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Perdido nas imperfeitas páginas da absurda busca do seu contrário

Quarta-feira, 19.06.19

 

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Creio que tal nunca me aconteceu, no que ao meu comportamento de leitor respeita, mas dou por mim a saltitar ávida e indecisamente entre diversos livros. Não sei se tal se explicará pela falta de tempo para me focar num só, pela tentativa de não me deixar abater pela monotonia de estilos literários, pelo instintivo desafio de estimular as meninges e a capacidade de concentração. Há algum tempo para acabar “Os cus de Judas” de Lobo Antunes, vou entranhando as suas inimitáveis pérolas na exata medida em que me irrito com aquela constante busca da perfeição linguística. Esse esforço que não passa das 10 páginas por tentativa entrelaça-se num interessante ensaio histórico de Marc Ferro, um périplo pela crónica incapacidade dos povos e dos seus líderes em compreender os comos e os porquês dos momentos históricos, constrangendo-os a, desprovidos de tal conhecimento, verem frustrada a sua capacidade de desviar o presente de negros futuros (“A cegueira – uma outra história do nosso mundo”). Para não me facilitar a vida meteu-se-me na pilha dos livros em processo de leitura contínua o bom e velho J. Rentes de Carvalho, primeiro com o “Meças”, mais uma genial caricatura com cheiro a Portugal profundo, logo seguido da “Ira de Deus sobre a Europa”, ainda no início mas com promessas de muita sabedoria pouco politicamente correcta. Desconfio que o problema destes excessos e confusões literárias reside na eterna busca do livro perfeito, aquele que nos preencherá e nos entregará a lamparina da infinita sabedoria. Haverá disso? Não deveria eu já saber que todo o livro, toda a obra de arte é o espelho da nossa imperfeição?

 

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Nem por acaso, regresso ao maravilhoso blog de Rentes de Carvalho (Tempo contado) e descubro que o próprio autor, não obstante a sageza da idade e das léguas literárias percorridas, caiu na esparrela da busca da obra que supostamente lhe encheria as medidas. Deliciai-vos com a descoberta:

 

“Lá caí pela enésima vez na ratoeira dos ditirambos, dos louros, das hipérboles, e talvez também, por que não confessá-lo, para ver se ali finalmente aprenderia a receita que procuro desde que comecei a escrever ficção.

Ao folheá-lo na livraria já me corria água na boca: “Um livro de sonho”; “Um livro sofisticado, urticante, dramático”; “o autor tem um olfacto indiscutível para captar aquilo a que os alemães chamam zeitgeist; “nunca ninguém foi tão longe na representação do real”; “é um autor de génio.”

Nas quase trezentas páginas há um pouco de tudo, não vá o leitor sentir-se lesado por não ver lá a sua tara, o seu vício, a sua estupidez, os seus sonhos de adolescente débil mental, a pedofilia do cinquentão, o exotismo nipónico, os problemas do camembert, o gosto da vodca, a comparação das qualidades da espingarda Swarovski DS5 com as da Steyr Mannlicher, o que  sente ou não depois de engolir certas drogas, e também ainda os problemas muito actuais do aluguer de apartamentos. Só? Acha pouco? Claro que seria pouco, mas logo depois e à mistura vêm as orgias chiques em  casas de sonho, onde  esplêndidas e esplendorosas mulheres sempre ricas, sempre jovens e num cio eterno, copulam com mastins, corpulentos bulldogs ejaculam na garganta das ditas, enquanto em redor é um não findar de enrabanços, o todo embrulhado em aflições psíquicas, idas ao supermercado, ao psiquiatra, longos passeios em bosques, a problemática da criação de vacas…

O estilo, a construção, o vocabulário, o propósito, não desmereceriam de um adolescente transtornado, mas é erro meu, talvez até uma ponta de inveja, porque o autor continua a ser “um valor seguro, porventura um dos pouquíssimos representantes daquilo a que outrora chamávamos literatura”.

