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O cemitério de folhas

Quinta-feira, 05.09.19

 

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Olhava as letras como quem lê, mas sofria de uma profunda incapacidade de beber o prazer da leitura, da arte, dessa imitação da vida, da própria vida. Recordava outras leituras, vivas, partilhadas, orgias de palavras que inevitavelmente se diluíam na fogueira dos corpos. Entendia as memórias como a parte morta, doce ou amarga, da vida que os dias e os anos lhe tinham devorado. Sopravam-lhe que era possível viver de memórias, seguir em frente e sorrir com o terno abraço de quem já não o tocava, que era suficiente sobreviver gloriosamente com a lembrança daquele beijo. Ele abanava furiosamente a cabeça, recusava-se a viver na imobilidade, na triste dança das folhas mortas. As memórias já só lhe faziam sentido como um atalho para o caminho a percorrer. Rejeitava deixá-las morrer, melhor, insistia em impedi-las de viver. Enfrentava as memórias como D. Quixote desafiava os moinhos, louca e convictamente, tudo fazendo para as reviver, para que ganhassem nova vida, o seu desígnio era ressuscitá-las do cemitério de folhas.

Ela olhou para ele e sorriu. Sempre o mesmo adolescente borbulhento, sempre o mesmo tolo. E, ainda assim, por mais que o negasse, não conseguia deixar de o amar, mesmo que os seus conceitos de amor fossem, supostamente, distintos.

 

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publicado por bolaseletras às 16:56

Amor à primeira vista

Terça-feira, 03.09.19

 

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Há aqueles dias, semanas, meses, em que um tipo deixa de ter algo interessante para dizer. Está-se tão embrenhado na vida que só se executa, anda para a frente, fecha dossiers, desenrola projectos, acorda putos, deita putos, monta móvel do Ikea, enche a bagageira até ao limite, despeja as malas para o velho casulo, lava a loiça, seca a loiça, zapping, mais zapping, a merda do Sporting que caminha em círculos infinitos de incompetência e imaturidade, a política nacional nas mãos do mestre da táctica, a política lá fora nas mãos de loucos furiosos ou de ursinhos fofinhos, o diabo a sete. Um gajo vai a ver e o que interessa é mesmo isto. A primeira vez que os lábios se encontram...

 

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publicado por bolaseletras às 12:25

A Deus

Quarta-feira, 24.04.19

 

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Detalhe de “Extrema Unção”, de Nicolas Poussin

 

Adeus.

Esta despedida que hoje proferimos demasiadas vezes, tantas vezes com excessiva leveza, nasceu da despedida terminal, da expressão outrora usada pelos padres para recomendar as almas ao cuidado de Deus. “Eu te recomendo a Deus”, outorgavam os curas no leito da morte. Hoje, quando tudo é abreviado, em modo rápido e que não canse a língua, fica o singelo e esquivo adeus, sem sequer ligarmos à importância do que dizemos, ao divino que tudo envolve e justifica. Do outro lado do canal da Mancha também os ingleses esquartejaram o conforto da expressão “God be with you” para um pervertido goodbye, a despedida de quem interrompe uma paint para ir bafejar um cigarro à porta do pub da esquina.

Não obstante, a aparente leveza que este despedaçado adeus assume, contrasta com os nossos receios em dizê-lo, com o confortável peso que carregamos em nós por termos alguém que nos dá vida, alguém que nem sonhamos vir a tocar com o verdadeiro significado desse beijo da morte que é dizer-lhe adeus. É bem provável que este abreviar das palavras derive, mesmo que inconscientemente, da patética tentativa para que essa despedida não assuma as proporções de outrora, que o simples adeus não entregue a pessoa amada nas mãos de Deus. A Deus o que é de Deus, ao homem o singelo adeus.

