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6 anos de ti

Terça-feira, 17.04.18

 

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6 anos sempre a correr, a chutar, a lançar, a dar lições sobre a beleza da inocência e a simplicidade da felicidade. Ter dois filhos tão diferentes, com uma panóplia tão variada de qualidades e defeitos é um desafio, uma bênção, um complexo manual de peças soltas que nos convida à construção do interminável puzzle de dois seres humanos decentes e felizes. Pensamos que a obra é nossa, mas é toda deles, mesmo que por vezes nos deixem acreditar que temos uma influência determinante no que sairá dali. Temos evidentemente direito a algumas pinceladas na tela das suas vidas, mas o molde já lá está, o desafio maior é sabermos respeitá-lo e ter a arte para ajustar as cores secundárias ao maravilhoso arco íris que vive dentro deles. Parabéns Francisquinho!

 

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publicado por bolaseletras às 09:51

O manto de ferro

Quinta-feira, 05.04.18

Durban, South Africa 1959.jpg

Durban, África do Sul, 1959, por Ed Vand Der Elsken

 

O ódio tem a cor do medo

o medo transpira o suor dos cobardes

dos que se cobrem das vestes do poder

sob mantos engomados de vergonha e soberba.

 

O pecado toca-lhes a vida

traça-lhes o destino.

 

Nunca entenderão porque na derradeira hora,

perante o precipício sem fim,

só eles e o seu medo habitam a solidão do penhasco

já despidos de ódio e soberba

sós

entregues

para sempre perdidos no medo

de viver a vida sem o manto de ferro do ódio.

   

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publicado por bolaseletras às 15:02

Roma

Quarta-feira, 04.04.18

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Roma, museu a céu aberto, teatro das memórias da civilização, é um paraíso nas mãos de humanos enlouquecidos, essa espécie a quem chamam de turistas. Os romanos, como os parisienses, tresandam arrogância pelo facto de se julgarem superiores por viverem numa das mais belas cidades do mundo. Estão fartos de turistas, desprezam-nos, e não vêm necessidade de os tratar bem para os atrair, pois por um desistente na fila logo a seguir virão milhares de ansiosos candidatos. É de facto triste que os romanos olhem para os visitantes como meras fontes de receita. As indicações para auxílio ao turista são inexistentes (bendita Internet), alguns restaurantes aplicam sem prévio aviso taxas de serviço à vontade do patrão, outros taxistas pretendem cobrar 50 euros de viagem até ao aeroporto quando na porta do táxi têm escrita a tarifa fixa de 30 euros.

  

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Esquecidas as tristezas (r)humanas e o constante enxame de gente em qualquer recanto da cidade, ficam as memórias, as fotografias, a alegria da descoberta de um mundo novo pelos filhotes. Nas imagens que aqui deixo para a posteridade, fica o impactante coliseu, na sua eternidade que perdura há quase 1950 anos, destacando como imagem a guardar um jogo de voleibol disputado às suas portas, em que rapazes de Bogotá (?), talvez de Quito (?) disputavam o jogo mais importante das suas vidas. Sangue, suor, insultos, ameaças, a sede de ganhar em todo o seu esplendor, talvez a sua vingança por não conseguirem vencer na terra mãe e terem que viver à sombra do monstro civilizacional.

 

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O Vaticano, claro, e as gaivotas que nos fixam imóveis, confiantes de que o espírito santo vive em todos nós, como se a maldade nunca nos tivesse tocado. O Vaticano, tanto brilho, tanto ouro, tanto mármore, tanta perfeição, mas a imagem que fica é o contraste das cadeiras velhas e empilhadas que serviram para a glorificação do Papa pelo povo, o povo temente, adorador e mal sentado. Quantos milhares de crianças poderiam ter sobrevivido à fome se os pães tivessem sido transformados em mais pães e não em mais ouro?

  

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publicado por bolaseletras às 12:37

O assobio

Quinta-feira, 29.03.18

 

  

Berlim, 1957.jpg

Berlim, 1957, por René Burri

 

Pouco mais que sombras pouco menos que gente

seres que levitam na escassez de peso e de existência

batimentos inertes em dúvidas

submersas na certeza da sua trémula opacidade.

 

O assobio que se escuta nas escadas cinzento metálico

não é o de uma alegria quente

expectável

de quem está vivo

de quem tem a possibilidade de amar

é apenas o vento frio que confronta as brechas envelhecidas

do ferro e das gentes

na esperança vã de que alguém recorde como é assobiar.

 

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publicado por bolaseletras às 09:51

O papagaio de asas quebradas

Quarta-feira, 28.03.18

  

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 Fotografia de René Burri

 

Nada há mais triste do que a infância que se esfuma

o adulto que se molda em oposição ao vento

contra a corrente do rio que corre livre e abraçado a sonhos crus.

 

O papagaio voa agora solitário

não pelo impulso generoso da criança

mas soprado pela indiferença do abandono,

longe da ingenuidade perdida

saudoso dos dedos quentes e felizes que jamais voltará a sentir.

