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"A zona de interesse" - Açucenas em tempo de guerra

Terça-feira, 20.10.15

 

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Gosto desta nova forma de extrair pedaços de livros aqui para o blog. Sente-se a textura das páginas, as sombras que perturbavam a luz, quase que recordo o cheiro inconfundível das hoje tão desprezadas folhas de papel. A forma agrada-me, o conteúdo não lhe fica atrás. O amor que a guerra não esmagou, a humanidade que o ódio e o terror não soterraram, as flores que sobreviveram à lama fria e seca das trincheiras.

 

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publicado por bolaseletras às 07:05

"A zona de interesse" - Gatos, ratos e homens

Sábado, 12.09.15

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O gato todo poderoso e o rato nu, entregue à sua condição histórica, ao seu incontornável estatuto. A sede de poder é a raíz da humilhação e da inacção a que se entrega o rato. A fraqueza do gato é a percepção de que o rato não tinha alternativa e é isso que lhe aguça a crueldade, a contrariedade dessa falta de resistência. Quando o mundo se entrega a este jogo animal aproxima-se ciclicamente do seu fim. O círculo do mal termina só para começar noutra era, noutro ponto do globo. Uma e outra vez o gato esmaga o rato impassível.

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publicado por bolaseletras às 11:36

A zona de interesse - Martin Amis

Domingo, 19.07.15

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Passamos metade da vida em busca dos livros que gostamos de ler, porque o tempo é escasso, porque temos perfeita consciência de que até ao último dia do nosso passeio pela existência não leremos um milésimo dos livros que desejaríamos devorar. Para mim, um bom livro é uma boa provocação, mexe comigo, abana-me, arrebata-me, obriga-me a parar a leitura porque tudo aquilo precisa de ser absorvido. Por vezes Martin Amis deu-me tudo isso (com “Koba, o Terrível”, com “Money”), como também já me desiludiu como um amante flácido desilude uma ninfomaníaca (“O Cão Amarelo”, um vómito irreconhecível de Amis). Com “A zona de interesse” coloca-se a questão ética de saber até onde pode ir um escritor, por mais que o título de “provocador” conste no seu currículo. Escrever sobre os campos de concentração nazis nunca foi fácil, imaginem o que é criar um romance de cordel por entre assassínios em massa nas câmaras de gás e conseguir pincelar tudo isso com um humor negro que tem a ousadia de nos fazer vincar os cantos dos lábios, envergonhados pelo sorriso que espreita. Como sempre, é a banalidade do mal que nos faz tremer na confortável poltrona, enquanto desfolhamos páginas quebradiças como os corpos daquelas vítimas esfaimadas. Tudo o que lemos está para lá do que é plausível, todo aquele terror está para além do que conseguimos compreender, mas tudo aquilo existiu. Amis resumiu tudo isto numa entrevista, quando disse que os sobreviventes do Holocausto repetiram incessantemente que apenas conhecemos 5% do que é uma pessoa e 5% do que somos na vida real, numa vida normal. É apenas quando tocamos os extremos das existência que nos confrontamos com a extensão da nossa coragem, que pode reconhecer-se no facto de estarmos preparados para fazer outros sofrer para nosso benefício ou, do ponto de vista das vítimas, quando nos deparamos com o terror de descobrir quem realmente somos nós e os outros.

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publicado por bolaseletras às 20:51

Money (pérola 2) - A pala dos burros que nos cega

Quarta-feira, 13.05.09

      

"Porque será que sentimos um desejo de proteger ao observarmos o ser amado que não se sabe observado? Porque será que nos dói o coração ao vermos um par de sapatos abandonado? Ou o ser amado que dorme? Pode ser que o corpo adormecido do ser amado expresse todo o patético desta ausência, todo o desamparo de quem ignora que está a ser observado...

 

Os actores são pagos para fingir que não sabem que estão a ser observados, mas é claro que eles esperam a cooperação de quem os observa, e quase sempre a obtêm. E há também os actores que não são pagos (pensei eu): esses é que é preciso observá-los."

 

À primeira vista o primeiro e o segundo parágrafo desta passagem de Money têm apenas uma ligação casual, uma reflexão que parte da ponta de outra e avança para um campo do comportamento humano distinto. Errado. Dos sentimentos gerados pela contemplação da pessoa amada passa-se para a análise do comportamento dessa pessoa. Será inocente toda aquela doçura? A atracção que o objecto do amor sabe estar a despertar no observador é provocada? estudada? procura manipular os olhos e o coração de quem se perde na adoração?

 

A história das palas dos burros não deveria nunca ser esquecida pela turba dos apaixonados. O olhar não se deve limitar a olhar. Deve ver, absorver, perceber. Tudo o que está para além do nosso campo de visão é o que realmente importa. O que percebemos conhecemos, tudo o resto que não passa da retina tende a dominar-nos.

  

 

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publicado por bolaseletras às 20:38

Money (pérola 2) - Da inevitabilidade dos cifrões que comandam a vida?

