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O animal moribundo (pérola 2) - Com um sorriso nos lábios

Terça-feira, 21.04.09

  

"O Kenny é um homem forte e bem parecido, veste impecavelmente, fala com conhecimento de causa, escreve inteligentemente, conversa facilmente em francês e alemão, enfim, no mundo da arte é obviamente impressionante. Mas não comigo. As minhas deficiências estão na origem do seu sofrimento. Coloquem-no algures perto de mim e a ferida que há dentro dele começa a sangrar. No trabalho é activo, saudável. Sólido, sem nenhuma insuficiência, mas basta eu falar e paraliso tudo quanto há de forte nele.

 

E tenho apenas de permanecer silencioso enquanto ele fala para minar tudo quanto o torna eficaz. Eu sou o pai que ele não pode derrotar, o pai em cuja presença as suas capacidades são subjugadas. Porquê? Talvez porque não estive presente. Fui ausente e aterrador. Fui ausente e e inteira e excesivamente cheio de significado. Decepcionei-o. Isso é razão suficiente para pôr fora de questão um relacionamento calmo. Não há nada na nossa história que impeça o instinto filial de atribuir ao pai todos os obstáculos."

 

David Kepesh, a personagem central de animal moribundo fala sobre a sua desastrada relação com o filho. Somos os nossos genes, a educação dos nossos pais, o meio que nos rodeia, as idiossincrasias únicas que nos distinguem também nos caracterizam, como é evidente. Mas os nossos pais representam um papel decisivo naquilo em que nos tornamos, indubitavelmente.

 

A poucos meses de experimentar a paternidade estas palavras de Roth alertam-me. Nunca esquecer que o barro que moldarei é de início frágil, expectante, necessita de mão firme que não lhe estilhace as esperanças. Um admirável mundo novo aí vem, o decisivo momento que nos dirá se seremos bem sucedidos ou não desperta com este acontecimento único. Não há-de ser nada, há que enfrentar o desafio com um sorriso nos lábios. Tal como a malta do Duarte & Companhia enfrentava o perigo.

 

Em processamento...esperando ansiosamente...

 

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publicado por bolaseletras às 23:11

O animal moribundo (pérola 2) - Obsessão parasita

Segunda-feira, 13.04.09

 

Este trecho de o "Animal moribundo" coloca-nos uma questão que toda a literatura, sobretudo as manifestações mais perturbantes e intimistas desta arte, nunca deixará de despertar no nosso espírito. Quantas destas palavras pertencem ao núcleo do ser humano real e palpável distinto do escritor, quantas destas palavras não são pura ficção mas sim o concreto pensamento e sentir do ser por trás do artista? Também esse mistério e a sua não revelação enobrecem a literatura, também essa incerteza nos aproxima de Roth enquanto percorremos a sua obra.

 

"A única obsessão que toda a gente quer: «amor». As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante um ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. E foi isso que fizeste e te levou à loucura."

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publicado por bolaseletras às 23:50

O animal moribundo (pérola 1) - aprendizagem para Femme fatale

Quarta-feira, 01.04.09

"É uma mulher alta. Traz a blusa de seda desabotoada até ao terceiro botão, deixando ver que tem seios pujantes e belos. Vemos imediatamente o decote. E vemos que ela sabe. Vemos, apesar do decoro, da meticulosidade, do estilo cautelosamente soigné - ou por causa de tudo isso - que tem consciência de si própria.

 

Apresenta-se na primeira aula com o casaco abotoado sobre a blusa, mas passados uns cinco minutos despe-o. Quando olho de novo para ela vejo que voltou a vesti-lo. Compreendemos assim que tem consciência do seu poder, mas ainda não tem a certeza de como usá-lo, do que fazer com ele, até mesmo de quanto o quer. Aquele corpo ainda é novo para ela, ainda está a experimentá-lo, a pensá-lo no seu todo, um pouco como um miúdo que percorre as ruas com uma arma carregada e tem de decidir se a transporta para se proteger ou para iniciar uma vida de crime".

 

 

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publicado por bolaseletras às 21:23

O animal moribundo ("the dying animal") de Philip Roth

Segunda-feira, 30.03.09

Volto a Philip Roth porque para mim a sua escrita é incontornável.  Mesmo nos Estados Unidos, país que geralmente louva e estima os seus ídolos literários, Roth não é dos escritores mais falados e afamados. Provavelmente porque quase nunca dá entrevistas e não tem o hábito de participar em talkshows.

