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Mil máscaras

Sexta-feira, 22.05.20

 

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Quatro paredes que encerram o medo nos recantos do nosso assético casulo. A vida mascarada de vida, o medo convertido no novo normal. Pelo canto do olhar desconfiado as saudades do sorriso aberto de há 3 meses, há 3 meses foda-se, há 3 meses a rapariga da pastelaria sorria enquanto corava e corava enquanto sorria, desfazia-se no calor dos meus galanteios como o creme do mil folhas se evaporava na minha boca a ferver do sorriso dela. Não, não há na minha vida nenhuma loira de generosos e fartos seios da pastelaria do bairro, há apenas a raiva por não ver sorrisos abertos e tímidos por detrás das cirúrgicas máscaras que nos converteram a todos em doentes ambulantes, em hipocondríacos cinzentos e macilentos, zombies sonâmbulos cuja ambição maior é fugir ao bicho, ao Covid, ao coveiro, à cova onde todos acabaremos, com ou sem máscara. O caminho que faremos até deitarmos as costelas na terra fria somos nós que o escolhemos. Preferem fazê-lo a sorrir e a beijar, ou a sentir o bafo do medo encostado a lábios secos e carentes do calor da boca do vosso amor, do engate do momento, da moça da pastelaria de mamas de mil sonhos e folhas? Vejam lá isso, porra.

 

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publicado por bolaseletras às 12:22

Strange days

Terça-feira, 12.05.20

 

Flavio Greco Paglia.jpg

Arte por Flavio Greco Paglia

O que ontem tomámos como garantido e que assim vinha sendo há anos pulverizou-se em escassas e distópicas semanas. Um vírus microscópico, uma ameaça invisível que torna visível a fragilidade humana, a infantilidade das certezas, a nossa incapacidade de adaptação. Os líderes mundiais que julgámos medianamente imbecis mas, ainda assim, foda-se, ainda assim, acreditávamos terem uma pinga de bom senso ou, pelo menos, a inteligência de se rodearem de conselheiros sábios, assumiram toda a imbecilidade megalómana que julgáramos impossível de atingir. Amigos normais que aprendemos a admirar sucumbem ao pânico e transformam-se, por artes de feitiçaria, em débeis imitações de adolescentes borbulhentos e geneticamente imaturos. Já ninguém se lembra porque tem a dispensa repleta de rolos de papel higiénico, há quem pague pequenas e patéticas fortunas por máscaras fashion. Uma amiga que admirava pela calma e sensatez dispara nas redes sociais, ganha garras e garra e ataca os confinados desesperados “Gajos casados que andam ao engate, só prova o quão cobardes são. Preferem a segurança aparente de uma relação falhada e depois tentam comer por fora. Não quero julgar ninguém, cada um faz o que quer, mas pelo menos aguentem quando levam negas, ok?”. Assomos de louca coragem (se é bom ou mau, não serei eu a julgar) confundidos por entre reações de pânico, como a de um conhecido bem posicionado nas hierarquias do poder que enviou uma mensagem de whatsapp, para as suas centenas de contactos, alertando, um dia antes da declaração do estado de emergência, para que todos fossem a correr aos supermercados e farmácias, porque ia tudo esgotar, íamos ficar meses sem poder sair, salvem-se e salvem os vossos, gritava ele, desesperado, marimbando-se para todos os outros, pobres mortais, que não tiveram acesso a essa informação privilegiada.

O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que assistem sem nada fazer”, publica uma amiga, atribuindo a sábia frase ao grande Einstein, só não sei se ela vai fazer algo com essa grandiloquente mensagem ou se vai apenas sorrir, com o ego afagado por si própria e pela sua incrível capacidade de espalhar sabedoria. Olho para os meus filhos, saudosos dos amigos e da escola, mas a saber disfrutar desta nova proximidade familiar, ainda que forçada, e pergunto-me quem serão os génios que querem devolver as crianças ao seu mundo, restituindo-lhes algum normal, com regras que apenas lhes ensinarão o caminho da desumanização. Não sou o Albert, mas sou rapaz para dizer que o futuro somos nós que o construímos e que o medo não é bom conselheiro para os dias que hão-de vir. Vejam lá isso.

 

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publicado por bolaseletras às 11:07

O Verão é...

Segunda-feira, 15.07.19

 

uma janela para o mar. Nada mais, só o mar, o horizonte infinito do azul abraço, a vida como um sonho, o medo de te perder devorado pelo inigualável marulhar das ondas.

