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O Verão é...

Sexta-feira, 19.07.19

 

…regressar à infância nos mergulhos dos nossos filhos. Beber-lhes o deslumbre, a felicidade simples e indestrutível que reluz na areia que lhes beija os corpos, desejar que o verão de criança se eternize para além da visita fugaz da espuma das ondas.

 

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publicado por bolaseletras às 11:17

10 anos do pequeno Miguel

Terça-feira, 02.07.19

 

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A voracidade com que o tempo por nós passa adiou por alguns dias o já tradicional texto sobre mais um aniversário do meu primogénito. Há quem diga que passa muito rápido a infância, que aproveitamos pouco esta fase maravilhosa da existência. Discordo. Esta aventura que se iniciou há 10 anos sinto-a como parte de mim desde sempre. Os sorrisos, as descobertas, os momentos de pura felicidade, já não me recordo nitidamente do que era a vida sem esta partilha que me insufla o coração até ao limite. As fitas, os choros, as desilusões ainda tão pueris, a luta constante contra os descaminhos das frustrações que ainda não domina, a cada ocorrência revejo-me nelas, na infância que também vivi. Não é sem um lamento interior que me olho ao espelho da minha incapacidade de lhe explicar que é isso que o fará crescer e dele fará um homem, que só assim as alegrias serão efetivamente valorizadas e saboreadas. O amor por um filho não se explica, dizem também, mas creio que a genuinidade desse amor se reforça a cada dia, com a crescente compreensão pelos pais que, sobretudo na fase da “dependência” de nós, a sua felicidade é em boa parte resultado do amor que lhes damos, das experiências que lhes proporcionamos, da forma como os sabemos entender na sua essência sem pretendermos ajustá-los à nossa visão do que deveriam ser. Amo-te, Miquinhas, venham mais 10!

 

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publicado por bolaseletras às 12:24

A busca incessante

Quarta-feira, 31.10.18

 

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Chuva. Pesada e insistente. O frio que regressa. Os dois putos no carro a caminho da escola, ainda ensonados, como que sonâmbulos a caminho de um qualquer cadafalso. O barulho da chuva, o trânsito, o céu cinzento escuro. O Francisco, 6 aninhos, parece, lentamente, despertar do seu torpor:

- Pai, porque é que existimos?

A meio das reviengas na rotunda do relógio, mais concentrado em não estragar a chapa do que em atingir a profundidade do Francisquinho, levo uns bons 20 segundos para responder:

- Há quem diga que foi Deus que criou o mundo e os homens, Francisco.

O Miguel, 9 anos e mais dado às filosofias terrenas, contrapõe:

- Não não, foi o big bang!

O Francisco, eternamente insatisfeito com as explicações para os porquês da vida, clarifica:

- Não é como é que existimos, é porque é que existimos?

Mau…mais 20, 30 segundos, e tento uma escapatória:

- Se calhar existimos para ser felizes e ajudar outras pessoas de quem gostamos a ser felizes, Francisco. O que achas?

- Sim, talvez pai!

Desta vez é o Miguel que fica insatisfeito:

- Hum, não sei pai, não sei se é bem por isso.

Antes de fechar o debate teológico com mais uma música do Agir que os traga de volta à simplicidade da música simples, fecho a questão deixando-a em aberto:

- Não penses muito nisso, Miguel, boa parte das pessoas morrem sem descobrir a resposta a essa questão. E olha, muitas morrem felizes, mesmo sem o ter descoberto a tempo.

 

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publicado por bolaseletras às 15:25

O carrossel

Quinta-feira, 11.10.18

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Gira que gira e volta a girar.

 

Creio que esta era uma lengalenga entoada nos idos da infância, provavelmente a acompanhar a dança do pião de madeira, embalado pela corda suja e coçada dos nossos sonhos. Éramos felizes como jamais o voltámos a ser e pouco interessa se o sabíamos ou não, pensar nisso era um absurdo visto aos olhos de crianças sorridentes e de joelhos esfolados, era uma perda de tempo, apenas mais uma parvoíce aborrecida do mundo dos adultos. A lenta valsa do pião, naqueles vagarosos segundos que antecipavam a sua inevitável queda por terra, era um vislumbre nebuloso da tristeza que ainda não conhecíamos. Arrumávamos o pião no bolso do fato de treino e rumávamos aos casulos onde a alcatifa já não cheirava a relva, onde os joelhos já não se esfolavam no mar de risos dos nossos amigos. Vinha o banho e a pele enjoativamente cheirosa, o jantar invariavelmente a contragosto, os trabalhos de casa sem necessidade de qualificativos, os traumáticos deveres que diziam ser as ferramentas do nosso futuro, daquele futuro que hoje conhecemos e que sabe a saudade e a desperdício.

