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O primeiro beijo

Quinta-feira, 05.12.19

 

Stephen Shames, Bike Jump, from series Outside the

Fotografia por Stephen Shames, "Bike Jump", da série "Outside the Dream Child Poverty in America, 1985"

 

Terá havido um momento no tempo, no desenvolvimento da sociedade e das relações humanas, em que se deu o clique. Alguém, uma qualquer besta quadrada e insensível, decidiu espalhar a boa nova de que a ordem social aconselhava seriedade e tino, padrões lineares e facilmente repetíveis que matassem à nascença as mais ínfimas possibilidades de maluqueira, como que uma nuvem carregadinha de abúlicos enfados imbuída da nobre missão de silenciar gargalhadas, de sufocar desbragadas gargantas.

Há quem se admire com a existência de sorrisos e esgares de felicidade por entre bairros de tijolos envelhecidos, nas faces de crianças sujas e timidamente alimentadas. Há quem estranhe o mistério de os ricos e afamados demasiadas vezes meterem uma bala na cornatura, como se a joie de vivre fosse proporcional ao volume do livro de cheques. Como se chutar uma remendada bola no meio de um lamaçal, rodeados de amigos, não inspirasse mais felicidade do que uma ceia inimitável num qualquer chateau desses paraísos exclusivos tão invejados. Como se o primeiro beijo e a queca de estreia, mal amanhada mas inesquecível, não dessem uma abada à última visita à casa de mademoiselles de pele lustrosa e seios aperfeiçoados, daquelas que levam os olhos da cara por meia hora de luxúria artificial. A puta da vida devia ser tão simples. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 17:14

Formiguinha, formiguinha...é isto que buscas para a tua vida?

Quinta-feira, 21.11.19

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O Bolas não morreu, o Bolas nunca morrerá, pois viverá sempre nos nossos corações. Adoro clichés bacocos, não tanto quando adoro que me digam que têm saudades do Bolas. Sim, a puta da falta de tempo, sim, o trabalho perdido por entre urgências várias, sufocado por entre a voracidade das necessidades que se multiplicam como parasitas incómodos nos cabelos do meu desgraçado filho, contaminado por crianças a quem os pais não tiveram tempo de aplicar o shampoo anti-piolhos, porque a voracidade dos seus dias não lhes permite aquela meia hora de pausa em que o shampoo faz o seu mortífero trabalho. Corremos incessantemente, dedilhamos e-mails nervosos e repletos de gralhas, a perfeição já foi, hoje é a velocidade que conta, a sede de dados e inputs, reportes e pontos de situação, todo esse emaranhado de dados desconexos que nunca alcançarão o estatuto de informação hão-de satisfazer alguém, uma eminência impecavelmente engravatada na sua torre de marfim onde o sexo dos anjos não se discute, alguém que pensará que o seu dia foi imensamente produtivo, mesmo que nada de digno seja produzido pelas suas formiguinhas hiperativas. A imagem que encima este post de saudades dos tempos em que o Bolas de quando em vez tinha tempo para respirar é da cidade de Norilsk, na Rússia, fundada em 1935 como um gulag, situada a cerca de 240 km a norte do círculo polar ártico. O tempo parado, a doce indolência das crianças. Pergunto-me se as crianças terão de emigrar para Norilsk para terem tempo de ser crianças. É isto que queremos para nós e para os nossos filhos?

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publicado por bolaseletras às 17:18

O Verão é...

Sexta-feira, 19.07.19

 

…regressar à infância nos mergulhos dos nossos filhos. Beber-lhes o deslumbre, a felicidade simples e indestrutível que reluz na areia que lhes beija os corpos, desejar que o verão de criança se eternize para além da visita fugaz da espuma das ondas.