 

Contudo, para se perceber a importância e qualidade de Roth, há uma conhecida história que é mais significativa do que qualquer prémio, Nobel ou não. Em Maio de 2006, o New York Time Books Review anunciou os resultados de uma carta que enviara a cerca de duas centenas dos mais proeminentes escritores, críticos literários e editores, na qual lhes pedia que identificassem "a melhor obra de ficção americana publicada nos últimos 25 anos". Daí resultou a escolha de 22 livros, 6 dos quais eram da autoria de Philip Roth. No ensaio que acompanhava esses resultados, o crítico A.O.Scott disse: "Se tivéssemos pedido que fosse indicado o melhor escritor dos últimos 25 anos, Roth teria vencido".

 

 

Em "animal moribundo" ressurge uma personagem que já protagonizara outros livros de Roth, David Kepesh, um eminente crítico cultural e conferencista de 70 anos, que nos permite entrar de novo no mundo semi autobiográfico de que Roth não abdica. Roth fala-nos da relação de Kepesh com uma voluptuosa imigrante cubana de 24 anos, Consuela Castillo, daí resultando uma análise crua do erotismo na terceira idade, da quase crueldade que é sentir desejo por alguém tão mais novo.

 

Um velho que redescobre o sexo na terceira idade, o poder de Eros que acompanha o ressuscitar de um corpo tão depressa quanto o devolve à inevitabilidade do seu fim. A passagem do tempo torna Kepesh naquilo em que todos nós nos tornaremos: um animal moribundo.

 

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publicado por bolaseletras às 22:12

Teatro de Sabbath (pérola 2) - A doença mais desejada

Sexta-feira, 23.01.09

 

"Propõe-se que a felicidade seja classificada como perturbação psiquiátrica e incluída em futuras edições dos manuais de diagnóstico especializados sob a nova designação de: importante perturbação afectiva, do tipo agradável. Numa resenha da literatura relevante está demonstrado que a felicidade é estatisticamente anormal, consiste num discreto aglomerado de sintomas. Está associada a uma ordem de anomalias cognitivas e provavelmente reflecte o funcionamento anormal do sistema nervoso central. Persiste uma possível objecção a esta proposta: a de que a felicidade não é avaliada negativamente. No entanto, esta objecção é rejeitada como sendo cientificamente irrelevante."
 
No contexto do livro esta definição é referida como constando de uma publicação científica. Tenho dúvidas que na realidade assim o seja e também não tentei confirmar a veracidade da coisa. Mas o que realmente me interessa é divagar sobre o fulcro da questão em análise: é a felicidade uma anormalidade nos dias que correm?
Se não é, a malta disfarça muito mal. Em todo o lado nos cruzamos com semblantes pesados, caras fechadas, zombies que se arrastam diariamente como que por obrigação, como se o peso do mundo lhes fosse insuportável.
 
Os que mais me mexem com os nervos são aqueles que têm tudo para ser felizes e, por mais que tenham, parece que cada vez mais mergulham na trampa de vida que julgam ter-lhes sido irremediavelmente traçada pelo destino. Foda-se, aprendam a ser felizes, libertem-se das grilhetas que vos prendem os sorrisos!
 
Bom, felizmente há o bolaseletras para dar uma ajudinha na árdua tarefa. Descansem, o que se segue é fácil, barato, e pode realmente fazer-vos felizes:
 
Os 10 Mandamentos do bolaseletras para uma vida feliz:
 
1. Não fujas da vida. Se fugires, vive ao menos essa evasão.
2. Se encontrares a mulher da tua vida, não a deixes fugir, não a largues por nada, não cedas à ilusão de facilidade que uma vida sem compromissos parece apresentar. Mais certo que a morte só isto: se a perderes, nunca mais a felicidade se cruzará no teu caminho.
3. Se não encontrares a mulher da tua vida deixa fugir todas as outras. Se te quiseres iludir com o conforto que é não estar sozinho, a felicidade que apregoas será uma máscara para o mundo e não uma fogueira que arde no teu peito.
4. Procura fugir às acções motivadas por simples obrigações sociais ou morais que contrariam a tua vontade ou convicções. Sempre que agimos contra nós próprios estamos a afundar-nos em graus progressivos de infelicidade. Atenção, tudo com conta peso e medida. Infelizmente, não convém levar a coisa ao extremo e passar os dias na cama a faltar ao emprego ou nunca mais ir visitar a sogra ao Domingo.
5. Nunca, mas nunca troques de clube. A fidelidade clubística é a prova decisiva de que mereces ser feliz. Claro, a não ser que sejas lampião, pois essa sim, é a condenação eterna ao estado de permanente infelicidade.
6. Se o livro que estás a ler é uma bela merda, não insistas, não destruas o prazer da leitura por teimosia. Ou o escritor é ele próprio uma merda, ou então é muito bom mas, como todos nós, tem direito, pelo menos uma vez na vida, a meter a pata na poça à grande.
7. Vive do trabalho mas não para o trabalho. Nunca confundas a obra prima do mestre com a prima do mestre de obras.
8. Mantém os amigos de infância. Esses são aqueles que escolheste no mais puro estado de inocência. Podem ser uns filhos da puta, desiquilibrados, tarados, inúteis, chatos, salafrários, mas são os teus amigos de infância.
9. Sorri a alguém nem que seja só uma vez no dia, mesmo que seja o dia mais fodido que tiveste nos últimos anos.
10. Não sofras demasiado. Lembra-te que se este mundo fosse feito de gente sincera, em todas as nossas lápides deveria estar a seguinte mensagem para a posteridade: foram mais as que quis dar do que as que dei. Portanto, deixa lá isso, para a próxima correrá melhor.

