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A porta entreaberta para Don DeLillo

Domingo, 30.10.11

 

 

Já aqui me debrucei sobre alguns livros de Don DeLillo, sabendo que nunca serão suficientes todas as pérolas da sua inigualável obra que for semeando pelo blog. Este fim-de-semana a Clara Ferreira Alves foi passear a Nova Iorque e aproveitou para fazer a entrevista de uma vida ao escritor americano. A entrevista é um deleite, sobretudo quando ele nos entreabre a porta da sua genialidade, simples e seca como uma pedra abandonada no deserto: “(…) preciso de pôr o meu trabalho em três dimensões. Não posso dizer: Charles era infeliz. Tenho de dizer: Charles sentou-se na cadeira e olhou para o chão, para o espaço entre os seus pés”.

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publicado por bolaseletras às 00:35

Os Nomes (pérola 3) - O terminal das almas

Quarta-feira, 08.12.10

 

 

"As viagens aéreas fazem-nos lembrar quem somos. São o meio pelo qual nos reconhecemos como modernos. O processo afasta-nos do mundo e isola-nos uns dos outros. Deambulamos através do ruído ambiente, verificando uma vez mais se temos o bilhete, o cartão de embarque, o visto. O processo convence-nos de que, a qualquer momento, poderemos ter de nos submeter à força que está implícita em tudo isto, a autoridade desconhecida por trás disto, por trás das categorias, das línguas que não compreendemos. Este imenso terminal foi construído para inspeccionar as almas."

 

Se há símbolos da modernidade este será certamente um deles. A imensidão dos céus conquistada pelo homem, o encurtar das distâncias, a sensação de que as nuvens não mais serão um misterioso limite ao sonho humano. Tudo isto o homem domina, apreende, encarcera e submete. Há um processo para a odisseia de voar, os novos tempos não derrubaram o espírito de tudo controlar e sujeitar a regras. A modernidade gerará homens mais modernos mas não menos amordaçados. Habituemo-nos, diz-nos DeLillo.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 12:42

Os Nomes (pérola 2) - Ídolos com pés de barro

Segunda-feira, 22.11.10

 

"Talvez os objectos sejam consoladores. Em especial os antigos, feitos de barro, feitos por homens com outra mentalidade. Os objectos são aquilo que não somos, que nunca chegaremos a ser. Será que as pessoas fazem as coisas para definir os limites da personalidade? Os objectos são os limites de que necessitamos desesperadamente. Mostram-nos onde terminamos. Dissipam temporariamente a nossa tristeza."

 

Seria demasiado audaz considerar que todos os fundamentos da voracidade capitalista, do materialismo sufocante que actualmente domina as sociedades modernas, possam estar encobertos neste trecho de “Os Nomes”, nesta pequena pérola de DeLillo. Ainda assim, poucas dúvidas permanecem sobre a essencialidade dos objectos no saciar dos desejos do homem, esse feixe de bens materiais invade todo o horizonte da ambição humana. A última versão do mais recente gadget tem a força de atenuar uma existência solitária, o último modelo da mais cara marca alemã de automóveis pode fazer esquecer toda uma vida de desamores. Mais singelamente, diria que um trapo com uma etiqueta celebérrima pode cobrir a mulher de felicidade, ocultando com perfeição a tristeza que lhe dilacera  a alma. Arriscando ir um pouco além de DeLillo, diria que os objectos, mais que nos delimitarem, tapam-nos os buracos da fraca personalidade.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 18:35

Os Nomes (pérola 1) - O sonho dos sonhos

Segunda-feira, 15.11.10

 

  

"Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliéster de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desintéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe."