 

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publicado por bolaseletras às 16:26

Gente feita de gente

Sexta-feira, 22.03.19

 

Elizabeth Taylor resting during the filming of Sud

Elizabeth Taylor a descansar, durante as filmagens de "Suddenly, Last Summer" (Espanha, 1959)

 

Precisa-se de gente que abra, gentilmente, alas para quem vem da esquerda ou da direita,

gente que não corra

que não salive quando vê o amarelo beijar o calor assassino do vermelho

homens e mulheres que respirem a serenidade de nuvens imperfeitas

de suspiros de algodão em forma de bolas de sabão

nuvens que não sabem se chovem ou se serenamente flutuam

indecisas entre imitar redondas baleias ou tesouros do tamanho do sonho das crianças.

Procura-se gente que não pergunte por razões

almas despidas de porquês

senhoras que não pintem os lábios ou tisnem os olhos,

mulheres com pestanas que se deixem levar p´lo vento sem toques nem retoques.

Anseia-se por homens com simpáticas e sorridentes barrigas

machos sem machezas nem mulherezas

apenas homens que riem alto quando ninguém dorme

e que ressonam quando a noite cai.

Buscam-se crianças de joelhos esfolados

com cheiro de riso e de relva molhada

tristes e felizes petizes de lágrimas embrulhadas em gargalhadas tolas

redondos de tanto chutar bolas

esqueléticos de tanto correr,

como se o mundo e a felicidade de o descobrir fossem uma estrada sem fim.

Precisa-se de gente feita de gente.

 

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publicado por bolaseletras às 17:29

Carnaval...

Sexta-feira, 01.03.19

  

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...é quando a máscara cai e o resto do ano é apenas entrudo chocalheiro...

 

p.s. - roubado a um amigo sem máscaras

 

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publicado por bolaseletras às 10:21

Xeque-mate

Quarta-feira, 30.01.19

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Sabia que a melhor defesa era o ataque. Não porque seguisse as tácticas estéreis dos livros da moda mas, simplesmente, porque a vida lhe ensinara essa crua lição. Esperar pacientemente era mais da sua natureza, mas os resultados que obtivera refugiada nessa confortável passividade revelavam à saciedade que o conforto não era sinónimo de sucesso. Fora quando avançara a dama e as torres sem medos, enfrentando o rei e seus bispos de peito aberto, que conquistara terreno, que ganhara o respeito e a admiração das suas presas. Ao invés, quando caminhara passo a passo, lenta e cautelosamente, com os seus tímidos e inofensivos peões, apenas obtivera um sorriso sarcástico do rei e suas tropas, prontas para a espezinhar. A conquista implicava risco e era o risco que a mantinha viva. O receio era o rastilho para uma derrota humilhante.

 

No último lance, no xeque final, olhou o rei nos olhos e ele cedeu-lhe a sua casa, o destino desejado, a derradeira entrega, o momento em que a vitória de um significava a vitória do outro e em que os medos, a ambição, e a vitória se fundiam e esfumavam no calor daquela entrega.

 

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publicado por bolaseletras às 10:30

2019

Sexta-feira, 04.01.19

 

Steve McQueen and Neile Adams taking a sulfur bath

Steve McQueen e Neile Adams, fotografados por John Dominis, 1963

 

Decisões irrevogáveis para o ano que se avizinha. Convicções inabaláveis. Objectivos perfeitamente definidos. Rotas traçadas a regra e esquadro. O sucesso ao virar da esquina, a felicidade é já ali, é só querer, como se o resto do mundo e todos os que nos rodeiam não tivessem outra hipótese senão conformar-se ao destino que traçámos para os próximos 365 dias.

 

Outra hipótese:

 

Respirar apenas. Lentamente, como se cada segundo fosse uma bênção. Sorver o néctar dos Deuses gota a gota, como se a próxima fosse a última e daí não viesse mal ao mundo, porque um dia, inapelavelmente, esse dia há-de ser o último. Ouvir sem pressa. Falar devagar. Silêncio. Falar só se apetecer. Perceber a importância de calar. Amar. Beber mais um golo, lentamente.