 

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The window on the sea - Ferdinando Scianna

 

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publicado por bolaseletras às 09:59

Acreditar...ou talvez não

Sexta-feira, 28.09.18

  

Acreditar.jpg

 

Ao contrário da impressão geral, não são as ideias dos outros que nos condicionam o caminho ou nos paralisam os avanços, forçando a recuos ou paragens estratégicas. É a nossa mente, os nossos medos inculcados, as nossas dúvidas ancestrais que nos prendem os movimentos, que nos dizem que o desconhecido é sinónimo de perigo, que tudo o que não consta no nosso cardápio de experiências já vividas pode dar para o torto. Pensamos assim sem pensar que é exactamente o nosso pensamento que nos impede de evoluir. As teias das nossas meninges e sinapses parecem, demasiadas vezes, cristalizadas no tempo assumindo a forma de teias de aranha bafientas e castradoras. Tudo o que pensamos deveria ser objecto de dúvida e de constante interrogação, mas encostamo-nos ao conforto que é obedecermos aos ditames da pessoa de quem mais deveríamos desconfiar, pelo menos enquanto não a questionamos até ao tutano. Vejam lá isso.

 

 

Acreditar2.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 12:00

O manto de ferro

Quinta-feira, 05.04.18

Durban, South Africa 1959.jpg

Durban, África do Sul, 1959, por Ed Vand Der Elsken

 

O ódio tem a cor do medo

o medo transpira o suor dos cobardes

dos que se cobrem das vestes do poder

sob mantos engomados de vergonha e soberba.

 

O pecado toca-lhes a vida

traça-lhes o destino.

 

Nunca entenderão porque na derradeira hora,

perante o precipício sem fim,

só eles e o seu medo habitam a solidão do penhasco

já despidos de ódio e soberba

sós

entregues

para sempre perdidos no medo

de viver a vida sem o manto de ferro do ódio.

   

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publicado por bolaseletras às 15:02

Porque nem todos os voos são de Ícaro

Terça-feira, 30.01.18

 

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Oportunidades. Um mar delas. Janelas abertas para o mar, escancaradas sobre o precipício dos nossos medos. Dar um passo em frente e sentir aquele frio gelado na espinha de quem se arrisca a viver. Dar dois passos atrás como quem toma balanço, mas nunca tomar a iniciativa de saltar aproveitando o balanço todo que se acumulou nessa interminável ponderação. Cheirar a vida, saboreá-la, sair do conforto das pessoas e das rotinas de sempre, abraçar o mundo e sim, o desconhecido. Tudo pode correr maravilhosamente ou podemos simplesmente estatelarmo-nos no chão frio e de pedra que pode ser a vida. Como o saber? Sim, só conheço uma forma. Para não morrermos estúpidos.

 

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publicado por bolaseletras às 10:28

A negra fonte de luz

Sexta-feira, 03.11.17

 

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Há quem entenda que os dark places são necessários. Há quem só saiba sobreviver na escuridão na posse de uma lanterna, evitando o confronto com as trevas, contornando os incómodos recantos do desconhecido. Aqueles que neles mergulham em busca de algo, ou conduzidos pelo inevitável fluir da corrente contra a qual recusam debater-se, esses habituam-se conscientemente à escuridão que assim deixa de ser tão assustadora. Esse confronto, esse diálogo com as trevas, é a sua fonte de crescimento. A fonte para a sua luz passa a ser a sabedoria apreendida nas outrora assustadoras trevas.

 

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publicado por bolaseletras às 16:35

O mergulho

Terça-feira, 03.10.17

 

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O mergulho para lá da realidade conhecida é sempre um mergulho no escuro. Ponderamos, antecipamos, pesamos os prós e os contras, elaboramos meticulosas análises SWOT, mas nunca conseguiremos prever o que nos aguarda nas coordenadas até então incógnitas, nunca desvendaremos os ditames do destino. O que nos move, nos conduz em direcção à mudança, é a sensação de que o agora e o aqui nos desconsolam. Acreditamos que lá à frente, do outro lado de onde estamos, só pode ser diferente, quase de certeza para melhor. Hesitamos sem saber porquê, conduzidos pelos aborrecidos caminhos que o maldito bom senso nos atravessa na estrada de sonho, enquanto o vento que passa sussurra não ser possível saber se algo que desconhecemos será melhor do que aquilo de que actualmente pretendemos fugir. Este medo pode ser um confortável e cobarde convite ao imobilismo, ou pode ser o que nos move em direcção ao agridoce desconhecido. A decisão de ir ou ficar está sempre em nós, na fibra de que somos feitos.