 

O carrossel de ontem, de corridas sem fim, saltos e gargalhadas, é hoje o passo esbaforido e exausto para impedir que mais uma porta do autocarro se feche nas trombas dos nossos sonhos. Os saudosos gritos estridentes de alegria pura e descontrolada são hoje as buzinas irritadas e chorosas que temperam o túnel de alcatrão gasto e de prédios tristes, a rua dos nossos pesadelos.

 

Não, a vida não é assim tão triste quando abandonamos a criança que fomos. Não é? Será que a vivemos com uma réstia do brilho da nossa infância? Será que percebemos que é aí que estará a nossa salvação, o Santo Graal da felicidade? Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 14:30

O cheiro da liberdade

Sexta-feira, 20.07.18

 

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 Fotografia por Peter Brüchmann, Berlim, 1956

 

São demasiadas vezes difusas as nossas memórias de infância, bem mais do que a clareza com que recordamos as pepitas de pura felicidade então vividas. O que não se esfumou em forma de marcas de alegria em brasa que ainda hoje me queimam a pele foi o espaço, a liberdade, a rua, a descoberta, o cheiro a terra molhada, o suor de felicidade nos dias de calor abrasador. As brincadeiras em casa, os primeiros encantamentos com o ZX Spectrum tiveram o seu espaço, mas não encaixam nesse baú de memórias inesquecíveis. Mandem os vossos filhos para a rua, vão com eles se tiver que ser, mas deixem-nos sentir a liberdade de horizontes sem fim, permitam que o estimulante suor frio do desconhecido lhes aqueça a alma, não lhes castiguem os joelhos esfolados na gravilha e os calções beijados pelo verde sujo e libertador da relva molhada. Lembrem-se do que realmente vos fazia felizes. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 11:03

O Miguel que já não é tão pequeno assim - 9 aninhos

Quarta-feira, 04.07.18

  

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O mundial, o trabalho, a vidinha e o diabo a sete fizeram-me esquecer do habitual textinho sobre o aniversário do meu primogénito, o meu querido Miguel. 9 aninhos de ensinamentos sem fim, de reaprender o que é ser criança e como devemos educar, respeitar, orientar e compreender este estado puro, maravilhoso e tantas vezes tão complexo. A bondade está lá, a alegria ingénua e pura também, tal como estão as naturais frustrações de quem cresce num mundo crescentemente complexo. Creio que ainda ninguém pensou a sério como será, no futuro, um mundo onde os miúdos têm acesso a uma enormidade de informação, onde podem ser muito mais críticos e conhecedores do que nós éramos na idade deles. Como será esse mundo, como serão estes miúdos daqui a 30 anos?

 

Para memória futura fica o Miguel com o apêndice por ele mais adorado e detestado, o seu querido, absorvente, fofo e quantas vezes irritante e desafiante irmão, o pequeno Francisco. Que sejas feliz, Miguel, que eu saiba orientar-te nesse sentido respeitando o caminho que escolheres. Com amor, o teu pai.

 

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publicado por bolaseletras às 17:19

6 anos de ti

Terça-feira, 17.04.18

 

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6 anos sempre a correr, a chutar, a lançar, a dar lições sobre a beleza da inocência e a simplicidade da felicidade. Ter dois filhos tão diferentes, com uma panóplia tão variada de qualidades e defeitos é um desafio, uma bênção, um complexo manual de peças soltas que nos convida à construção do interminável puzzle de dois seres humanos decentes e felizes. Pensamos que a obra é nossa, mas é toda deles, mesmo que por vezes nos deixem acreditar que temos uma influência determinante no que sairá dali. Temos evidentemente direito a algumas pinceladas na tela das suas vidas, mas o molde já lá está, o desafio maior é sabermos respeitá-lo e ter a arte para ajustar as cores secundárias ao maravilhoso arco íris que vive dentro deles. Parabéns Francisquinho!

 

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publicado por bolaseletras às 09:51

O papagaio de asas quebradas

Quarta-feira, 28.03.18

  

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 Fotografia de René Burri

 

Nada há mais triste do que a infância que se esfuma

o adulto que se molda em oposição ao vento

contra a corrente do rio que corre livre e abraçado a sonhos crus.

 

O papagaio voa agora solitário

não pelo impulso generoso da criança

mas soprado pela indiferença do abandono,

longe da ingenuidade perdida

saudoso dos dedos quentes e felizes que jamais voltará a sentir.