 

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publicado por bolaseletras às 09:43

A busca incessante

Quarta-feira, 31.10.18

 

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Chuva. Pesada e insistente. O frio que regressa. Os dois putos no carro a caminho da escola, ainda ensonados, como que sonâmbulos a caminho de um qualquer cadafalso. O barulho da chuva, o trânsito, o céu cinzento escuro. O Francisco, 6 aninhos, parece, lentamente, despertar do seu torpor:

- Pai, porque é que existimos?

A meio das reviengas na rotunda do relógio, mais concentrado em não estragar a chapa do que em atingir a profundidade do Francisquinho, levo uns bons 20 segundos para responder:

- Há quem diga que foi Deus que criou o mundo e os homens, Francisco.

O Miguel, 9 anos e mais dado às filosofias terrenas, contrapõe:

- Não não, foi o big bang!

O Francisco, eternamente insatisfeito com as explicações para os porquês da vida, clarifica:

- Não é como é que existimos, é porque é que existimos?

Mau…mais 20, 30 segundos, e tento uma escapatória:

- Se calhar existimos para ser felizes e ajudar outras pessoas de quem gostamos a ser felizes, Francisco. O que achas?

- Sim, talvez pai!

Desta vez é o Miguel que fica insatisfeito:

- Hum, não sei pai, não sei se é bem por isso.

Antes de fechar o debate teológico com mais uma música do Agir que os traga de volta à simplicidade da música simples, fecho a questão deixando-a em aberto:

- Não penses muito nisso, Miguel, boa parte das pessoas morrem sem descobrir a resposta a essa questão. E olha, muitas morrem felizes, mesmo sem o ter descoberto a tempo.

 

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publicado por bolaseletras às 15:25

Disfrutai do fim de semana, boa e nobre gente

Sexta-feira, 19.10.18

 

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publicado por bolaseletras às 16:40

O carrossel

Quinta-feira, 11.10.18

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Gira que gira e volta a girar.

 

Creio que esta era uma lengalenga entoada nos idos da infância, provavelmente a acompanhar a dança do pião de madeira, embalado pela corda suja e coçada dos nossos sonhos. Éramos felizes como jamais o voltámos a ser e pouco interessa se o sabíamos ou não, pensar nisso era um absurdo visto aos olhos de crianças sorridentes e de joelhos esfolados, era uma perda de tempo, apenas mais uma parvoíce aborrecida do mundo dos adultos. A lenta valsa do pião, naqueles vagarosos segundos que antecipavam a sua inevitável queda por terra, era um vislumbre nebuloso da tristeza que ainda não conhecíamos. Arrumávamos o pião no bolso do fato de treino e rumávamos aos casulos onde a alcatifa já não cheirava a relva, onde os joelhos já não se esfolavam no mar de risos dos nossos amigos. Vinha o banho e a pele enjoativamente cheirosa, o jantar invariavelmente a contragosto, os trabalhos de casa sem necessidade de qualificativos, os traumáticos deveres que diziam ser as ferramentas do nosso futuro, daquele futuro que hoje conhecemos e que sabe a saudade e a desperdício.

 

O carrossel de ontem, de corridas sem fim, saltos e gargalhadas, é hoje o passo esbaforido e exausto para impedir que mais uma porta do autocarro se feche nas trombas dos nossos sonhos. Os saudosos gritos estridentes de alegria pura e descontrolada são hoje as buzinas irritadas e chorosas que temperam o túnel de alcatrão gasto e de prédios tristes, a rua dos nossos pesadelos.

 

Não, a vida não é assim tão triste quando abandonamos a criança que fomos. Não é? Será que a vivemos com uma réstia do brilho da nossa infância? Será que percebemos que é aí que estará a nossa salvação, o Santo Graal da felicidade? Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 14:30





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