Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Até ao dia
![John_Henry_Fuseli_-_The_Nightmare[1].jpg John_Henry_Fuseli_-_The_Nightmare[1].jpg](https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gf117b895/21663453_Q41Dr.jpeg)
John Henry Fuseli, "The nightmare"
O desejo que outrora fora sonho recorrente era hoje o pesadelo das manhãs. Todas as alvoradas eram acompanhadas de um lento içar do leito, sob o peso da crueza das imagens sonhadas, os sons, a boca distorcida por um misto de dor e prazer. Deixara-a partir com a certeza que o ferro em brasa da sua força, da sua paixão, seria sempre imanente e presente na sua pele, no mais fundo de si. Viveu por entre esses desejos inexplicáveis, assentiu que o que lhe era mais precioso passasse a sonho em forma de pesadelo. Dir-se-ia uma estratégia masoquista e desesperada, uma derradeira réstia de esperança de que o nonsense lhe devolvesse o louco sonho que a razão sempre lhe negara. Mais uma noite, mais um fechar de olhos e um abrir do pesadelo. Até ao dia em que o louco sonho regressasse e lhe despedaçasse a triste razão. Até ao dia.
Autoria e outros dados (tags, etc)
O cemitério de folhas

Olhava as letras como quem lê, mas sofria de uma profunda incapacidade de beber o prazer da leitura, da arte, dessa imitação da vida, da própria vida. Recordava outras leituras, vivas, partilhadas, orgias de palavras que inevitavelmente se diluíam na fogueira dos corpos. Entendia as memórias como a parte morta, doce ou amarga, da vida que os dias e os anos lhe tinham devorado. Sopravam-lhe que era possível viver de memórias, seguir em frente e sorrir com o terno abraço de quem já não o tocava, que era suficiente sobreviver gloriosamente com a lembrança daquele beijo. Ele abanava furiosamente a cabeça, recusava-se a viver na imobilidade, na triste dança das folhas mortas. As memórias já só lhe faziam sentido como um atalho para o caminho a percorrer. Rejeitava deixá-las morrer, melhor, insistia em impedi-las de viver. Enfrentava as memórias como D. Quixote desafiava os moinhos, louca e convictamente, tudo fazendo para as reviver, para que ganhassem nova vida, o seu desígnio era ressuscitá-las do cemitério de folhas.
Ela olhou para ele e sorriu. Sempre o mesmo adolescente borbulhento, sempre o mesmo tolo. E, ainda assim, por mais que o negasse, não conseguia deixar de o amar, mesmo que os seus conceitos de amor fossem, supostamente, distintos.
Autoria e outros dados (tags, etc)
Amor à primeira vista

Há aqueles dias, semanas, meses, em que um tipo deixa de ter algo interessante para dizer. Está-se tão embrenhado na vida que só se executa, anda para a frente, fecha dossiers, desenrola projectos, acorda putos, deita putos, monta móvel do Ikea, enche a bagageira até ao limite, despeja as malas para o velho casulo, lava a loiça, seca a loiça, zapping, mais zapping, a merda do Sporting que caminha em círculos infinitos de incompetência e imaturidade, a política nacional nas mãos do mestre da táctica, a política lá fora nas mãos de loucos furiosos ou de ursinhos fofinhos, o diabo a sete. Um gajo vai a ver e o que interessa é mesmo isto. A primeira vez que os lábios se encontram...
Autoria e outros dados (tags, etc)
O Verão é...
…uma janela para o mar. Nada mais, só o mar, o horizonte infinito do azul abraço, a vida como um sonho, o medo de te perder devorado pelo inigualável marulhar das ondas.

The window on the sea - Ferdinando Scianna
Autoria e outros dados (tags, etc)
10 anos do pequeno Miguel

