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"O Retorno" - A vida numa manilha

Quinta-feira, 13.09.12

 

 

“O Pacaça arrecadou a manilha de ouros do Sr. Belchior que disse zangado, com tanta sorte ao jogo deve ter sido um infeliz no amor. As cartas ainda requerem algum saber mas o amor é o único jogo em que só é preciso sorte, respondeu o Pacaça encolhendo os ombros”.

 

“O Retorno” não é só sobre como era viver nas colónias, sobre como foi “encaixar” na metrópole. É também muito Portugal, muita sabedoria do povo, muitos jogos de palavras e floreados de humor como o deste trecho. Uma grande escritora tem que saber esquecer o tema central da obra, fugir da obsessão de o esmiuçar até ao limite e dar-nos um pouco de vida a cheirar a gente. E uma jogatana de sueca no meio de um hotel repleto de gente que sofre por desconhecer o futuro é bem o espelho do Portugal de outrora e de hoje. Não haja pão, que haja Carnaval.

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publicado por bolaseletras às 17:58

"O Retorno" - Não cabem mais calos nas minhas mãos

Terça-feira, 28.08.12

   

 

“O pai avança, aproxima-se do jipe, olhem bem para mim, fala alto como para uma multidão, digam-me o que vêem, eu digo-vos o que estão a ver, estão a ver um homem que se matou a trabalhar nesta terra, descarreguei sacas de café contigo, contigo, aponta para cada um dos soldados, com o teu pai, com o teu tio, com o teu irmão, com o teu filho, não há homem que tenha descarregado mais sacas de café nesta terra do que eu, trabalhei dia e noite e agora, o pai para de falar e quando recomeça fá-lo com a voz mais baixa, como se lhe custasse falar, tudo o que tenho vai ficar aqui, olhem para as minhas mãos, não cabem mais calos nas minhas mãos e mesmo assim a pele ainda sangra contra a junta das sacas, (…) o pai levanta mais a voz, sempre vos paguei a tempo e horas, bebi cachaça e comi funge convosco, nunca abusei das vossas mulheres nem das vossas filhas, dei-vos dinheiro para os medicamentos dos vossos filhos, façam o que quiserem.”

  

O mais duro deve ter sido a ingratidão, ou o que pensaram ser ingratidão, ou o desfasamento entre o bem que se fez ou julgou ter feito, entre o mal que alguns fizeram ou o bem que ficou por fazer. O mais duro terá sido perder tudo, ou perceber que afinal nada ficou, que afinal nada é efetivamente nosso. Olhar para trás, ver todo o caminho percorrido, tanta vida gasta a amealhar, a possuir, a juntar quinquilharia e metal, o vil metal, e perceber anos depois que aquilo não era a felicidade, não poderia ser a felicidade. O mais duro é não saber para onde caminhar quando se procura um porto seguro, onde a vida saiba a vida e o mundo não seja um deserto fulminado pela dor. O mais duro é não saber viver.

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publicado por bolaseletras às 14:36

"O Retorno" - Até os velhos fintam a morte

Sábado, 25.08.12

 

 

“Não, a metrópole não pode ser como hoje a vimos. A prova de que Portugal não é um país pequeno está no mapa que mostrava quanto o império apanhava da Europa, um império tão grande como daqui até à Rússia não pode ter uma metrópole com ruas onde mal cabe um carro, não pode ter pessoas tristes e feias, nem velhos desdentados nas janelas tão sem serventia que nem para a morte têm interesse. Lá os velhos tinham dentes postiços muito brancos e andavam de um lado para o outro com o chapéu na cabeça e os fatos dos trópicos engomados. Quando o pai via os velhos a comer marisco no Restinga dizia, aqui até os velhos fintam a morte.”

 

Os filhos dos que para lá foram em busca da felicidade e que por lá cresceram e aprenderam a viver, esses terão sentido o choque, o verdadeiro choque. Não o choque de ter perdido os bens, anos de trabalho, toda uma esperança arduamente erguida, mas o choque do confronto com uma vida desconhecida, tão diferente dos sonhos e das histórias ouvidas. Um sítio onde os velhos andam de um lado para ou outro e não apodrecem nas janelas sem vista ou nos lares sem amor é certamente um sítio onde as crianças e velhos são mais felizes.

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publicado por bolaseletras às 23:34

"O Retorno"

Terça-feira, 14.08.12

 

 

Independentemente do ângulo pelo qual se analise a obra, ocorre-me dizer que “O Retorno” é um livro maravilhoso. Para mim e para os meus companheiros de geração (malta nascida pouco depois do fim do obscurantismo, 1975 no meu caso) o conhecimento do que foi o fim da época colonial, o efeito do regresso dos nossos “colonos” africanos é um quase completo mistério. Culpa nossa porque pouco investigamos ou queremos saber sobre o assunto, culpa dos nossos pais e da geração que passou por tudo isso que prefere não relembrar histórias desses tempos idos. Mas também culpa de um país que pouco produziu sobre essas matérias, quer em termos de literatura, cinema ou mesmo produção jornalística. Por vezes parecemos os alemães a esconder sob o nevoeiro do esquecimento os tempos do nazismo.

 

O retorno é-nos contado por um rapaz de 15 anos que volta à metrópole. É-nos dado a conhecer o que era a vida dos portugueses em África, como se sentiam e comportavam, como tratavam os africanos, como por eles eram vistos. Racismo? Sim, terá havido, como poderia não haver se estivemos em África partindo de um papel de “somos melhores que eles”, “vamos lá educar e governar aqueles selvagens”. É duro, isto que digo? Talvez o seja, talvez não tenha sido sempre assim, pelo menos para alguns que amaram de facto África e os africanos e não se julgavam uma raça superior e mais esclarecida. Livros sobre África, sobre os tempos de colonialismo e do pós-colonialismo precisam-se. É o passado que nos permite entender o presente e preparar o futuro, nunca esquecer isso.

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publicado por bolaseletras às 18:30

Dulce Maria Cardoso e o início da reconciliação

Sexta-feira, 10.08.12

 

 

Chego a uma fase da vida em que sinto necessidade de revisitar algumas decisões e outras tantas embirrações, querendo com isso convencer-me que há nessa atitude algo de magnânimo. Trocando isto por miúdos decidi há alguns tempos que estava na altura de voltar aos autores portugueses. Sim, dão mais trabalho, sim confundem muitas vezes o papel do escritor com o de um intelectual inexpugnável ou um malabarista das palavras, mas que porra, são do meu país. Lembro-me da juventude em que idolatrava Eça e Pessoa, da descoberta existencialista que foi Vergílio ferreira, do êxtase que me permitiram alguns Saramagos. Mas depois algo aconteceu. Um misto de encontros com certos autores estrangeiros (Roth, De Lillo, para iniciar as hostilidades) e da embirração com alguns portugueses (mais que todos, Lobo Antunes, esse irritante malabarista das palavras). Com “O Retorno” descobri Maria Dulce Cardoso, uma excelente contadora de histórias, com um estilo sóbrio sem deixar de ser elegante. Contar histórias e pôr nelas a riqueza que a habita como pessoa e como pensadora, foi essa arte que ela soube criar em “O Retorno” o que é tão mais importante do que à primeira vista parece. E com ela reconciliei-me com alguma literatura portuguesa. Procurarei generosamente alargar os horizontes das letras lusitanas, porque é também assim que se combate a crise que não nos deixa acreditar nos nossos.

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publicado por bolaseletras às 17:29





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