Sábado, 09.05.09

 

"Se todos nós largássemos as ferramentas e durante dez minutos déssemos as mãos e parássemos de acreditar no dinheiro, então o dinheiro deixaria de existir. Nunca faremos isso, evidentemente. Talvez o dinheiro seja a grande conspiração, a grande ficção. A grande viciação, também: estamos todos viciados e não somos capazes de nos desabituar. Nem sequer há nele alguma coisa de muito século XX, a não ser a disposição. Não é simplesmente possível abandonar essa droga, mesmo que queiramos. Não podemos tirar a macaca do dinheiro das costas."

 

Utopias, tretas ditadas por almas que aspiram à pureza. Era bom, era saudável, era uma possibilidade para este mundo, sim. Mas irrealizável à luz do que conhecemos. Os cifrões dão-nos o que desejamos, mesmo que sem cobiça, mesmo que sem ganância. A casinha, o carrinho, o fato catita, a merda das estantes a abarrotar de livros que não temos tempo para ler. Aparelhagem fantástica, dolby fucking surround para matar de inveja o palhaço do vizinho do lado!

  

Passo a passo, um dia após o outro. Aprender a viver no meio da competição por mais um punhado de euros ao fim do mês e não fazer disso o fulcro da vida. A ambição, doseada, pode ser uma arma para não nos atolarmos na monotonia da mediania. Mas procurar ir mais além não pode tudo justificar, olhar para cima não implica desprezar quem momentaneamente está por baixo.

 

O tilintar das moedas no fundo dos bolsos não pode ser a melodia que comanda a vida. Viver do dinheiro mas não viver para o dinheiro. A fronteira é ténue mas pode e deve ser correctamente definida. Sob pena de nos afogarmos no mar de notas que nos roubará o sentido da vida.

  

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publicado por bolaseletras às 01:36

Money (pérola 1) - Do alívio da dor numa pitada de sal

Sábado, 02.05.09

 

«No fundo, lá bem no fundo, eu até sou um gajo alegre. A alegria, diz-se, é o alívio da dor, por isso, acho que até sou um tipo muito alegre. Alivio a dor facilmente. Mas experimento muitas vezes a dor. Por isso sinto muitas vezes esse tal alívio de que tanto se fala, e toda essa felicidade.»

 

A pergunta mais embaraçosa que nos podem fazer ou que podemos dirigir a um interlocutor é exactamente a que decorre deste trecho de Money:

«Consideras-te uma pessoa feliz?»

A incomodidade da questão está directamente relacionada com a tibiez com que a resposta geralmente é prestada. O gaguejar no momento da resposta deve-se sobretudo ao facto das pessoas não perderem tempo a pensar no grau de felicidade que lhes dá cor à vida. Porque aquilo que não se conhece não nos magoa, diz o povo, dito geralmente aplicado às esposas atraiçoadas que fecham os olhos para não chorarem com o legado que a vida lhes concedeu.

 

Vai-se vivendo conforme a vida nos surge no caminho. As encruzilhadas que se nos colocam e que nos obrigam a tomar opções são geralmente momentos de angústia, raramente interpretadas como oportunidades de polvilharmos a nossa existência com mais uns pozinhos de felicidade. Diria que é como o sal ou o açucar, a felicidade: na medida certa torna um pedaço de vida perfeito, em excesso pode provocar enjoos desnecessários ou atiçar a sede de forma a torná-la impossível de saciar. Quando vos perguntarem, respondam:

«Quanto baste, que tudo o que é demais é fastio».

 

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publicado por bolaseletras às 18:54

Money de Martin Amis

Segunda-feira, 27.04.09

 

Martin Amis nasceu em Oxford, Inglaterra, em 1949. Carrega nas costas o peso de ser filho de Sir Kingsley Amis, escritor inglês de nomeada. Para completar esta mini-biografia, apenas mais dois apontamentos sobre Martin Amis: é usualmente considerado como um dos mais hábeis caricaturistas da condição pós-moderna e, por se assumir como um combatente em defesa da língua inglesa, declarou uma fatwa contra vírgulas mal colocadas.

 

Em money, a história de John Self é a história do seu insaciável apetite por dinheiro, da sua perdição pelas drogas, o álcool, as mulheres, a pornografia. É uma odisseia da vida jogada sem restrições, uma viagem voraz pelos desastres que o dinheiro gera, pela cega alucinação a que os amantes do vil metal se entregam. Ah, e tudo isto escrito de forma divertida e inteligente.

 

 

Acreditem, após ler a última página deste livro a resposta à eterna questão se o dinheiro dá felicidade é inequívoca. E o caminho que percorremos pelas páginas de Amis para chegarmos à resposta definitiva é um misto de êxtases dolorosos, de cheiros a metal que se confundem com corpos gastos e suados. Diria que em qualquer livro o final é irrelevante. É o caminho, a polpa das páginas, que nos vão ajudar a construir ou a reconhecer o nosso caminho. O final raramente depende de nós.

 

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publicado por bolaseletras às 22:24





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