 

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publicado por bolaseletras às 17:00

O Sting é que a sabia toda

Quarta-feira, 19.07.17

 

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Sobre a polémica dos ciganos que vivem numa sociedade paralela integrados na nossa sociedade e sobre os homossexuais pouco Gentilmente destratados por um senhor com a idade de quem já deu a volta ao relógio e se instalou na confortável poltrona da idade da inocência tenho uma data de inócuas considerações a tecer. Tenho amigos homossexuais e nunca convidei ciganos para entrar lá em casa, mormente tenha jogado ao berlinde com alguns, levado uns cascudos de outro e conseguido escapar ao sangue violento de um vendedor colérico na feira do Relógio. Tenho isto a dizer que nada diz porque não me apetece defender teorias, tomar partido, insultar ideologias. Por mim, farto de gente que bate no peito e se arvora em dona incontestável da sua razão, todas as opiniões serão válidas se permitirem que todos nós consigamos viver com amigos do outro lado da barricada, mesmo que discordando até à medula disto ou daquilo, mesmo que não troquemos alianças ou visitas lá a casa. Quanto aos cascudos e à violência já não sou tão complacente como era em miúdo assustadiço e pouco dado a actos heroicos: olho por olho dente por dente, que isso de dar a outra face é nos filmes por altura do Natal. São monstros, os ciganos? Creio que não, mas regressando à infância com os olhos de hoje diria que são pouco mais que miúdos assustadiços que percebem que quem os olha de fora tem ainda mais medo que eles. Esta profunda reflexão atingiu-me as meninges após a distraída leitura de um comentário perdido por entre mais uma polémica facebookiana, pelo que tenho a acrescentar que isto é muito mais do que me apetecia falar sobre o assunto. Esperem, antes de colar aqui com cuspo o tal comentário perdido, apetece-me deixar apenas mais uma achega – tudo isto me faz lembrar um verso inesquecível de uma canção do Sting: “I hope the russians love their children too”.

 

“Chamava-se David Marcelino e era "o" cigano do 1ºA, minha turma do Camões do Areeiro. "Dunas" nunca tive mas palmou-me o estojo de dois andares que me tinham dado os meus pais como presente combinado de natal e anos. Aquilo era uma coisa linda. Cabrão. Também me deu algumas coisas: lembro-me particularmente de um olho negro, resultado de mo ter afagado com o pé, num gesto que só conhecíamos dos filmes do Bruce "Lim". Tudo por causa de uma super-gorila de morango, ácidas que eu sei lá mas as minhas preferidas e, pelos vistos, do David também. Depois, um dia de manhã, chegou à escola a chorar (lá dos problemas que tinha em casa mas que nunca partilhava) e ficou igual a nós, os que choravam. Nós com medo dele, ele com medo do pai. Recolhidas as lágrimas, nem se distinguiam. Chegados ao 2ºA já éramos amigos. Não jogava um caralho à bola.”

 

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publicado por bolaseletras às 15:24

Provavelmente

Quinta-feira, 27.04.17

 

amor ódio.jpg

 

Somos seres aparentemente “normais”, com vidas a maior parte das horas do dia dentro do espectro dessa aborrecida regularidade irritantemente previsível. É exactamente essa a razão que justifica a necessidade de, muito raramente, nos passarmos da marmita, transformando-nos em seres bipolares, e ousarmos o periclitante equilíbrio de viver no fio da navalha que é habitar sensações e mundos diametralmente antagónicos. O amor e o ódio por uma mesma pessoa num curto espaço de tempo - aquele que medeia entre um uivo de ódio e um beijo apaixonado que distam os escassos metros que separam a cozinha da cama – será o exemplo paradigmático. Mas haverá outros exemplos desta necessidade de libertação da absurda normalidade com que pautamos os nossos passos e medimos as nossas controladas palavras. Aquele livro que odiámos no Verão passado e que devoramos hoje como se a excelência da literatura se tivesse agora mesmo abatido sobre nós, aquele sabor forte e agressivo que quase nos fez vomitar há uns anos e agora não conseguimos não adorar. Aquela irritação inexplicável que submergia na pele sempre que ela falava e que hoje é música para os nossos ouvidos. Amamos e odiamos como quem respira e como quem retém a respiração com medo que tanto oxigénio seja demasiado para os nossos delicados pulmões. Amamos quase sempre dentro da norma, da propalada “normalidade”, com medo que tanto amor não nos caiba no coração. Provavelmente, é a semente desse medo a génese do ódio que não controlamos. Provavelmente.

 

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publicado por bolaseletras às 16:20





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