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Devias ter comido a papinha e tirado um cochilo, pequenino!

Segunda-feira, 19.05.14

 

Desde miúdo que sou aquele tipo de pessoa que não se importa de emprestar tudo e mais alguma coisa. Por generosidade pura e dura, por gostar de dar prazer a amigos e conhecidos com o que lhes empresto, porque não sou propriamente um tipo que dê um valor exagerado à posse material de um DVD, de um CD, de uma raquete de ténis, de uns óculos escuros, de um par de chuteiras ensinado pelo último dos fantasistas, etc., etc. Há uma excepção e essa tem a ver com bens muito especiais que levam consigo algo de mim. Sim, falo de livros, dessa fonte de sonhos e ideias, desse cantinho de palavras buriladas em filigrana, desse objecto tão simples e tão maravilhosamente complexo. Lembrei-me dessa minha dificuldade em emprestar livros quando me lembrei de voltar a escrever sobre eles aqui no blog, nomeadamente sobre “O mapa e o território” de Michel Houellebecq. Já tinha iniciado a minha actividade de escriba sobre mais essa pérola de Houellebecq (http://bolaseletras.blogs.sapo.pt/618985.html) , faltava apenas extrair das páginas do mesmo as pequenas pérolas que havia sublinhado aquando da sua leitura para partilhar com o mundo em geral e os caros visitantes deste blogue em particular. Foi então que me lembrei…o livro emprestei-o a um bom amigo, daqueles muito insistentes e a quem não consigo negar empréstimos, mesmo que de livros. Pior, lembrei-me depois que essa pobre alma me informara há tempos, com um sorriso misericordioso e displicente que o livro ficara no avião, para mal da cultura geral da humanidade e para deleite de um qualquer outro ocupante desse maldito pássaro com asas. Pequenino, o meu livro, hein??? Já que não posso recuperar as pérolas que sublinhei, que tal ofertares-me um, mesmo que limpo das pérolas que o meu intelecto e o meu sensível coraçãozinho marcou a carvão naquelas saudosas páginas? Vê lá isso!

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publicado por bolaseletras às 16:54

"O Mapa e o Território", de Michel Houellebecq

Quinta-feira, 05.12.13

 

Por entre a viciante asfixia da vida familiar, contornando ainda os crescentes afazeres profissionais, tentando também evitar o sugador de tempo de leitura que é esse maldito artefacto que é o smartphone que incessantemente despeja notícias e opiniões sobre um curioso cidadão, não é fácil parar para pensar, para apelar à memória e, assim, eleger o melhor livro que li em 2013, aquele que mais mexeu comigo. Percorro as estantes e é impossível não sorrir quando recordo o prazer que me deu ler “O Mapa e o Território” de Michel Houellebecq. Os livros dão-me prazer pela elegância da escrita mas, sobretudo, pelo conteúdo, pela vida que neles encontro, pelo que neles reconheço da vida que vivemos, que sonhamos viver ou na qual tememos reconhecer-nos.

 

Na obra em questão encontramos o pessimismo de um autor que tem em si essa marca da descrença, ao mesmo tempo que nos cruzamos com o estado de sufoco em que tantos de nós nos reconhecemos, aquela esmagadora pressão que a sociedade exerce sobre nós. Falo das sempre conturbadas relações entre gerações, dos constantes desencontros entre filhos e pais, falo das personagens em cuja pele entramos apenas para percebermos que estas não se reconhecem no mundo e na situação em que vivem, falo dos amantes que subjugam o amor à subida na escada profissional e económica, mas falo também de quem tudo tem e, ainda assim, não descobre a paz e a felicidade por entre os cifrões e a fama. O protagonista, um artista que transforma em arte uns meros mapas Michelin que 99% das pessoas nunca veriam como arte, mostra-nos que a beleza está onde menos esperamos encontrá-la, que dentro de nós temos essa capacidade única e mágica de fazer arte a partir do nada. E por falar em beleza e arte, termino com um trecho do livro em que o protagonista explana a sua opinião sobre o que é ou deve ser um artista. Inspirador…deixemo-nos inspirar e sejamos obedientes.

 

“Muitos anos mais tarde, quando se tornou célebre – e até, a bem dizer, muitíssimo célebre -, iriam interrogar Jed várias vezes acerca do que na sua opinião significava ser artista. Não iria encontrar nada de muito interessante nem de muito original para dizer, com excepção de uma coisa, que por conseguinte iria repetir em quase todas as entrevistas: na sua opinião, ser artista era acima de tudo ser uma pessoa obediente. Obediente a mensagens misteriosas, imprevisíveis, que, à falta de melhor, e não existindo qualquer crença religiosa, havia que qualificar como intuições; mensagens que nem por isso deixavam de se impor de maneira imperiosa, categórica, sem dar à pessoa a mínima possibilidade de se lhe furtar – sob pena de perder qualquer noção de integridade e qualquer respeito por si própria.”