 

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publicado por bolaseletras às 14:52

Os cus de Judas (e as nádegas fofas das criadas)

Segunda-feira, 14.11.16

 

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A tropa há-de torná-lo um homem, os homens que o antecederam e foram à tropa nunca deixarão de ser miúdos traquinas, as mulheres desses homens fingem que o mundo é perfeito e que esses a quem chamam seus homens não são a encarnação de pequenos e eternos diabretes. Lobo Antunes entremeia por entre frases complexas e reflexões tantas vezes demasiado profundas um humor de filigrana, que se descobre nas palavras dançantes e nos retratos pintados a lápis de cores da infância, como se hesitasse entre a maturidade inatacável e a tentação pela rebeldia juvenil. Não sei se tal será propositado – pretendendo o autor tudo abarcar, tudo ser, nada deixar por explorar – ou se Lobo Antunes não será mesmo tudo isso, um furacão de maturidades e ingenuidades, um turbilhão de sentenças circunspectas e de gargalhadas alarves. Tudo isto é Lobo Antunes, tudo isto atrai e afasta os que o adoram e odeiam, tudo isto é a cola que une os cacos de um escritor genial e – muito por esse excesso de genialidade – inacessível.

 

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publicado por bolaseletras às 09:43

O cheiro do cu de Judas

Sexta-feira, 04.11.16

  

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Não me venham com palavras plásticas que se leem com os dedos nos tablets da moda, com obras de arte comprimidas nos Kindle aprumadinhos e sem cheiro. Ler é desfolhar páginas já amarelas, é inebriarmo-nos com o cheiro do papel a tresandar a muitas vidas e anos de dedos vorazes ou de prateleiras pardacentas, é tratar o livro com o carinho necessário para que não se desfaça num mar de folhas descoladas, é acomodar a lombada no nosso colo como se fosse um filho recém nascido. Ler Lobo Antunes é mergulhar 20 minutos diários (não mais que isso, as injeções de palavras e sensações podem conduzir a overdoses literárias) num outro mundo que esmiúça o nosso mundo até ao âmago da sua complexa simplicidade.

 

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publicado por bolaseletras às 10:27

"Os cus de Judas" - no Jardim Zoológico da magia das palavras

Quarta-feira, 02.11.16

 

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Começa assim “Os cus de Judas” de António Lobo Antunes, numa reminiscência das sensações da infância/juventude (?) de tempos passados no velhinho Jardim Zoológico de Lisboa. Os sons não eram os que esperávamos de animais mas os de vozes de gaze e sílabas de algodão, os pescoços da girafa não eram compridos como escadas mas sim a altiva e inatingível solidão de esparguete da girafa. Lobo Antunes é único, observa e reflecte com um filtro de beleza e um nível de detalhe que dificilmente alcançaremos. Lê-lo hoje é percebê-lo como não consegui fazer há uns anos atrás, é ter os sentidos mais apurados porque a vida já me ensinou outras nuances sobre a beleza e a fealdade, sobre a riqueza da linguagem e sobre a essencialidade de nunca considerar que uma palavra foi escrita a mais, pois se alguém achou que ela devia existir é porque algo provocou essa sensação, essa necessidade de a plasmar no papel, na vida.

 

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publicado por bolaseletras às 10:35

De regresso a Lobo Antunes

Terça-feira, 27.09.16

 

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Há cerca de 20 anos andei a bater com a cabeça na parede do estilo brilhante, irritante, inexpugnável, desconcertante e peneirento do António Lobo Antunes. Frustrado por um elaborado requinte que não se encaixava na minha forma de ver a literatura e a vida que Lobo Antunes insistia em encaixar nas suas filigranas de palavras, votei ao degredo a obra desse génio controverso. Há uns dias peguei no "Os cus de Judas", respirei fundo e auto motivei-me para dar uma nova oportunidade a essa minha frustração da velha juventude. Logo nas primeiras páginas percebi o que tanto me irritara há 20 anos e não soubera perceber: Lobo Antunes é infinitamente genial, na forma como tece as palavras e ideias de forma tão perfeita, tão única, tão superior a todos os estilos palavrosos que conhecemos, mas é-o de forma arrebatadora e insistentemente excessiva, que não nos deixa respirar, que não deixa a história que magnificamente descreve evoluir com naturalidade. Toda a grandeza da escrita de Lobo Antunes soaria muito melhor se o autor se distraísse um pouco da sua genialidade, se não dedicasse 90% das páginas a mostrar-nos o quão genial é. Tudo o que é demais enjoa, é bem verdade, o que não invalida a genialidade do escritor. Com tempo e paciência irei em próximos posts polvilhar este espaço com pérolas de "Os cus de Judas", com os diamantes perfeitos e demasiadamente lapidados do mestre Antunes.

 

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publicado por bolaseletras às 11:50





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