 

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publicado por bolaseletras às 15:38

A vida como devíamos evitar que ela fosse

Quarta-feira, 28.02.18

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Começa com um ligeiro queixume, uma voz rouca e entristecida que se arrasta por alguns momentos do dia. As respostas invariavelmente acompanhadas por um suspiro, as conversas sem brilho, despidas de sorrisos. Em crescendo, os dias ganham uma tonalidade cinzenta. O hábito da crítica fácil, da desesperança, vai-se entranhando sub-repticiamente sob a pele, um processo indolor, uma discreta invasão tóxica do corpo e do espírito. O torpor da desistência ensombra qualquer luz na contemplação da vida, consome o amor por ela própria, a vida predadora de si mesma. Tudo começou num ligeiro queixume. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 08:54

Porque nem todos os voos são de Ícaro

Terça-feira, 30.01.18

 

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Oportunidades. Um mar delas. Janelas abertas para o mar, escancaradas sobre o precipício dos nossos medos. Dar um passo em frente e sentir aquele frio gelado na espinha de quem se arrisca a viver. Dar dois passos atrás como quem toma balanço, mas nunca tomar a iniciativa de saltar aproveitando o balanço todo que se acumulou nessa interminável ponderação. Cheirar a vida, saboreá-la, sair do conforto das pessoas e das rotinas de sempre, abraçar o mundo e sim, o desconhecido. Tudo pode correr maravilhosamente ou podemos simplesmente estatelarmo-nos no chão frio e de pedra que pode ser a vida. Como o saber? Sim, só conheço uma forma. Para não morrermos estúpidos.

 

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publicado por bolaseletras às 10:28

A cor do mar quando as nuvens se dissipam

Quinta-feira, 25.01.18

   

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Fotografia por Jakub Karwowski 

 

Quando tudo parece indistinto e sem sentido é quando tudo de repente muda, como se num flash a chuva recebesse, sem nada pedir, o doce abraço do sol, as nuvens por magia se dissipassem e revelassem um horizonte nítido, com obstáculos, mas ultrapassáveis, apenas caminhos sem fim para percorrer ou evitar. O que há momentos era negro e desesperançado é agora transparente e refrescante como a mais pura água do riacho que, suave e docilmente, a encaminha para um novo mar, um mar sem tormentas mortais, que aprendeu a respeitar, com todos os seus defeitos e perigos e que, reconhecido por isso, a respeita e acolhe em toda a sua imensidão. O mar sabe da sua desconfiança para com ele, mas sabe também que a sua boa temperança e sabedoria poderá ser o que lhe faltava para tornar as suas ondas mais dóceis, belas e navegáveis.

 

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publicado por bolaseletras às 14:23

A nova arte

Terça-feira, 23.01.18

 

Aleppo, Syria, 2014.jpg

 

Dizia-me no outro dia um amigo, acerca de uma desgraça qualquer, de mais uma qualquer guerra, ou chacina, ou perseguição religiosa, que o ser humano se adapta a tudo. Hoje deparei-me com estas duas fotografias de Hosam Katan, fotojornalista nascido em 1994, em Alleppo, e pensei que nenhuma criança, nenhum ser humano deveria ter que se adaptar a brincar nos escombros do seu passado, nas ruínas da sua vida, ninguém deveria ser obrigado a sobreviver, muito menos com um sorriso nos lábios (porque teve que se adaptar à sua nova realidade, lá está) por entre o sangue dos seus. As fotografias foram tiradas em 2014 na terra mãe de Hosam e não duvido que ele não tenha tido alternativa que não fosse adaptar-se, a ferro e fogo, à sua nova realidade: transformar em arte a vida de merda que alguns homens e dirigentes políticos instituíram como a nova arte de um mundo moderno.

 

Allepo, Syria, 2015.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 16:27

O plano

Quinta-feira, 28.12.17

 

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Aproxima-se novamente aquela maravilhosa altura do ano em que os planos de mudança rejubilam nas nossas mentes crentes e nas redes sociais, em que as certezas de que o homem ou a mulher que seremos amanhã será certamente bem melhor e mais preparado do que o que foi no ano prestes a fenecer. Definimos metas irreais crentes na superação do ser, fechamo-nos numa rota única que nos encaminhará para o tão almejado sucesso, encerramo-nos no quadrado dos nossos longínquos sonhos que, estranha e paradoxalmente, não poderiam ser mais limitados. Planeamos e limitamo-nos a esse rumo pré-definido como se não vivêssemos num mundo em constante e imparável mutação/ebulição, desconhecendo que o melhor plano só poderá ser aquele em que dizemos para nós mesmos: vou estar preparado para o desconhecido, vou ser flexível como um elástico para não quebrar ao primeiro desvio de rota. O plano é não ter plano, é gizar um plano a cada segundo, é destruir o plano pelas mãos de um novo plano. O plano é vivermos.

 

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publicado por bolaseletras às 14:55





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