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Debaixo do vulcão (pérola 3) - O caminho para a paz

Sábado, 23.01.10

 

 

"Suponho que sei o meu bocado a respeito do que seja sofrimento físico. Mas isto é o pior de tudo - isto de uma pessoa sentir a alma a morrer. Não sei se é porque esta noite a minha alma morreu de facto, que eu, neste momento, sinto qualquer coisa que se assemelha a paz".

 

Passamos meia vida a procurar fugir às dores físicas e às azias da alma. Tememos os acidentes, os azares, a velhice, a morte dos nossos, o desamor de quem amamos, rogamos a altares em que não cremos mas receamos, elevamos a novos deuses os cientistas da vida, os médicos a quem encomendamos a vida eterna. Construímos em toda esta odisseia de forçada dor a estrada que nos aproxima do inclemente sofrimento. E a solução ali, na esquina de tantas agruras, naquele cantinho do desespero. Fechar os olhos e esquecer as dores da alma. Apagar o sentir. E talvez começar a viver sem medo de sofrer.

 

 

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publicado por bolaseletras às 17:22

Debaixo do vulcão (pérola 2) - As mãos

Quinta-feira, 14.01.10

 

 

"Yvonne e o Cônsul ficaram um momento no pórtico, sem uma palavra, sem darem as mãos, embora as tivessem encostadas uma à outra. Era como se eles duvidassem de que aquilo não fosse um sonho; ambos se mantinham separados nas suas tocas distantes, como se as mãos deles não fossem mais do que destroços arrancados às suas memórias, destroços meio receosos de se misturarem e contudo tocando-se à superfície do mar, gemendo, no seio da noite".

 

Toda a elegância da escrita de Malcolm Lowry percebe-se por entre as mãos que se tocam, por entre os dedos que evitam entrelaçar-se. A relação entre o Cônsul e Yvonne, a possibilidade de reconciliação de dois amantes magoados, passará sempre pelas mãos. Está ainda para ser estudada a relevância do toque das mãos no grau de intimidade que liga os amantes. Um beijo supostamente apaixonado pode menos valer do que um encontrar de mãos quente, forte, sincero. Um dedo que desliza pela palma da mão dela pode muito mais dizer sobre o desejo do que 15 minutos de satisfatório e competente sexo. As mãos, está nelas a chave. Tomem bem atenção a quem e como dão a mão. Sempre assim foi, sempre assim o será.

 

 

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publicado por bolaseletras às 20:30

Debaixo do vulcão (pérola 1) - Dos corações puros

Domingo, 10.01.10

 

 

"Tenho um medo aflitivo de que tu possas, na verdade, precisamente, porque, no fundo, és uma criatura simples e boa e respeitas, mais genuinamente do que muitos outros, os princípios e o espírito de decência que o poderiam ter evitado, vir, por esse mesmo facto, a tornar-te presa, quando fores mais velho e a tua consciência menos forte, de um sofrimento mais abominável do que aquele que me tens causado. Como é que eu te poderei ajudar? Como é que o homem assassinado poderá convencer o assassino de que não o perseguirá?"

 

Se este trecho de "Debaixo do vulcão" não vos põe a pensar que o Malcolm Lowry tinha umas pontadas de genialidade nos entretantos que separavam o erguer e o baixar de dois copos, é porque anda muita gente distraída com pensamentos bem menos fúteis. Que isto da literatura acaba por ser uma grande futilidade, como alguém me disse em tempos "isso de andar a ler livros é de quem não tem mais nada para fazer". É verdade, poderia muito bem ocupar os tempos mortos a zappar os FOX e AXN´s, a jogar aos joguinhos do facebook, a trazer trabalho para casa para fazer de tipo mais produtivo lá do burgo, mas, vejam lá, de vez enquanto ainda me dá para folhear uns livros bolorentos. Enfim, parvoíces.