 

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publicado por bolaseletras às 15:38

Lake, Veronika Lake

Quarta-feira, 07.03.18

  

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"Hollywood gives a young girl the aura of one giant, self-contained orgy farm, its inhabitants dedicated to crawling into every pair of pants they can find"

 

Em 1971 a diva Veronika Lake descrevia assim o clima que pairava sobre Hollywood. Depreendemos que por detrás da cortina destas palavras o assédio sexual fosse parte integrante dessa quinta orgiástica que Veronica descreve. Seria assim com o assédio sexual no mundo das artes, seria assim certamente com o fenómeno do bullying nas escolas. Há 30 anos atrás, era eu um jovem pré-adolescente, já o bullying existia nas escolas, nos grupos de miúdos que então brincavam à solta nas ruas dos Olivais, em todo o lado. Arrisco-me a dizer que esse triste mas real fenómeno era até mais intenso e gravoso do que nos dias de hoje, onde a propagação de imagens, histórias, notícias e afins tornam tudo bem mais próximo e grave. Quanto ao assédio sexual no cinema, na moda e em muitas outras profissões, não duvido que existisse igualmente, provavelmente em maior escala do que nos dias de hoje, em que os mecanismos de controlo e censura social estão bem mais aguçados, como se percebe dos recentes acontecimentos de denúncia e condenação social e penal dos prevaricadores. O que se passa, novamente, é que uma denúncia tem hoje um alcance global, através dos media e sobretudo das sufocantes e bigbrotherianas redes sociais. Não quero com isto menorizar a gravidade do bullying ou do assédio sexual (um só caso seria já demasiado gravoso para se calar), mas sim dizer que já antes existiam, embora muitas vezes ocultos sob o manto de um mundo menos global e aberto. Estes comportamentos desviantes devem ser combatidos, penalizados e primeiro que tudo prevenidos, aproveitando todos os mecanismos modernos e civilizacionais que o passar dos anos nos deram. Aprendamos com os erros do passado, utilizemos as ferramentas do presente, mas não façamos disto uma chinfrineira histriónica, como se o mundo de hoje fosse muito mais perigoso, obrigando-nos a trancar os filhos em redomas de cristal onde nem do sexo dos anjos se fala. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 11:15

Ontem levei o puto à bola

Segunda-feira, 12.02.18

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Ontem levei o puto à bola e foi um dia do caraças para os dois. Para ele porque aos 5 anos sentiu-se mais crescido, no meio de tanta gente, a sair do estádio à noite, a jantar cachorro quente com mostarda e ketchup, a ouvir alhos e bugalhos dirigidos a tudo o que mexia no relvado, que a malta da bola continua a ir lá muito porque aquilo é o local e o evento perfeito para extravasar muitas das suas raivas e frustrações. Muitos ansiolíticos se poupariam se os médicos receitassem aos pacientes: “Vão à bola, insultem o árbitro, o VAR, os adversários, os jogadores da vossa equipa, deitem isso tudo cá para fora”! Mas pronto, o puto extasiou com os cânticos, as bandeiras, a cor, a paixão, os golos gritados, com tudo!

Para mim o dia foi espectacular porque, novamente com o segundo rebento, consegui acertar com o timing perfeito para o baptismo leonino. Não consigo perceber os pais que dizem que os filhos são de outro clube que não o deles. Como muito bem disse um amigo leão, devemos dar-lhes liberdade de escolha até aos 3 meses. Se eles não a utilizarem, escolhemos nós o clube por eles, como é evidente. Por outro lado, foi bom recordar o motivo porque cada vez menos vou à bola, talvez umas duas ou três vezes por ano. A única vez em que me chateei no futebol, foi com um adepto do meu clube que insistia em insultar o Pedro Barbosa. Ao meu comentário para se calar, que Alvalade não era a banheira da Luz e que estamos ali para apoiar os nossos, gerou-se um burburinho que se via do outro lado do estádio (o clássico agarrem-me agarrem-me que eu vou-me a ele). Sei, por experiência própria, que isto também se passa na Luz e noutros estádios do país, pelo que o problema é certamente meu, que tenho o estranho hábito de apoiar a minha equipa durante os 90 minutos de jogo, guardando as críticas positivas, ignorantes ou simplesmente idiotas, para as restantes vinte e duas horas e meia do dia.

Sobre os pontos negativos, queria agradecer aos senhores da Liga, da arbitragem e a quem mais caiba no saco, a má utilização dessa óptima “farramenta” que é o VAR e que me impediu de explicar a uma criança de 5 anos porque é que o golo que fora há uns minutos já não o era. É também de salientar como é que em duas ocasiões, uma criança que não percebe por aí além das coisas da bola, me questionou sobre dois movimentos inacreditáveis do Senhor Doumbia: “Papá, porque é que ele não chutou logo à baliza?”, seguido, uns minutos depois, noutra ocasião de jogo de um “Papá, porque é que ele não chutou para a baliza?”. Segundo o nosso Senhor Jesus, o Rafael Leão tremia todo antes de entrar no jogo. Pelas poucos minutos que deu para ver do jovem Leão, prefiro um Rafael todo borradinho em campo do que um Doumbia cheiinho de experiência a cair de madura…vejam lá isso, Senhores!

 

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publicado por bolaseletras às 16:25





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