 

 

 

Descontando o lado caricatural deste trecho sabiamente elaborado por De Lillo, para sermos honestos teremos que confessar reconhecermo-nos em muito do que ali está escrito - bastará fechar os olhos e fazer uma viagem imaginária às nossas últimas férias. O desejo de conhecer a cultura, a arquitectura e os monumentos de uma cidade num qualquer país que não o nosso não será desprezível na hierarquia das nossas intenções, mas o que procuramos com esse afastamento voluntário da nossa realidade é o esquecimento das rotinas, das obrigações, das regras que cegamente seguimos dia após dia. Quando em Sevilha visitei mil e uma catedrais o que realmente me preencheu as férias foram as tapas e as cañas, a sesta subsequente, só para ganhar espaço para mais tapas a cañas. Quando em Paris me inebriei com os incontáveis recantos da mais bela cidade, o que hoje me preenche as memórias são os almoços de queijos e vinhos da mercearia por debaixo do minúsculo T0 que me albergou. Depois dessa opípara refeição, descer os quatro andares de ancestrais degraus e ver tudo com novos olhos, esquecer de vez que há uma terra mãe, que há um monótono quotidiano a milhares de quilómetros de distância. Ah, ser turista de profissão, o sonho dos sonhos…

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 19:56

"Os Nomes", de Don DeLillo

Domingo, 14.11.10

 

 

“Os Nomes” é um livro sobre tudo aquilo a que podemos atribuir um nome, mas que poderemos nuca compreender. James Axton, um irrepreensível analista de risco, foi construindo um rumo que progressivamente o isolou da vida, daquilo que mais deveria ser palpável na sua substância. Desligou-se da mulher e do filho, dos amigos e do país, desses laços perduraram em si apenas os nomes de pessoas e coisas. Outros nomes surgem, ligados a uma série de assassinatos em forma de ritual, e Axton mergulha na importância da linguagem e dos nomes, aprofundando com essa obsessão um distanciamento irrecuperável dos outros nomes que o mantinham ligado à ficha da realidade.

 

De Lillo afasta-se com esta obra das habituais teias críticas à sociedade norte-americana, entregando-se a meditações políticas e espirituais do início da década de 80. Os diálogos intrincados e profundos confundem-se com as reflexões de james Axton. Li este livro há mais de 5 anos e ainda hoje me lembro do prazer que me deu, é isto que eu chamo um bom livro, um livro marcante. Seguir-se-ão algumas pérolas, que perdidas e descontextualizadas não perderão, ainda assim, a sua riqueza. Espero mesmo que despertem o apetite para uma obra original, contudo estranha e assustadora – poderá estar aí a razão do seu brilhantismo. Pelo menos para mim, claro está.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 14:05

Don DeLillo

Terça-feira, 09.11.10

 

Ando esquecido dos livros, tenho-me afogueado num curso submerso por papéis, papers, artigos, powerpoints, exercícios, casos práticos, o diabo a sete. Saio e volto ao trabalho, mais papelada, chuva de e-mails (não, não é dourada), ofícios e informações, pareceres e reclamações, com isto até o diabo foge da cruz. Ler, ler livros, já só quando as pálpebras cedem ao peso do que para trás ficou. Regresso a livros passados para falar aqui de livros. Reflicto se em vez de falar tanto das palavras escritas não deveria conhecer um pouco melhor quem as escreveu. Mesmo os famosos desconhecidos que se escondem por trás das palavras com que erguem o seu muro, mesmo génios eremitas como Don DeLillo.

 

DeLillo, escritor norte-americano, escreve sobre os dias de hoje e de sempre, estilhaça o terrorismo nas nossas mãos, esmiúça os confins da linguagem, rompe as fronteiras de um mundo entregue à televisão, aos objectos, aos prazeres materiais, o mundo global, a guerra fria, a matemática, a bolsa, a especulação, um mundo em rotativa e interminável especulação. “Os nomes” é o espelho da genialidade de DeLillo, um livro inclassificável, sobre tudo e sobre nada. Cada palavra de DeLillo parece estudada ao milímetro, não obstante a naturalidade com que dança perante os nossos olhos. Não foi por acaso que DeLillo disse “For me, writing is a concentrated form of thinking”. É precisamente isso que falta a tão boa gente que me inunda a secretária do trabalho e do curso - evitar escrever como pensa e tudo o que pensa, mas sim extrair o que de facto interessa de tanto pensamento inútil. Extraia-se a pedra da loucura da montanha rochosa de inanidades.