 

infancia.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 11:17

10 anos do pequeno Miguel

Terça-feira, 02.07.19

 

Micas.jpg

A voracidade com que o tempo por nós passa adiou por alguns dias o já tradicional texto sobre mais um aniversário do meu primogénito. Há quem diga que passa muito rápido a infância, que aproveitamos pouco esta fase maravilhosa da existência. Discordo. Esta aventura que se iniciou há 10 anos sinto-a como parte de mim desde sempre. Os sorrisos, as descobertas, os momentos de pura felicidade, já não me recordo nitidamente do que era a vida sem esta partilha que me insufla o coração até ao limite. As fitas, os choros, as desilusões ainda tão pueris, a luta constante contra os descaminhos das frustrações que ainda não domina, a cada ocorrência revejo-me nelas, na infância que também vivi. Não é sem um lamento interior que me olho ao espelho da minha incapacidade de lhe explicar que é isso que o fará crescer e dele fará um homem, que só assim as alegrias serão efetivamente valorizadas e saboreadas. O amor por um filho não se explica, dizem também, mas creio que a genuinidade desse amor se reforça a cada dia, com a crescente compreensão pelos pais que, sobretudo na fase da “dependência” de nós, a sua felicidade é em boa parte resultado do amor que lhes damos, das experiências que lhes proporcionamos, da forma como os sabemos entender na sua essência sem pretendermos ajustá-los à nossa visão do que deveriam ser. Amo-te, Miquinhas, venham mais 10!

 

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publicado por bolaseletras às 12:24

A busca incessante

Quarta-feira, 31.10.18

 

busca.jpg

 

Chuva. Pesada e insistente. O frio que regressa. Os dois putos no carro a caminho da escola, ainda ensonados, como que sonâmbulos a caminho de um qualquer cadafalso. O barulho da chuva, o trânsito, o céu cinzento escuro. O Francisco, 6 aninhos, parece, lentamente, despertar do seu torpor:

- Pai, porque é que existimos?

A meio das reviengas na rotunda do relógio, mais concentrado em não estragar a chapa do que em atingir a profundidade do Francisquinho, levo uns bons 20 segundos para responder:

- Há quem diga que foi Deus que criou o mundo e os homens, Francisco.

O Miguel, 9 anos e mais dado às filosofias terrenas, contrapõe:

- Não não, foi o big bang!

O Francisco, eternamente insatisfeito com as explicações para os porquês da vida, clarifica:

- Não é como é que existimos, é porque é que existimos?

Mau…mais 20, 30 segundos, e tento uma escapatória:

- Se calhar existimos para ser felizes e ajudar outras pessoas de quem gostamos a ser felizes, Francisco. O que achas?

- Sim, talvez pai!

Desta vez é o Miguel que fica insatisfeito:

- Hum, não sei pai, não sei se é bem por isso.

Antes de fechar o debate teológico com mais uma música do Agir que os traga de volta à simplicidade da música simples, fecho a questão deixando-a em aberto:

- Não penses muito nisso, Miguel, boa parte das pessoas morrem sem descobrir a resposta a essa questão. E olha, muitas morrem felizes, mesmo sem o ter descoberto a tempo.

 

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publicado por bolaseletras às 15:25

O carrossel

Quinta-feira, 11.10.18

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Gira que gira e volta a girar.

 

Creio que esta era uma lengalenga entoada nos idos da infância, provavelmente a acompanhar a dança do pião de madeira, embalado pela corda suja e coçada dos nossos sonhos. Éramos felizes como jamais o voltámos a ser e pouco interessa se o sabíamos ou não, pensar nisso era um absurdo visto aos olhos de crianças sorridentes e de joelhos esfolados, era uma perda de tempo, apenas mais uma parvoíce aborrecida do mundo dos adultos. A lenta valsa do pião, naqueles vagarosos segundos que antecipavam a sua inevitável queda por terra, era um vislumbre nebuloso da tristeza que ainda não conhecíamos. Arrumávamos o pião no bolso do fato de treino e rumávamos aos casulos onde a alcatifa já não cheirava a relva, onde os joelhos já não se esfolavam no mar de risos dos nossos amigos. Vinha o banho e a pele enjoativamente cheirosa, o jantar invariavelmente a contragosto, os trabalhos de casa sem necessidade de qualificativos, os traumáticos deveres que diziam ser as ferramentas do nosso futuro, daquele futuro que hoje conhecemos e que sabe a saudade e a desperdício.

 

O carrossel de ontem, de corridas sem fim, saltos e gargalhadas, é hoje o passo esbaforido e exausto para impedir que mais uma porta do autocarro se feche nas trombas dos nossos sonhos. Os saudosos gritos estridentes de alegria pura e descontrolada são hoje as buzinas irritadas e chorosas que temperam o túnel de alcatrão gasto e de prédios tristes, a rua dos nossos pesadelos.