 

 

Voltando às palavras de Lowry, só me vem à cabeça aquela pouca e boa gente que faz do seu coração enorme e da sua infinita bondade uma causa da vida. É tanta a grandeza de espírito que chegam a sofrer pela dor de que padecem os arrependidos que lhes espetaram o punhal pelas costas. Estes seres que parecem ter caído directamente dos céus, anjos que pairam sobre as nossas ocupadas cabeças, parecem desconhecer a mundana maldade que emana das mais simples acções, os assustadores automatismos de um quotidiano naturalmente preexistente nas nossas confusas vidinhas.

 

São os puros, os néscios, os estranhos cidadãos que pedem licença, agradecem os e-mails, dão o lugar nas filas, choram com o riso de crianças que não são suas, nunca reclamam, está tudo bem, desconhecem as más intenções, a culpa é sempre sua, ele não fez por mal, uma mão estendida é esmola certa, todas as lágrimas por quem não merece, todos os sorrisos que escondem as lágrimas para não incomodar ninguém. Às vezes amo-os, outras odeio-os. Porque sei que o fruto da sua generosidade será uma dor que tentarão esconder para que esta não gere mais dor. Enfim, o que é demais é demais e daí não virá nada de bom. Com conta, peso e medida, o uso do coração. Para que não exploda de tanta grandeza que não cabe no peito.

 

 

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publicado por bolaseletras às 22:18

Malcolm Lowry - Debaixo do Vulcão

Segunda-feira, 28.12.09

 

 

Pensei em escrever uma pequena introdução do que foi a vida e obra de Malcolm Lowry, como forma de introduzir a sua obra maior, Debaixo do vulcão. Contudo, apercebi-me que o que conheço de Lowry anda à roda deste livro, o único que li do autor. Muitas vezes apregoado como uma das obras primas do Século XX, Debaixo do vulcão atraiu-me também pela bruma mística que o enredava. A história parcialmente autobiográfica de um escritor que transforma em obra prima a sua dor e uma vida sofrida, poucas dúvidas deixa de que vamos entrar no âmago da literatura, no fulcro do que esta deve ser.

 

Debaixo do vulcão parte de uma ideia simples, o clássico triângulo amoroso: o cônsul inglês no México, alcoólico, a sua ex-mulher que regressa para recuperar o que nunca duas almas gémeas devem perder, o amado irmão do cônsul, Hugh, o traidor que o irmão não consegue deixar de amar. O dia mais importante da vida do cônsul preeenche os 12 capítulos desta obra maior de Lowry. Para enfrentar os complexos caminhos da narrativa, os galopantes diálogos e os intrincados e ziguezagueantes monólogos, exige-se um leitor atento e dedicado. Sim, este livro não é para leitores pouco dedicados, os light readers, termo que me orgulho de ter agora inventado (se lê José Rodrigues dos Santos e M. Rebelo Pinto esqueça este livro).

 

 

Por entre a história de um amor e da decadência de um homem, enredamo-nos nas cantinas mexicanas, no mescal, no alucinante Dia dos Mortos, nas estradas de poeira e de sangue que cruzam o México, nas touradas, nas intermináveis rodadas, onde, incrivelmente, Lowry deposita clarividências incontornáveis sobre o sentido da vida e a triste condição humana. Para aguçar ainda mais o apetite - ou não - fiquem com estas palavras de Lowry, proferidas em 1950:

 

"O sentido do passado, da dor, da morte: estes são factores intrínsecos ao México. Mas apesar disso, os mexicanos são o povo mais alegre do mundo, capaz de transformar qualquer acontecimento, incluindo o Dia dos Mortos, numa festa. Riem-se da morte, o que não quer dizer que não a levem a sério. É talvez por possuírem um profundo sentimento trágico da vida que a alegria e a festa estão sempre presentes: a sua atitude é o melhor testemunho da dignidade do homem. A morte, derrotada pelo renascimento, é ora trágica ora cómica.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 23:40





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