 

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publicado por bolaseletras às 23:14

Teatro de Sabbath (pérola 1) - Persistir Persistir Persistir

Quinta-feira, 22.01.09

 

 

"O cerne da sedução é a persistência. Persistência, o ideal jesuíta. Oitenta por cento das mulheres cedem sob tremenda pressão, se a pressão for persistente. Um tipo tem de se consagrar a foder do mesmo modo que um monge se consagra a Deus.

 

A maioria dos homens tem de relegar o foder para as margens daquilo que definem como interesses mais prementes: a conquista do dinheiro, poder, política, moda e sabe Deus que mais - esquiar, por exemplo. Mas Sabbath simplificara a sua vida e relegara os outros interesses para as margens do foder."

 

Para quem tem as prioridades mal definidas, este poderá ser um excelente contributo para ajudar a meter a "cabeça" na ordem. Serviço público is my middle name.

 

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publicado por bolaseletras às 21:21

Teatro de Sabbath de Philip Roth

Sábado, 17.01.09

Não foi este o primeiro livro que devorei de Philip Roth, mas foi com ele que me fidelizei a um escritor de uma energia e estilo inigualáveis. Não sou nem pretendo ser crítico literário, pelo que vos deixo com a descrição do livro constante da badana do mesmo.

 

Preguiça minha? Não, só não gosto de reinventar a roda, irrita-me. Certamente alguma alma mal remunerada das Publicações Dom Quixote passou horas e horas a encontrar as palavras mais indicadas para resumir esta obra-prima. Não serei certamente eu a fazer de desmancha-prazeres e a tirar-lhe o gostinho de usufruir de um pouco mais de reconhecimento.

 

Ah, e a capa é excelente. Provavelmente inspirada na originalidade do nome do autor: Miguel Imbiriba. Vamos então à sinopse da coisa.

 

"Depois da morte da sua amante de longa data, Mickey Sabbath, um escandaloso e inventivo saltimbanco, obcecado pelo sexo, embarca numa turbulenta viagem ao seu passado. Desolado e só, cercado pelos fantasmas daqueles que mais o amaram e odiaram, encena uma série de farsas trágicas que o levam aos limiares da loucura e da extinção. Mais do que um grito estrangulado de frustração sexual, Roth faz deste livro uma profunda e irónica meditação sobre a perda, a infidelidade, sobre a vida e sobre a morte.

 

Teatro de Sabbath é uma criação cómica de proporções épicas e Mickey Sabbath o seu herói gargantuesco."

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 12:35

Natural como a nossa sede

Quinta-feira, 15.01.09

 

De que é que a malta gosta de falar? A julgar pelos comentários aos posts deste blog o que desperta mesmo a verve e o interesse são os assuntos da bola. Mas não me vou render aos gostos das massas, vou continuar a escrever sobre letras além de bolas. 

 

As próximas pérolas serão do Philip Roth, esse génio que felizmente é desprezado pela academia sueca. Como já disse, fujo dos gostos das massas como da cruz. Não por capricho ou por  burguesa vontade de ser diferente, mas simplesmente porque as maiorias enjoam, têm pouca piada e originalidade zero. Como diz o meu amigo Chico, "sempre ao lado do povo, nunca no meio dele".

 

p.s. - Enquanto não tenho tempo para escoher umas boas pérolas do Roth, vou ilustrando a casa com estas pérolas de muita carne e pouco osso.

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publicado por bolaseletras às 22:50





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