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publicado por bolaseletras às 17:04

A possibilidade de uma ilha - o nevoeiro que antecede uma nova espécie

Segunda-feira, 15.04.13

 

 

"Era pouco provável que a espécie chamada a suceder-nos fosse, ao mesmo tempo, uma espécie social; desde a minha infância, a ideia que rematava todas as discussões, que punha termo a todas as divergências, a ideia em torno da qual eu vira quase sempre gerar-se um consenso absoluto, tranquilo, sem histórias, podia resumir-se praticamente assim: «No fundo, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos»."

 

Houellebecq fere-nos quando nos confronta com a nossa natureza, com o caminho que a humanidade vai seguindo. Nesta fábula de um mundo futuro, coloca-nos em frente ao espelho e lava-nos as feridas com sal. Será exagerada a frase que fecha o trecho acima? Talvez…ou talvez não. Há mais de 10 anos, no meio de um grupo de estudo de uma pós-graduação, uma recente mãe teclava alucinadamente no computador enquanto ao seu lado, na alcofa, o bebé de poucos meses chorava em desespero. Uma colega, tão incomodada como todos nós, mas com muito menos resistência à dor alheia, perguntou à “mãe” (sim, entre aspas): “Queres que lhe pegue ao colo”?. A mãe fixou-a incomodada e respondeu, com desleixo, desprezo e uma forte pitada de assustadora convicção: “Não, querida, deixa estar, ela tem que aprender que neste mundo estamos sempre sozinhos”. Foi algo deste género, não terão sido estas as palavras exactas, mas o sentido foi este. É tão triste sempre que a nossa inocência se esfuma mais um pouco no nevoeiro da desumanidade.

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publicado por bolaseletras às 21:57

A possibilidade de uma ilha - a ilha da felicidade

Sábado, 23.02.13

 

 

“Durante a primeira parte da vida, só nos apercebemos da felicidade depois de a perdermos. Segue-se uma idade, uma fase transitória, na qual já sabemos quando começamos a viver uma felicidade, que acabaremos por a perder”.

 

Esta é daquelas reflexões que dispensam aprofundamentos ou embelezamentos. É clara como a água. A felicidade paira constantemente à nossa volta, mas envolta na neblina da ironia de que só a vida é capaz teima em desencontrar-se do nosso tempo e espaço. Se na tenra idade a velocidade que imprimimos à vida acelera esse desencontro, a experiência torna-nos descrentes, azedos, avessos ao reencontro com o que nunca se alcançou. A possibilidade da felicidade perde-se na ilha em que nos tornámos.

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publicado por bolaseletras às 21:10

A possibilidade de uma ilha - o riso a sete chaves

Segunda-feira, 11.02.13

 

 

“Tal como o revolucionário, o humorista assumia a brutalidade do mundo, e ele respondia com uma brutalidade acrescida. O resultado da sua acção não consistia, porém, em transformar o mundo, mas em torná-lo aceitável, transformando a violência, necessária a toda a acção revolucionária, em riso”.

 

“Tinha agora quarenta e sete anos, há trinta que decidira provocar o riso dos meus semelhantes; presentemente, estava acabado, esgotado, inerte. A centelha de curiosidade que ainda subsistia no olhar que lançava sobre o mundo iria extinguir-se em breve e eu seria como as pedras, com um vago toque de sofrimento. A minha carreira não fora um insucesso, pelo menos comercialmente: se agredirmos o mundo com uma violência conveniente, ele acaba por vomitar a porcaria do dinheiro; mas nunca, nunca nos restitui a felicidade”.

 

Nestes dois monólogos do protagonista desta obra única de Houellebecq, apetece destacar a elegância e precisão das palavras. Para além da forma, é impossível não submergir no pensamento do autor, na clareza e violência com que despe a condição humana. Se no primeiro trecho se explora a essência do humor como arte de tornar a vida mais suportável, no segundo toda a dor que assedia o ser humano é apresentada como inevitável, impenetrável, a felicidade como um segredo fechado a sete chaves que nem o dinheiro e a fama podem revelar. Um livro como uma porta aberta para nós próprios e para a percepção do mundo e dos “mundos” que nos rodeiam. É isso que deve ser um livro.

