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"Correcções" - O sarcófago dos tempos modernos

Quinta-feira, 21.11.13

 

Tenho negligenciado as letras e os livros em prol das bolas e das divas, o que não sendo pecado ou raiz do mal das coisas que estão mal neste mundo, desequilibra o blog, o que nunca me agradou. A falta de tempo, o excesso de notícias, artigos, baboseiras e afins com que o smartphone me asfixia também me têm mantido afastado do cheiro a papel de livro de que tanto gosto. Esta será uma resolução de fim de ano, voltar aos livros e abrandar nos mergulhos digitais. Para matar saudades, regresso ao “Correcções” de Jonathan Franzen e a um trecho secamente factual mas que tem tanto a ver comigo, sobretudo porque habito num prédio com 60 condóminos de onde saio para entrar numa outra torre, agora não de casulos familiares mas de formiguinhas trabalhadoras. Fiquem com o elevador, esse sarcófago dos tempos modernos.

 

“Finalmente, chegou um elevador. Enquanto a massa de criaturas avançava para ele, Gary considerou a ideia de esperar outro menos povoado, um transporte menos infestado de mediocridade e cheiros corporais. (…) Absolutamente nenhum eco num elevador cheio. Todos os sons eram amortecidos por roupas, carne e penteados. O ar pré-respirado. A cripta sobreaquecida.”

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publicado por bolaseletras às 17:45

"Correcções" - A eterna busca do inacessível

Quarta-feira, 26.06.13

 

 

"E ainda por cima ele tem razão, pensa que a nossa cultura atribui excessiva importância a sentimentos, que está descontrolada, que não são os computadores que estão a tornar tudo virtual, mas sim a saúde mental. Ele diz que toda a gente anda a tentar corrigir os seus pensamentos, e melhorar os seus sentimentos, e aperfeiçoar as suas capacidades de relacionamento e parentais em vez de se limitar a casar e criar filhos como dantes se fazia. Batemos com a cabeça no nível de abstracção seguinte porque temos tempo e dinheiro de mais."

 

Parecerá obviamente desumano afirmar que atribuímos demasiada relevância aos sentimentos. Já será menos contestado o facto de demasiada gente andar estranhamente preocupada com o que pensa, com o que os outros pensam sobre os seus pensamentos, com a forma como se ama ou se devia amar. Na sociedade perfeccionista em que nos deixámos enredar vemo-nos como um objeto permanente de um movimento circular de eterna correcção, porque nunca nos reconheceremos como seres plenamente conseguidos. Algo sempre falhará nesta utópica procura do homem e da mulher perfeitos. Se antes todo o tempo era consumido na interminável luta para pôr pão e leite na mesa, hoje “batemos com a cabeça no nível de abstracção seguinte porque temos tempo e dinheiro de mais”. As simple as that.

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publicado por bolaseletras às 17:44

"Correcções" - A parede de silêncio

Sábado, 08.06.13

 

 

"Parecia que, em todos os motéis onde pernoitava, tinha vizinhos que fornicavam como se o mundo fosse acabar: homens com má educação e fraca disciplina, mulheres que riam entredentes e gritavam. À uma hora da manhã, em Erie, Pensilvânia, a rapariga do quarto ao lado guinchava e ofegava como uma prostituta. Estava a ser comida por algum indivíduo finório e desprezível. Alfred culpou a rapariga por ser fácil. Culpou o homem pela sua complacente confiança. Culpou ambos por lhes faltar a consideração necessária para manterem as vozes baixas. Como era possível que não pensassem, ao menos uma vez, no seu vizinho, incapaz de pregar olho, do quarto ao lado? Culpou Deus por permitir a existência de semelhante gente. Culpou a democracia por o obrigar a tolerá-los. Culpou o arquitecto do motel por ter acreditado que uma única camada de tijolo barato preservaria o repouso dos clientes pagantes."

 

Ruído. Todo o ruído existe para os atormentar. O mundo nega-lhes o silêncio, os intermináveis sons que os perseguem perfuram-nos até ao âmago de si. Desesperados, horrorizados, apercebem-se que o próprio sexo, esse momento de enlevo, é transformado em circo animalesco pelos fanáticos da poluição sonora. O ódio pelos sons humanos é o ódio de quem nada quer ouvir, só o seu silêncio, só a paz encerrada no casulo da sua existência. Franzen fez de Alfred, o patriarca da família das infindáveis correções, o homem que no fundo só queria o seu silêncio, o homem que odiava os sons, a voz, as palavras dos outros. Quem só se ouve a si mesmo e à sua verdade dificilmente consegue viver sem ódio, dificilmente consegue na vida cruzar-se com o amor.

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publicado por bolaseletras às 22:14

"Correcções", de Jonathan Franzen

Sábado, 01.06.13

  

 

“Correcções”. Famílias que passam toda uma existência a corrigir-se, pais que confundem educar com corrigir, filhos que anseiam por chegar à idade adulta para reverter o ciclo do infindável processo de correcção. O livro de Franzen é quase um manual de como não viver, de como não fazer os filhos crescer, de como não acompanhar o natural processo de “maturação” dos pais (estive quase a escrever envelhecimento ou decadência, mas prefiro olhar para a vida como um ciclo em que não paramos de crescer até que, qual fruto maduro, nos desprendemos da árvore da vida, porque já nada mais há para amadurecer). A simplicidade com que são analisadas as relações familiares é a chave para a profundidade dessas mesmas relações, para o mistério que é assistir à capacidade de amar ao mesmo tempo que se conhece tão meticulosamente todos os defeitos do outro, ao mesmo tempo que se torna insustentável partilhar mais um minuto a refeição junto daquela família que é a deles. Franzen acerta na mouche de cada um dos 5 membros desta família aparentemente disfuncional (mas que provavelmente se parece tanto com tantas outras famílias). Está lá tudo: o machismo entranhado no pai de família, a mãe que sufoca em décadas de servilismo marital mas que passa toda uma vida a esconder o que foi a sua vida, os filhos que crescem intimidados pelo que os pais esperam de si e que, mesmo sem o perceberem, voltarão a lançar esse anátema sobre os seus próprios filhos. Um livro magistral, um livro para se ler antes e depois de se ter filhos, if you know what I mean.

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publicado por bolaseletras às 22:55

Jonathan Franzen

Segunda-feira, 27.05.13

 

 

Entrei no mundo de Jonathan Franzen através do livro “Correções” e descobri um escritor magnífico. Franzen possui uma voz singular, apaixonada, que nunca desiste de mergulhar mais e mais na vida das suas personagens - pessoas comuns - e nas impenetráveis formas que estas adoptam para se relacionarem. O autor norte americano, natural de Ilinois, é igualmente ensaísta e jornalista, sendo conhecido por ser um escritor apaixonado pela sua profissão: escrever, escrever e escrever. Para Franzen escrever é estar muito infeliz da forma mais feliz possível, sendo que a infelicidade tanto pode estar na preocupação com o livro, com a inspiração, com a última página, o momento em que a relação do autor com as personagens termina, momento que já o fez chorar. Mas há também a felicidade de estar completamente preso na obra criativa, a felicidade de querer que o dia seguinte chegue de novo para voltar a escrever, de saber que no dia seguinte o que há a fazer é escrever, escrever é tudo aquilo que terá de fazer. A paixão de Franzen pela arte da escrita sente-se nas frases, nas pausas, nas imagens que nos transmite e planta na nossa mente e pele. O amor continua a ser a mais forte inspiração a que o homem se pode agarrar.

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publicado por bolaseletras às 18:18





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