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"O Anjo Ancorado" - Os dias da rádio

Segunda-feira, 05.11.12

 

 

«Apetecia-me ir por aí», disse ela a dada altura, e disse-o como se falasse do fundo do carro para a noite, lá em cima. «Apetecia-me vadiar até se fazer dia, ir a casa tomar banho e, ala, para o colégio. Ouça, não se importa de baixar mais o rádio?»

«Desculpe, tenho a mania de pôr muito alto.»

«Como os taberneiros?»

«Como os apreciadores de jazz, também pode ser. Ou como as prostitutas baratas, se quiser. O rádio, Guida, é um vício de solitários, nunca reparou?»

 

Não sei o que me encanta mais, se a simplicidade desarmante e encantatória dos diálogos tecidos por Cardoso Pires, se o suco das conversas dos protagonistas. Como não ligar esta troca de argumentos às manhãs de todos os dias, aos carros habitados por foragidos amargurados entregues às ondas hertzianas que miraculosamente os resgatam da solidão que vive por detrás dos vidros embaciados? Novamente o som alto, ensurdecedor, como que um grito que impede de pensar, uma outra dimensão salvífica antes do mergulho na multidão, nas palavras confusas dos colegas mastigadas no café da manhã, nas ordens clamadas por um chefe sonolento e sedento de afirmação. Em suma, um bom vício, esta coisa do rádio.

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publicado por bolaseletras às 20:02

"O Anjo Ancorado" - Demasiado ruído

Sábado, 27.10.12

 

 

“O falar alto, só para si, é um excitante intelectual, um devaneio dos solitários, sonho ou vingança. Tecem diálogos ao espelho as burguesinhas das vilas, fala o cego para o surdo sobre o mundo que os rodeia. Canta o galo capado, poucos o entendem. E poetas há, por essas secretarias e repartições, que vagueiam alta noite nas ruas da Baixa a esmiuçarem conversas de sua imaginação. É natural. Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros.”

 

Falamos cada vez mais alto, para todos e para nós. Em simultâneo, cada vez menos ouvimos o que todos dizemos. O barulho ensurdece-nos, cega-nos, torna-nos baços para alguns e invisíveis para outros. Em busca de quem nos oiça gritamos convicções e vociferamos apelos, bradamos ao espelho lamúrias de velhos ressabiados, preenchemos a vida de queixumes contra um mundo que teima em não compreender a perfeição da ideia que para ele delineámos. Podia ser tudo melhor, podíamos falar mais baixo, ouvir mais, esperar mais e correr menos. Não sendo fácil, também não deverá ser assim tão difícil.

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publicado por bolaseletras às 23:00

"O Anjo Ancorado" - Também um problema de elites

Quinta-feira, 18.10.12

  

 

“Este ar de terra a terra é fácil de perceber-se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade. São outra gente; gozam a paz da fortuna e das famílias, bebem vinho tinto nos bares do Guincho ou de Cascais sem que alguém lhes leve a mal. Julgam, em suma, a cidade à medida da aldeia. E passeiam-se nela. (…) Como os monarcas que desciam à rua para enriquecer o sangue nos ventres populares.”

 

Há alguns dias Vítor Bento, Conselheiro de Estado, afirmou estar convicto que o problema de Portugal sempre foi das elites e não dessa massa informe e que para tudo serve intitulada de povo. Tenho poucas dúvidas da evidência dessa convicção, duvido ainda menos que a multidão de filhos de grandes e históricas famílias prefira mudar esse estado de coisas, abandonando assim a vida de passerelles e de contemplação da bela imagem nos espelhos dos corredores de luxuriantes palácios (grandes escritórios de advogados, gabinetes ministeriais, multinacionais do regime, etc.) por onde se passeiam. Pouco me importa que esses maduros bebam vinho nos bares do Guincho ou de Cascais, mas já me lixa o juízo que se estejam a cagar para o povo que colhe e pisa as uvas que lhes proporciona o néctar dos Deuses. Pode ser que um dia, como Sócrates, bebam cicuta em vez de tinto.

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publicado por bolaseletras às 17:51

"O anjo ancorado"

Domingo, 14.10.12

  

 

“O Anjo Ancorado” é um romance pequeno, de histórias e diálogos curtos, como que uma fábula de partes do Portugal dos anos 50. Breves trechos do Portugal rural e miserável cruzam-se com figuras burguesas, com os novos ricos que têm consciência de o ser e do ridículo dessa condição. Há também carroças a percorrer Lisboa, velhos famintos a perseguir pardais minúsculos para matar a fome e raparigas que sonham ser mulheres mas que tremem de medo de o ser. Mais do que tudo “O Anjo Ancorado” é um obra preciosa, um bordado de filigrana em que as palavras encaixam umas nas outras com a naturalidade da vida. E são os livros que se parecem com a vida os que verdadeiramente valem a pena.

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publicado por bolaseletras às 22:31

José Cardoso Pires

Segunda-feira, 08.10.12

 

 

Uma das piores fraquezas desta fraca nação é a incapacidade congénita em louvar e promover interna e externamente os seus génios. Regressando à minha esforçada vontade em (re)descobrir escritores portugueses mergulhei no “O Anjo Ancorado” de José Cardoso Pires. Banhei-me na simplicidade de palavras puras como cristais, nas imagens tecidas que oferecem mais ideias do que mil ideias escritas, na cortante realidade de um Portugal que teimamos em esquecer ou não procurar conhecer. Não tenho bagagem nem conhecimento para dizer quem foi Cardoso Pires, para resumir em algumas linhas a sua obra. Sei apenas que o fascínio que este pequeno grande livro me transmitiu me abriu as portas para um escritor singular. Quanto ao homem e à obra deixo aqui algumas palavras de António Tabucchi, que muito melhor conhece ambos:

 

 

 

“Creio que nenhum outro escritor português soube contar, como Cardoso Pires, a infelicidade e a solidão: a infelicidade e a solidão do indivíduo mas também de toda uma sociedade, de um país inteiro. E ninguém, como ele, soube radiografar um sistema político como o salazarismo, apanhado na sua fase senescente. Um sistema esclerosado, sulcado por profundas fissuras, que causou na alma das pessoas desgastes já irremediáveis, abrindo galerias obscuras onde habitam justamente a infelicidade e a solidão”.

 

“Os livros de Cardoso Pires são assim: a ler e a reler. Oferecem-nos o prazer imediato de uma história e obrigam-nos depois a uma reflexão sobre essa história. São livros interrogativos, como todos os livros dos grandes escritores”.

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publicado por bolaseletras às 17:51





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