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"O adeus às armas" - O mundo quebra toda a gente

Quinta-feira, 03.05.12

 

Fotografia por Helmut Newton

 

“Quando as pessoas defrontam o mundo com tanta coragem, o mundo só pode quebrá-las matando-as, e por isso, é claro, mata-as. O mundo quebra toda a gente, e depois muitos ficam mais fortes no lugar da fractura. Mas àqueles que não consegue quebrar mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente. Se não sois desses, também vos há-de matar, mas nesses casos não será particularmente apressado.”

 

Não vejo forma mais perfeita, poética, doce e ao mesmo tempo catastrófica de dar voz àquela irreprimível e sufocante dor que é morrer alguém que amamos, alguém que nos é insubstituível, aquela pessoa única e especial. Hemingway coloca a culpa no mundo, na cruel irracionalidade de um mundo que na sua cíclica tarefa de colher vidas dá prioridade aos bons, doces e corajosos. Se há um Deus, será certamente dotado de um sentido de humor muito peculiar. Ou então somos apenas nós que nunca saberemos lidar com a inevitabilidade da morte - dos doces, dos cobardes, dos maus, dos bons e dos azedos.

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publicado por bolaseletras às 15:21

"O adeus às armas" - Nas trincheiras das palavras

Sexta-feira, 06.04.12

 

 

“- Não falemos em perder a guerra. Já se fala de mais nisso. O que se fez este Verão não pode ter sido em vão.

 

Eu não disse nada. As palavras «sagrado», «glorioso» e sacrifício» e a expressão «em vão» deixavam-me sempre embaraçado. Tinhamo-lo ouvido, muitas vezes, de pé, à chuva, quase fora do alcance do ouvido, de forma que só nos chegavam as palavras gritadas, e tínhamo-las lido em proclamações que eram coladas sobre outras proclamações vezes sem conta, e eu não tinha visto nada sagrado, e as coisas que eram gloriosas não tinham glória e os sacrifícios eram como os matadouros de Chicago, com a diferença de que a carne servia só para ser enterrada. Havia muitas palavras que não se podiam suportar, e por fim só os nomes dos lugares conservavam ainda dignidade. (…) Palavras abstractas como «glória», «honra», «coragem» ou «santidade» tornavam-se obscenas comparadas aos nomes concretos das aldeias, aos números das estradas, aos nomes dos rios, aos números dos regimentos e às datas.”

 

 

 

O peso e a força das palavras raramente correspondem aos actos que estas descrevem ou a que supostamente se associam. Todos os dias vemos políticos esganiçados a bradar ao vento o seu carácter impoluto, os seus intentos exlusivamente direccionados à prosperidade pública, todos os dias emprenhamos pelos ouvidos de gente que nos fecunda a paciência com palavras cheias de nada. Tivemos ditadores que proferiram os mais belos e inflamados discursos de sempre, sobrevivemos com dificuldade às palavras de políticos esculpidos nas modernas técnicas do marketing político. Hemingway sabia que as palavras só faziam sentido nas trincheiras de sangue e de lama habitadas por soldados analfabetos, que as últimas palavras destes eram as únicas que interessavam.

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publicado por bolaseletras às 23:09

"O adeus às armas" - Para o que viemos

Quarta-feira, 28.03.12

 

 "- Só gosto de duas coisas; uma é má para o meu trabalho e a outra dura apenas meia hora ou quinze minutos. Às vezes menos.

- Às vezes muito menos.

- Talvez eu tenha feito progressos, rapaz. Sabe-se lá! Mas para mim só há essas duas coisas e o meu trabalho.

- Descobrirás outras coisas.

- Não. Nunca se ganha nada. Nascemos com tudo o que temos e nunca aprendemos nada. Nunca ganhamos nada de novo. Estamos completos desde o princípio."

 

Nos recantos deste diálogo entre dois soldados cansados da guerra e da vida percebe-se aquilo que Hemingway buscou por entre os milhões de palavras que nos concedeu. Se podemos eliminar o que em nós nos corrói, se aspirar a sermos melhores é uma quimera de crianças sonhadoras ou uma possibilidade real, se vale sequer a pena perder tempo a pensar nisso quanto mais a agir nesse sentido. O soldado que gostava de apenas duas coisas na vida, beber e fazer sexo, poucas esperanças acalentava de que a sua vida ou o seu destino lhe permitissem caminhar noutro sentido. Eu por vezes também acho que estamos aqui para o que viemos. Por mais que estrebuchemos e queiramos soltar-nos destas amarras invisíveis estamos aqui para o que viemos. Há dias que ninguém me tira isso da cabeça.

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publicado por bolaseletras às 18:33

"O adeus às armas" - O conforto do fim

Domingo, 04.03.12

  

 

"- O homem na maca por cima de mim está com uma hemorragia.

- Estamos quase no alto. Sozinho não posso tirar a maca para fora.

Pôs o motor novamente em marcha. O sangue continuava a escorrer. No escuro, eu não podia distinguir de que parte da maca ele caía. Tentei afastar-me para o lado para não me cair em cima. O que tinha escorrido para debaixo da minha camisa era quente e viscoso. Na perna que me doía sentia-o frio, o que me fazia ficar enjoado.

