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Crime (pérola 4) - O outro lado do espelho

Terça-feira, 27.04.10

  

 

"- Você é diferente dos outros - declarara ele pomposamente. - Eles só querem saber como. Como é que eu atraí, dominei, fodi, matei e ocultei. Mas você está verdadeiramente desesperado por saber porquê. Você quer que eu lhe diga que fui abusado pelo meu pai ou pelo padre da paróquia ou por outra pessoa qualquer. No seu espírito tacanho tem sempre de haver uma causa e um efeito. Mas você só está a proteger gente tão fraca como você próprio, Lennox. Você não consegue aceitar que o homem é um caçador, um predador. A sociedade civil foi constituída para proteger os fracos e os cobardes, sejam eles ricos ou pobres, dos fortes e virtuosos que têm a coragem de cumprir o destino da sua espécie. Que têm a gana de fazerem o que querem".

 

 

 

 Termina aqui, desta forma dura, abrupta e doentia, o lançar de pérolas sobre "Crime" de Irvine Welsh. O fulcro do livro é a podridão do universo em que se movem os pedófilos, as suas artes de dissimulação, as suas razões ou falta delas, todo o lodo que, para nós, gente supostamente normal, é absolutamente inexplicável. Mas há razões. Profundas e entranhadas no mais negro breu da natureza humana, extirpadas de macabras histórias passadas ou, como a que acima se apercebe, nascidas de uma genética assustadora mas real. Ray Lennox, o polícia incrédulo, somos nós. O criminoso, o ser que explica o que para nós é uma conjunto de razões inexpugnáveis para a nossa capacidade de entendimento, é o mundo já ali ao virar da esquina, que, a qualquer momento, nos pode engolir. "Crime" dá-nos um vislumbre desse entendimento. Não é para todos, essa assustadora percepção. A ler, com as naturais reservas.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 21:22

Crime (pérola 3) - A vaidade humana na ponta de um bambu

Segunda-feira, 12.04.10

 

 

"Embora exausto, os seus nervos estão agora tão retesados como as cordas de um piano e não consegue adormecer. Dá por si a levantar-se outra vez, a refugiar-se uma vez mais na televisão, mudando de canal até aparecer no Discovery um programa sobre a natureza. O documentário tem por tema a extinção dos pandas na China e as tentativas levadas a cabo para os salvar. A maior parte destas parecem envolver cientistas que molestam os pandas e as suas crias. Separando as jovens criaturas das suas mães, agrafando-lhes transmissores às orelhas, tatuando-os no interior da boca. Uma mulher americana, acompanhada pelo filho, é a narradora da emissão, apresentada como «uma jornada pessoal». Prestam assistência aos zoólogos chineses que interferem com os pandas, com evidente perturbação dos animais. Lennox pensa que se aquelas criaturas pudessem comunicar, diriam:

- «Vão-se lá foder e deixem-nos cá comer os nossos bambus e extinguirmo-nos em paz». Mas não era assim que procediam os humanos. Como queremos matar-vos, a nossa vaidade exige que vos salvemos. "

         

 

Será das questões mais controvertidas da natureza humana, aquela que se refere às acções beneméritas em prol dos animais e da melhoria das suas condições de vida. Antes de se chegar à raíz das boas intenções (serão elas puras e descomprometidas, ou falsas e interesseiras) interessará conhecer a competência técnica de quem define o que é mais adequado para a sobrevivência e a felicidade dos animaiszinhos. Saberão estes arautos dos direitos dos animais o que querem os bichinhos? Terão perscrutado o fundo dos desejos dos golfinhos, dos bezerros, dos cachorros de modo a trazer à superfície as vontades e as ânsias da bicharada? Ou será que falaram em privado sobre as suas vontades e ambições? Estudem-me, analisem-me, protejam-me dos meus predadores e dos meus hábitos, comunicaram-lhes as focas, os esquilos e os fofos ursos polares? 

 

Irvine Welsh diz tudo isto tão bem que as minhas palavras são obviamente redundantes. Mas enfim, é esta a missão de quem tem um blogue, perorar sobre tudo e sobre nada, repetir até à exaustão aquilo que já mil vezes foi dito e muitas vezes de forma mais clara e interessante. Que querem? Há quem colecione moedas e isqueiros, a mim deu-me para isto.

 

 

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publicado por bolaseletras às 20:35

Crime (pérola 2) - Os dois extremos do abismo

Segunda-feira, 05.04.10

 

"A vodka foi bem servida; daquilo é que Lennox gostava nos Estados Unidos, serviam os copos a olho. Não se punham para ali com aquelas merdas das regras, dos pesos e das medidas. Só por esse motivo valia a pena terem feito a Revolução Americana. Junta àquilo uma garrafa de cerveja importada. (...) A primeira bebida não consegue eliminar as ansiedades não específicas que lhe percorrem a mente e o corpo, limita-se a cristalizá-las num tumor sólido dentro dele, o qual se esgueira por uma qualquer auto-estrada psíquica que tem rude ligação ao seu tracto intestinal e acaba por assentar pesadamente no fundo da sua barriga."