 

 

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publicado por bolaseletras às 21:40

Cosmopolis (pérola 2) - Arte e vida

Sábado, 27.12.08

 

 

"Não vês a tua própria imagem em todos os quadros de que gostas? Sentes um resplendor a banhar-te, qualquer coisa que não consegues analisar nem descrever com clareza. Que estás a fazer nesse momento? A olhar para um quadro na parede, só isso, mas faz com que te sintas vivo neste mundo. Diz-te que sim, que estás aqui. E sim, o âmbito da tua existência é mais profundo e mais encantador do que tu pensavas."

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publicado por bolaseletras às 13:14

Cosmopolis (pérola 1) - Ou uma visão exacerbada de porque é que aos portugueses pode faltar dinheiro para tudo menos para o carrinho à maneira

Quinta-feira, 25.12.08

 

 

"Queria aquele automóvel porque não só era colossal como era-o de um modo agressivo e cheio de desprezo, qual metástase, um mutante gigantesco que calcava aos pés todos os argumentos aduzidos contra si".

 

Erick Packer, o milionário protagonista de Cosmopolis não precisava de um carro para se afirmar. Contudo, aquela limusina era o seu mundo. Nele comia, bebia, mijava e cagava, tinha consultas médicas diárias e, como não podia deixar de ser num romance que se pretende excitante, fazia kinky sex.

 

Os portugueses não chegam a esse extremo de tornar o seu carro o centro do mundo. Mas por vezes questiono-me se não é a isso que ambicionam. Apenas duas reflexões sobre o que representa o automóvel para os portugueses, até que ponto pode um monte de chapa e tecnologia ser uma extensão da personalidade:

 

1. Símbolo de prestígio 

600 euros de ordenado e um carro de 25.000 euros, com correspondentes prestações que impedem uma vida decente a uma família remediada. Sim, não é excepção, é uma realidade instalada nos maus hábitos de um povo com péssimo sentido das prioridades. Para quê? Porque podemos não ter nada, não possuir nada que se veja, mas dentro do carro, ao sabor do vento, alguém há-de olhar para nós e invejar-nos o carro novinho em folha.

 

2. Escape para as frustrações/o casulo da coragem

A agressividade dos condutores portugueses é já um cliché repisado. Histórias do primo que levou um tiro ou uma facada depois de uma discussão de trânsito quem não as tem. Parar numa passadeira é sinal de fraqueza, abrandar quando o amarelo já há muito caiu um fraquejar comprometedor. Para mal dos nossos pecados, uma arma letal nas mãos de cobardes nunca atinge quem merece.

 

Que saudades das carroças e das caravelas...

 

 

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publicado por bolaseletras às 22:02

Cosmopolis de Don DeLillo

Quinta-feira, 25.12.08

Terminada uma farta ceia Natalícia, vou tentar acabar um livro que me está a dar alguma luta. Por nenhuma razão em especial, apenas por falta de tempo, apenas porque o hábito das leituras cruzadas torna cada vez mais difícil acabar um livro com a rapidez de outros tempos.

 

Cosmopolis é um livro cinematográfico. Do interior de uma limusina DeLillo relata a vida de um multimilionário de 28 anos que atingiu o topo cedo de mais, que esgotou as ambições precocemente. Por entre o caos do trânsito de Nova Iorque, a voracidade dos acontecimentos devora-nos, Erick Packer devora a vida como se fosse esse o seu derradeiro desafio. A corda bamba é o único palco onde o protagonista sente o pulsar da vida, DeLillo demonstra-o com a habitual mestria.

 

Nos próximos posts irei partilhar as pérolas deste livro. Sim, porque um livro é feito de pequenos diamantes por burilar, só temos de perder tempo para os absorver, permitir que nos afectem, que se revelem no brilho que lhes é imanente.

 

Tony Almeida (a piada da série 24 não me parece que faça sentido reforçá-la)

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publicado por bolaseletras às 02:33





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