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publicado por bolaseletras às 18:44

A Possibilidade de uma Ilha - o ciclo vicioso eternamente repetido

Quarta-feira, 23.01.13

 

 

"Durante as primeiras fases da minha ascensão à glória e à fortuna, experimentara ocasionalmente as alegrias do consumismo, através das quais a nossa época se mostra tão superior às precedentes. Poderíamos dissertar até ao infinito para saber se os homens eram ou não mais felizes nos séculos passados. (…) De qualquer modo, no plano do consumo, a superioridade do século XX era indiscutível: nada, em nenhuma outra civilização, em nenhuma outra época, podia comparar-se à perfeição itinerante de um centro comercial contemporâneo funcionando em pleno. Assim, eu consumira alegremente, de preferência sapatos; depois, aos poucos, fartei-me, e compreendi que a vida, sem aquele apoio quotidiano de prazeres elementares e ao mesmo tempo renovados, ia deixar de ser simples."

 

Os males da civilização moderna e a decadência progressiva do homem e da sua condição são os principais temas de Houellebecq. O consumismo, como âncora que sustenta a vida e os prazeres de boa parte de tanta gente que conhecemos (sim, vou-me auto-excluir, se me permitem) é um dos mais reveladores sinais de que o foco de tantas vidas se desviou por completo do cerne do que deveria ser a vida. O desespero que a crise fez surgir nas nossas vidas é também o desespero pela perda ou drástica redução das alegrias materiais e dos vícios aquisitivos.

 

O falso brilho com que as montras nos cegaram funcionou demasiadas vezes como último reduto dos nossos desejos. Restringimos as nossas ambições e gostos ao efémero, ao material, o metal e os tecidos substituíram a carne e o espiritual. Foi necessária a decadência económica para nos reaproximarmos, mesmo que lentamente e contra as nossas mais profundas intenções, de um sentido de vida palpável, a cheirar a terra e a carne. Mais uma vez, os homens teimam em só aprender depois dos mesmos erros infinitamente repetidos. Mais uma vez o vicioso ciclo da queda, do esbracejar e do lento ressurgir se repete. Mais uma vez somos incapazes de seguir em linha recta rumo a um novo destino.

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publicado por bolaseletras às 17:45

A possibilidade de uma ilha

Quarta-feira, 16.01.13

 

 

Começo pelo fim. A possibilidade de uma ilha é a possibilidade dos homens viverem isolados, em busca de um objectivo último, da liberdade que é abdicarem da maior dependência humana: o amor. Para chegar aqui tudo o que está para trás - a busca da imortalidade através da clonagem e de perigosas manipulações genéticas, a elevação desses movimentos científicos à religião do futuro - é material que um leitor desprevenido poderá não estar preparado para absorver. Este livre exige muito de nós, exige que paremos em inúmeras páginas, que tiremos os olhos das letras e que pensemos, pensemos, pensemos se algo daquilo faz sentido ou se por detrás de ideias tão revolucionárias se esconde o que sempre tememos. Filosofia, decadência do homem, a sociedade contemporânea que se desmorona sob o peso da miséria de tantas vidas sem sentido, tudo cabe nesta obra brilhante, assustadora, de uma coragem sobranceira e desafiadora. Para quem queira algo realmente diferente, mergulhe de cabeça. Mas cuidado com as preconceituosas rochas que se escondem no fundo do mar…

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publicado por bolaseletras às 21:10

Michel Houellebecq

Segunda-feira, 14.01.13

 

 

Para alguns um mero provocador, para outros o melhor escritor francês contemporâneo. Inevitavelmente, Houellebecq é um homem polémico, como só o pode ser um escritor que acredita não restar muita esperança para a humanidade e que utiliza uma escrita poderosa para explorar os recantos dessa descrença. O sexo é uma das marcas fortes da obra deste autor, como o é a criação de personagens profundamente caracterizadas. Como o próprio afirma, estas são experiências que cria cerebralmente, utilizando o método científico para comprovar se resultam ou se falham, nos livros como na vida. No caso de Houellebecq, ser polémico e provocador é combater as ideias dominantes, é por exemplo afirmar que a culpa dos conflitos no terceiro mundo não é tanto dos ditadores mas muito mais dos indivíduos que anseiam por combater, que se excitam por empunhar armas e pelo cheiro do sangue. Para finalizar com as suas próprias palavras, eis o homem e o escritor: “Sou um marginal que se tornou famoso, o que me parece totalmente surpreendente, pois as minhas características e as minhas aptidões predispunham-me muito mais ao destino de poeta maldito”.

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publicado por bolaseletras às 17:33





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