 

"(...) Lennon manda vir outra vodka. Depois mais outra. As suas gorjetas decentes garantem que o barman lhe enche o copo. Este homem compreende evidentemente que certas pessoas, lá porque vêm sozinhas para um bar e espetam a cabeça para beber, não andam necessariamente à procura de companhia. O que elas querem é ver se aquelas merdas em que tentaram pensar quando estavam sóbrias se resolvem melhor estando bêbedas".

 

 

Percorrendo a sua obra, quase que pode considerar-se Irvine Welsh um especialista na abordagem dos piores vícios do ser humano. Droga, álcool, taras sexuais, contem com Welsh para os esmiuçar e levantar o véu sobre as origens desses cantos negros da condição humana. Ray Lennox, o protagonista de "Crime", tem problemas com a bebida, a droga, sendo que as suas vivências sexuais também não lhe permitem uma existência saudável a esse nível. Neste trecho, o álcool - o escape da realidade confundida com a procura de respostas nos inúmeros gargalos dos becos do quotidiano. Quando não souberem se têm ou não um problema com a bebida, é simples, Welsh dá a receita infalível para a identificação do problema: ou sofrem de infalível solidão que vos conduziu à bebida, ou estão fartos de quem vos rodeia e procuram como única companhia os enebriantes vapores do álcool. Não deve ser difícil perceber em qual dos extremos da vossa vida se colocaram.

 

 

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publicado por bolaseletras às 12:05

Crime (pérola 1) - O colapso e os projectos paralelos

Quarta-feira, 24.03.10

 

 

"O problema de aceitar a ideia de que anda deprimido, ou até a sua versão mais benigna do «stressado», é que isso significa intrinsecamente o colapso das suas certezas morais. No mínimo existia potencial para que todos os comentários que ele fizesse pudessem ser vistos como sintomas da doença. E sente que o modo como Trudi gere a suposta condição dele tem a ver com o controlo (dela) e a despossessão (dele). A lógica dela é a de que os seus pensamentos o hã-de levar de volta aos traumas do emprego, sendo por conseguinte inerentemente más todas as deliberações independentes que ele faça. Ela substituirá isso pelos projectos "dela", onde há coisas boas para se pensar, como a festa do casamento, a casa nova onde irão viver, a mobília, os futuros filhos, a casa seguinte, aquela narrativa limitada que conduz à morte e que tanto o aterroriza."

 

Irvine Welsh articula agilmente a parte policial de "Crime" com as agruras da vida do protagonista, Ray Lennox. A influência que uma profissão desgastante tem sobre nós é exposta de forma crua, propiciando-nos o reconhecimento de uma realidade que se nos cola à pele. Por outro lado, o aproveitamento desse constante estado de agitação está nas mãos de quem menos se espera, aqueles que nos estão mais próximos. A um passo do stress a depressão, um caminho facilmente atalhado pelos ínvios meios que a realidade tem ao seu dispor. Como reacção, a entrega ou o estrebuchar. Tudo depende da "qualidade" daqueles que nos rodeiam, das forças interiores que ainda conservamos, da capacidade de atravessar os trilhos escarpados dessa montanha que é o desespero, sem sentir a pele rasgar-se irremediavelmente. A cura para a doença do século parece-me ancestral: os que nos amam, bons amigos, relativizar a aflitiva realidade, sorrir todos os dias. Há quem diga que não é nada fácil, eu diria que já foram ultrapassados obstáculos bem mais complicados.

 

 

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publicado por bolaseletras às 19:30

Irvine Welsh - Crime

Sábado, 20.03.10

 

 

Há escritores por muitos desconsiderados devido aos assuntos que abordam. Irvine Welsh, esse turbulento cidadão escocês, já andou pelos caminhos da droga (Traisnpotting, Ecstasy) da pornografia (Porno), tendo, no seu último livro, submergido no nebuloso e asqueroso mundo da pedofilia (Crime). Há anos que não me cruzava com Welsh nas prateleiras, mas algum cansaço de escritas demasiado densas - para o actual desgaste que me ocupa a cavidade craniana - devolveu-me à sua escrita escorreita, cinematográfica (lembram-se do filme Trainspotting?), violenta e crua.

 

Por estas e outras razões Welsh é uma figura controversa no meio literário, estatuto agravado pelo seu inconveniente sucesso comercial. Em "Crime", a sua última provocação, são-nos abertas as portas dos meandros das redes pedófilas, dos comportamentos desses predadores nojentos, das teias em que envolvem as suas vítimas. Welsh parte de um polícia escocês deprimido que viaja para Miami com a sua noiva, em atribulada pré lua de mel, e aproveita o estudo aprofundado que efectuou sobre os modus operandis dos criminosos do sexo infantil, para nos chocar, alertar, abrir os olhos, estimular o nojo. Um livro duro mas animado, uma história bem contada, uma peça jornalística/policial soberbamente mesclada pelo humanismo de um personagem à beira do abismo. Nos próximos tempos, deixarei algumas pérolas, não do fundo do mar, mas do fundo do lodo.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 13:13





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