(…) Passado algum tempo o fio de sangue diminuiu, e passou a cair novamente em pingas; ouvi e senti a maca por cima da minha cabeça mover-se quando o homem se instalou mais confortavelmente.

- Como vai ele? – perguntou o inglês. – Estamos quase a chegar.

- Morreu, ao que me parece – disse eu.

Agora as pingas caíam muito lentamente, como caem de uma estalactite de gelo depois do pôr do sol. Estava frio dentro da ambulância, no escuro, naquela estrada em rampa. No posto no alto da encosta tiraram a maca, puseram outra e prosseguimos."

 

Este punhado de palavras pode resumir todo o estilo de Hemingway. Seco, frio, limado até à medula do essencial. E depois a frieza da morte num cenário de guerra. Apenas uma morte, apenas mais uma morte. Sem grandes alaridos, um esperado fim para uma actividade de risco e sem sentido. Dificilmente me esquecerei da forma como Hemingway descreve a percepção que um soldado tem de que outro morreu: “(…) quando o homem se instalou mais confortavelmente.”

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publicado por bolaseletras às 14:53

"O adeus às armas" - Ernest Hemingway

Sexta-feira, 17.02.12

 

 

Pior que só agora ter lido o meu primeiro Hemingway é não ter ficado esmagado ou eternamente maravilhado com o “O Adeus às armas”. Uma obra maior, sem dúvida, sobretudo pela importância do testemunho histórico de um ex-combatente da I Guerra Mundial. Hemingway sobe a grande altura quando nos coloca no teatro de guerra, quando a sua escrita seca, directa mas em que as palavras parecem sempre escolhidas a dedo (nem uma a mais, nem uma a menos) nos faz sentir o cheiro do sangue, nos convence que tudo aquilo é um infantil jogo de crueldade, em que a irracionalidade do ser humano se revela em todo o seu esplendor. Ou então não estamos perante jogo nenhum, mas perante a irremediável e incorrigível natureza humana. O próprio Hemingway o disse como só ele o saberia dizer: “Nenhum homem sabe, realmente, aquilo que é. A única coisa que sabe é do que é feito. E o homem sabe que é feito de uma violência primordial”.

 

 

 

Por outro lado, esta obra não é feita só de guerra e das tristezas da natureza humana, mas também de amor, de muito amor, de uma história de amor a meu ver demasiado cor de rosa, demasiado imediata, um amor que nasce do nada, sem limites e incondicional. Parece irreal acreditar que duas pessoas se podem amar como as duas personagens criadas por Hemingway. É essa crença num amor quase fantasioso que turva um pouco um livro em que as trincheiras da guerra me atraíram muito mais do que as setas do cupido (a crueldade que é dizer isto, mas é mesmo assim). Não pensa assim Baptista-Bastos e provavelmente a maioria dos críticos literários, pois como escreve o primeiro no prefácio à obra “(…) «O Adeus às Armas» é eleito como um intenso poema de amor e de resgate; é lido como a Bíblia de uma geração que perdeu todos os heróis, que deixou de acreditar em todos os mitos e que só aceita a esperança do imponderável”. Eu por acaso tinha-me ficado pela guerra e neste caso dispensava o amor, mas se calhar é por isso que eu tenho um blog e o Hemingway tem um Nobel.

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publicado por bolaseletras às 18:44

Ernest Hemingway

Domingo, 22.01.12

 

 

Chegar aos 37 anos e ler o primeiro livro de Hemingway não será muito elogioso para alguém que se considera um convicto devorador de boa literatura. Chegar até aqui sem conhecer nada do homem é razão para o descrédito total como aspirante a ser minimamente culto. Preocupado com tudo isto, fui ler umas coisas sobre Ernest Hemingway. Dizem os entendidos e a lenda que se gerou em torno do homem e do escritor, que deve ter sido difícil para os seus contemporâneos gostar dele. Tinha, além de um feitio inconstante e complicado, a influência castigadora de uma infância e adolescência marcada por pais severos e castradores. Combinando os seus intrincados genes com esse meio ambiente sufocante, não é de estranhar que Ernest Hemingway se tenha auto-atribuído “a missão de encarnar a figura do intelectual macho, que tanto vivia mergulhado na guerra, no perigo ou na aventura”. Pelo menos é o que diz Miguel Sousa Tavares no prefácio de uma das inúmeras biografias do escritor.

 

 

 

Apesar dessas características tão marcantes que o acompanharam ao longo da vida, afirma o conhecedor Sousa Tavares que Hemingway “viveu a vida como uma festa, uma dádiva dos Deuses. E viveu a escrita como a consequência da vida e de acordo com a mesma regra moral: tirar disso um imenso prazer. Desistiu quando já não se sentiu capaz de fazer com a vida e a escrita «uma coisa totalmente nova e mais verdadeira do que qualquer coisa que está viva e é verdadeira». Hemingway suicidou-se a 2 de Julho de 1961, na localidade de Ketchum, Idaho. Segundo Sousa Tavares (quem mais), “matou-se por ter vivido demais e já nada adivinhar pela frente que se pudesse comparar à vida grandiosa que vivera”. Pensava eu, na minha ingenuidade, que o Miguel era o maior especialista vivo sobre as causas dos sucessos e insucessos do futebol portista. Afinal, o homem também faz uma perninha em Hemingway.

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publicado por bolaseletras às 23:13





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