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Contos de futebol - Tanta pasión para nada

Quinta-feira, 14.05.09

A pretexto do Mundial de futebol de 2002 a editora Relógio D´Água publicou em Maio desse ano a antologia "Contos de futebol". A obra reúne 10 contos sobre futebol, dentro e fora do campo, para a qual contribuem sobretudo autores ibero-americanos, de entre os quais se destacam Javier Marias, Osvaldo Soriano e, não um escritor propriamente dito, mas um dos maiores escribas sobre as coisas da bola - Jorge Valdano.

 

Mas o conto que mais me chamou a atenção foi escrito por Julio Llamazares e intitula-se (em espanhol, que é ainda mais bonito) "Tanta pasión para nada". O conto incide sobre um jogador do Desportivo da Corunha, Djukic, artista da bola tristemente celebrizado por falhar o penalty que impediu o Corunha de ser campeão espanhol, título que seria o primeiro na história do clube galego. 

O drama é maior quando percebemos que a desgraça se deu no último jogo do campeonato, no último minuto, enfim, catarse maior na vida de um jogador não pode haver. O jogo decisivo foi com o Valência, quem se ficou a rir com o penalty falhado foi o Barcelona, campeão na triste temporada para o futebol galego que foi a de 1993-1994. Fiquemos com uns laivos de "Tanta pasión para nada", exemplo feliz de como a bola pode rimar tão bem com letras.

 

"Quando segurou a bola, Djukic lembrou-se do que a sua mulher lhe tinha dito naquela tarde; parecia que o tinha profetizado. Se surgir a ocasião, tinha-lhe dito Ceca, nem te passe pela cabeça marcar um pénalti"

 

"Quando Ceca disse aquilo, Djukic - lembrava-se agora - tinha começado a rir-se. Achara tanta graça à carinhosa advertência de Ceca, sempre tão receosa, sempre tão preocupada com ele, que desatara a rir-se como fazia quando a mãe lhe dizia em pequeno, lá, em Stitar (que longe estava agora!), que não rematasse com muita força, não fosse magoar o guarda-redes."

"(...) os seus companheiros já o procuravam com o olhar e, do banco, todos, Arsenio, o médico, o massagista, até os jogadores suplentes - entre os quais divisou Donato - lhe faziam gestos histéricos para que se dirigisse à outra área. A Djukic pareceu-lhe que todo o estádio se apoiava, de repente, sobre ele."

 

"(...) os jogadores de ambas as equipas, o público, inclusivamente, os polícias e os fotógrafos, que até esse instante se amontoavam às centenas por trás da baliza, tinham desaparecido. No estádio de Riazor - e no mundo - já só estavam ele, o guarda-redes e o árbitro."

 

"Djukic começou a correr, sem saber ainda como marcar o pénalti. Já não podia pensar; já era tarde para tudo. Pontapeou a bola sem a olhar, como se chutasse o ar (o ar que lhe faltava) e durante uns segundos, que lhe pareceram longuíssimos, intermináveis, observou como se afastava em direcção à baliza, onde a mancha azul do guarda-redes começava, lentamente, a deslocar-se. Nem sequer viu para onde ia; não viu como a defendeu. Apenas viu que, de repente, o campo voltou a rugir, depois de vários segundos mudo, e o guardião do Valencia, que tinha voltado a levantar-se, começava a correr e a dar saltos de alegria, enquanto os seus companheiros de equipa corriam a abraçá-lo. Tinha defendido o pénalti. Os companheiros de Djukic tardaram mais a fazer-lhe o mesmo, mas ele nem chegou a dar por isso. Ajoelhado no relvado, como um pugilista caído, só pensava em fugir dali enquanto repetia para si mesmo, como quando o seu irmão se matou, o que o pai costumava dizer da vida quando esta o maltratava: tanta paixão para nada".   

 

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publicado por bolaseletras às 23:21





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