dedico-me a outros que também deixarão, talvez, de ser e estar. Da Mesma Maneira!

Faz algum sentido? É que ando a cortar no café não tenho saudades mas o corpo tem

Abraço,
Teresa

De bolaseletras a 11.09.2015 às 15:36

Faz todo o sentido, Teresa. Mas também faz sentido não esquecer os amigos de infância, as memórias que fizeram de nós o que hoje somos, aquilo de que realmente gostamos, porque era assim no tempo da ingénua inocência. Bom fim de semana!

De Teresa a 11.09.2015 às 16:34

Esquecer nunca mas não com saudade e sim um enorme prazer por ter tido, vivido, sido.

E a noção de que só éramos tão ingénuos, inocentes e felizes pela mesma razão que hoje os nossos são . O Forte estava a ser guardado por Gente de Primeira Água

Deixar a Saudade - que é uma corda que nos amarra ao que fomos não deixando, por vezes, ir, ser, fazer mais além - é para os fadistas e poetas.

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