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O eterno retorno

Segunda-feira, 05.03.18

 

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Amava despertar nos suaves aromas do café pela manhã, simples e a ferver. Depois disso, a perfeição coincidia com o som surdo das palavras a ecoar dentro de si. Se depois desse momento só seu ele a possuísse como só eles sabiam, o dia, o mês, a vida podia fechar para balanço. Não havia nada a desejar para lá disso. Só o eterno retorno.

 

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publicado por bolaseletras às 12:21

O beija-flor

Terça-feira, 10.10.17

  

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A garganta estava seca, as palavras evitavam abandonar a fonte estéril. Sentia a imaginação definhar e a inspiração longínqua. Os motivos por que outrora cravava sofregamente os dedos na caneta esfumaram-se nas idas e vindas da vida, nos encontros e desencontros com que o destino teimava em confrontá-lo. Sabia que um dia usaria esses reveses e as memórias já menos dolorosas como o fermento que faria germinar as palavras, mas neste momento sentia que, mais do que motivos para escrever, faltava-lhe vida vivida, intensamente vivida, que lhe trouxesse de volta a sofreguidão de estrangular a caneta. Faltava-lhe alguém para quem escrever, que lhe bebesse as palavras como o beija-flor bebe o néctar das flores, que o forçasse a espremer cada palavra como se fosse a última, como se o suco que jorrasse nas folhas fosse o elixir mágico que lhe devolveria a vida e a paixão de escrever.

 

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publicado por bolaseletras às 14:44

O Bukowski é que a levava direita

Sexta-feira, 25.08.17

 

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publicado por bolaseletras às 10:47

Arranha-céus, por J.G. Ballard

Domingo, 06.08.17

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Em tempo de praias a abarrotar, de gente que se digladia para pedir uma imperial num qualquer balcão, nestes estranhos dias em que a canícula enlouquece os habitantes de automóveis que formam filas sem fim, quase que arrisco dizer que este livro poderia ser uma aproximação a uma horrenda realidade futura não tão distante como isso. Os 2.000 habitantes de um arranha-céus auto-suficiente percebem que a constante exposição do homem ao homem, com os seus interesses visceral e propositadamente opostos (ah, a doce atracção da luta por algo) é a melhor forma de proporcionar a aniquilação final do homem pelo homem. Ballard embala-nos nesta fábula do mal, contagiando-nos pela secura e naturalidade com que narra o crescendo do ódio e da banalidade do mesmo. Não queremos acreditar que um futuro próximo nos possa trazer algo semelhante mas olhamos para o passado não tão longínquo e reconhecemos o mal. Apenas o cenário mudou, para um supostamente moderno e aconchegante arranha-céus. Não nos deixemos iludir.

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publicado por bolaseletras às 23:44

Obrigado BB, descansa em paz

Quarta-feira, 10.05.17

 

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“Só e apenas a mulher quase faz acreditar, a este velho ateu, na existência de Deus.”

“A História é uma comparação permanente. E aqueles que a não conhecem estão condenados a repeti-la.”

“O meu avô dizia-me para desconfiar sempre dos homens que não bebem e daqueles que andam sempre com ar grave. Segundo ele, os segundos escondem sempre qualquer coisa.”

“Andamos, há muitos anos, a viver de realidades cada vez mais virtuais, sem afeição recíproca, afastadas das pessoas, e criando modos de existir não coincidentes uns com os outros. A ideia de comunidade foi aniquilada, e o conceito de sociedade sofreu um desvio falho de determinações e, por isso, fatal. Que nos resta? Tentar compreender os sinais das novas gerações.”

“O escritor é um ladrão desavergonhado.”

“Não há mortes naturais. Todas as mortes são injustas como uma culpa infundada, e inúteis como uma heresia.”

 

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publicado por bolaseletras às 10:09

Da série mini mini mini contos de encantar

Quinta-feira, 20.04.17

 

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publicado por bolaseletras às 11:29

Profissão: brincador

Sexta-feira, 02.12.16

  

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«Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor. Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for. Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for. Quando for grande, quero ser um brincador. Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor. Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer. Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador… A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar. A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.»

 

Excerto do livro de Álvaro Magalhães, "O brincador"

 

 

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publicado por bolaseletras às 09:43

Os cus de Judas (e as nádegas fofas das criadas)

Segunda-feira, 14.11.16

 

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A tropa há-de torná-lo um homem, os homens que o antecederam e foram à tropa nunca deixarão de ser miúdos traquinas, as mulheres desses homens fingem que o mundo é perfeito e que esses a quem chamam seus homens não são a encarnação de pequenos e eternos diabretes. Lobo Antunes entremeia por entre frases complexas e reflexões tantas vezes demasiado profundas um humor de filigrana, que se descobre nas palavras dançantes e nos retratos pintados a lápis de cores da infância, como se hesitasse entre a maturidade inatacável e a tentação pela rebeldia juvenil. Não sei se tal será propositado – pretendendo o autor tudo abarcar, tudo ser, nada deixar por explorar – ou se Lobo Antunes não será mesmo tudo isso, um furacão de maturidades e ingenuidades, um turbilhão de sentenças circunspectas e de gargalhadas alarves. Tudo isto é Lobo Antunes, tudo isto atrai e afasta os que o adoram e odeiam, tudo isto é a cola que une os cacos de um escritor genial e – muito por esse excesso de genialidade – inacessível.

 

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publicado por bolaseletras às 09:43

O cheiro do cu de Judas

Sexta-feira, 04.11.16

  

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Não me venham com palavras plásticas que se leem com os dedos nos tablets da moda, com obras de arte comprimidas nos Kindle aprumadinhos e sem cheiro. Ler é desfolhar páginas já amarelas, é inebriarmo-nos com o cheiro do papel a tresandar a muitas vidas e anos de dedos vorazes ou de prateleiras pardacentas, é tratar o livro com o carinho necessário para que não se desfaça num mar de folhas descoladas, é acomodar a lombada no nosso colo como se fosse um filho recém nascido. Ler Lobo Antunes é mergulhar 20 minutos diários (não mais que isso, as injeções de palavras e sensações podem conduzir a overdoses literárias) num outro mundo que esmiúça o nosso mundo até ao âmago da sua complexa simplicidade.

 

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publicado por bolaseletras às 10:27

"Os cus de Judas" - no Jardim Zoológico da magia das palavras

Quarta-feira, 02.11.16

 

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Começa assim “Os cus de Judas” de António Lobo Antunes, numa reminiscência das sensações da infância/juventude (?) de tempos passados no velhinho Jardim Zoológico de Lisboa. Os sons não eram os que esperávamos de animais mas os de vozes de gaze e sílabas de algodão, os pescoços da girafa não eram compridos como escadas mas sim a altiva e inatingível solidão de esparguete da girafa. Lobo Antunes é único, observa e reflecte com um filtro de beleza e um nível de detalhe que dificilmente alcançaremos. Lê-lo hoje é percebê-lo como não consegui fazer há uns anos atrás, é ter os sentidos mais apurados porque a vida já me ensinou outras nuances sobre a beleza e a fealdade, sobre a riqueza da linguagem e sobre a essencialidade de nunca considerar que uma palavra foi escrita a mais, pois se alguém achou que ela devia existir é porque algo provocou essa sensação, essa necessidade de a plasmar no papel, na vida.

 

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publicado por bolaseletras às 10:35





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