A voracidade com que o tempo por nós passa adiou por alguns dias o já tradicional texto sobre mais um aniversário do meu primogénito. Há quem diga que passa muito rápido a infância, que aproveitamos pouco esta fase maravilhosa da existência. Discordo. Esta aventura que se iniciou há 10 anos sinto-a como parte de mim desde sempre. Os sorrisos, as descobertas, os momentos de pura felicidade, já não me recordo nitidamente do que era a vida sem esta partilha que me insufla o coração até ao limite. As fitas, os choros, as desilusões ainda tão pueris, a luta constante contra os descaminhos das frustrações que ainda não domina, a cada ocorrência revejo-me nelas, na infância que também vivi. Não é sem um lamento interior que me olho ao espelho da minha incapacidade de lhe explicar que é isso que o fará crescer e dele fará um homem, que só assim as alegrias serão efetivamente valorizadas e saboreadas. O amor por um filho não se explica, dizem também, mas creio que a genuinidade desse amor se reforça a cada dia, com a crescente compreensão pelos pais que, sobretudo na fase da “dependência” de nós, a sua felicidade é em boa parte resultado do amor que lhes damos, das experiências que lhes proporcionamos, da forma como os sabemos entender na sua essência sem pretendermos ajustá-los à nossa visão do que deveriam ser. Amo-te, Miquinhas, venham mais 10!
Autoria e outros dados (tags, etc)
Xeque-mate
![]()
Sabia que a melhor defesa era o ataque. Não porque seguisse as tácticas estéreis dos livros da moda mas, simplesmente, porque a vida lhe ensinara essa crua lição. Esperar pacientemente era mais da sua natureza, mas os resultados que obtivera refugiada nessa confortável passividade revelavam à saciedade que o conforto não era sinónimo de sucesso. Fora quando avançara a dama e as torres sem medos, enfrentando o rei e seus bispos de peito aberto, que conquistara terreno, que ganhara o respeito e a admiração das suas presas. Ao invés, quando caminhara passo a passo, lenta e cautelosamente, com os seus tímidos e inofensivos peões, apenas obtivera um sorriso sarcástico do rei e suas tropas, prontas para a espezinhar. A conquista implicava risco e era o risco que a mantinha viva. O receio era o rastilho para uma derrota humilhante.
No último lance, no xeque final, olhou o rei nos olhos e ele cedeu-lhe a sua casa, o destino desejado, a derradeira entrega, o momento em que a vitória de um significava a vitória do outro e em que os medos, a ambição, e a vitória se fundiam e esfumavam no calor daquela entrega.
Autoria e outros dados (tags, etc)
2019

Steve McQueen e Neile Adams, fotografados por John Dominis, 1963
Decisões irrevogáveis para o ano que se avizinha. Convicções inabaláveis. Objectivos perfeitamente definidos. Rotas traçadas a regra e esquadro. O sucesso ao virar da esquina, a felicidade é já ali, é só querer, como se o resto do mundo e todos os que nos rodeiam não tivessem outra hipótese senão conformar-se ao destino que traçámos para os próximos 365 dias.
Outra hipótese:
Respirar apenas. Lentamente, como se cada segundo fosse uma bênção. Sorver o néctar dos Deuses gota a gota, como se a próxima fosse a última e daí não viesse mal ao mundo, porque um dia, inapelavelmente, esse dia há-de ser o último. Ouvir sem pressa. Falar devagar. Silêncio. Falar só se apetecer. Perceber a importância de calar. Amar. Beber mais um golo, lentamente.
Autoria e outros dados (tags, etc)
Da série "O olhar do amor" - Arco íris de areia e sal

O olhar do amor é quente como o sol que banha o mar, sabe a sal e a lágrimas de felicidade e de dor este amor que turva o que os olhos alcançam, que tudo torna cristalino sem nada deixar ver. O olhar do amor é de sexo adocicado e de ternura cor de mel, abraçado por nuances de tesão desenfreada e enjoativos xi-corações. O olhar do amor é da cor de um arco-íris a preto e branco.
Autoria e outros dados (tags, etc)
Da série "O olhar do amor" - 19.º
![]()
Fotografia por Alex Webb/Rebecca Norris Webb, em Nuevo Laredo, Mexico, 1996, ano em que o casal de fotógrafos celebrou o 19º aniversário do seu casamento.
Provavelmente há imagens que espelham melhor o amor do que outras. Há também a possibilidade da imagem que julgamos melhor mostrar o amor apenas revelar o nosso entendimento sobre esse amor, o que é para nós o amor. É possível associar o amor a uma infinidade de atos, estados de espírito, manifestações: carinho, sensualidade, alegria, conforto, paixão, protecção, olhares esgazeados de tesão, olhos marejados pela água mansa de um manso amor. Inicia-se aqui a série “O Olhar do amor”. Porque amor precisa-se.
Autoria e outros dados (tags, etc)
Sobre o Sporting e a sua essência - o amor ao desporto e ao futebol

Que bom foi ver 5.000 adeptos leoninos, em pleno Emirates, contra todas as agruras, renegando as sombras dos dias difíceis, cantar bem alto o seu amor pelo Sporting que é, obviamente, indissociável do seu amor pelo futebol. Que bom foi ver o orgulho e a alegria do Tiago Fernandes, filho do nosso Manel, por poder representar e dignificar o clube do seu coração. Tivemos pouca posse de bola, fizemos pouca mossa no ataque, mas lutámos que nem leões e dignificámos as nossas cores e o nosso país. Sem e-mails a amaciar apitos, sem toupeiras a desviar a bola da baliza, só os nossos rapazes, cheios de garra e de esperança num amanhã melhor. Obrigado Tiago, boa sorte Kaiser!