 

Não, a vida não é assim tão triste quando abandonamos a criança que fomos. Não é? Será que a vivemos com uma réstia do brilho da nossa infância? Será que percebemos que é aí que estará a nossa salvação, o Santo Graal da felicidade? Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 14:30

O cheiro da liberdade

Sexta-feira, 20.07.18

 

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 Fotografia por Peter Brüchmann, Berlim, 1956

 

São demasiadas vezes difusas as nossas memórias de infância, bem mais do que a clareza com que recordamos as pepitas de pura felicidade então vividas. O que não se esfumou em forma de marcas de alegria em brasa que ainda hoje me queimam a pele foi o espaço, a liberdade, a rua, a descoberta, o cheiro a terra molhada, o suor de felicidade nos dias de calor abrasador. As brincadeiras em casa, os primeiros encantamentos com o ZX Spectrum tiveram o seu espaço, mas não encaixam nesse baú de memórias inesquecíveis. Mandem os vossos filhos para a rua, vão com eles se tiver que ser, mas deixem-nos sentir a liberdade de horizontes sem fim, permitam que o estimulante suor frio do desconhecido lhes aqueça a alma, não lhes castiguem os joelhos esfolados na gravilha e os calções beijados pelo verde sujo e libertador da relva molhada. Lembrem-se do que realmente vos fazia felizes. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 11:03

O Miguel que já não é tão pequeno assim - 9 aninhos

Quarta-feira, 04.07.18

  

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O mundial, o trabalho, a vidinha e o diabo a sete fizeram-me esquecer do habitual textinho sobre o aniversário do meu primogénito, o meu querido Miguel. 9 aninhos de ensinamentos sem fim, de reaprender o que é ser criança e como devemos educar, respeitar, orientar e compreender este estado puro, maravilhoso e tantas vezes tão complexo. A bondade está lá, a alegria ingénua e pura também, tal como estão as naturais frustrações de quem cresce num mundo crescentemente complexo. Creio que ainda ninguém pensou a sério como será, no futuro, um mundo onde os miúdos têm acesso a uma enormidade de informação, onde podem ser muito mais críticos e conhecedores do que nós éramos na idade deles. Como será esse mundo, como serão estes miúdos daqui a 30 anos?

 

Para memória futura fica o Miguel com o apêndice por ele mais adorado e detestado, o seu querido, absorvente, fofo e quantas vezes irritante e desafiante irmão, o pequeno Francisco. Que sejas feliz, Miguel, que eu saiba orientar-te nesse sentido respeitando o caminho que escolheres. Com amor, o teu pai.

 

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publicado por bolaseletras às 17:19

6 anos de ti

Terça-feira, 17.04.18

 

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6 anos sempre a correr, a chutar, a lançar, a dar lições sobre a beleza da inocência e a simplicidade da felicidade. Ter dois filhos tão diferentes, com uma panóplia tão variada de qualidades e defeitos é um desafio, uma bênção, um complexo manual de peças soltas que nos convida à construção do interminável puzzle de dois seres humanos decentes e felizes. Pensamos que a obra é nossa, mas é toda deles, mesmo que por vezes nos deixem acreditar que temos uma influência determinante no que sairá dali. Temos evidentemente direito a algumas pinceladas na tela das suas vidas, mas o molde já lá está, o desafio maior é sabermos respeitá-lo e ter a arte para ajustar as cores secundárias ao maravilhoso arco íris que vive dentro deles. Parabéns Francisquinho!

 

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publicado por bolaseletras às 09:51

O papagaio de asas quebradas

Quarta-feira, 28.03.18

  

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 Fotografia de René Burri

 

Nada há mais triste do que a infância que se esfuma

o adulto que se molda em oposição ao vento

contra a corrente do rio que corre livre e abraçado a sonhos crus.

 

O papagaio voa agora solitário

não pelo impulso generoso da criança

mas soprado pela indiferença do abandono,

longe da ingenuidade perdida

saudoso dos dedos quentes e felizes que jamais voltará a sentir.

 

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publicado por bolaseletras às 15:38





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