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E depois do adeus

Sexta-feira, 13.04.18

  

5.jpg

 Fotografia por Ferdinando Scianna

 

Para onde vai o amor depois de morrer?

Com foi possível deixar de a amar?

 

Era feita de céu e de mar

tinha em si todos os cheiros da vida.

Da sua voz nasciam os sons da terra

embalados nos sonhos dos seres.

A sua morada era a das deusas

a origem do amor o seu ventre

era ela a mãe de todas as razões que conhecia para existir.

 

O que há, senão a morte, depois do amor fenecer?

 

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publicado por bolaseletras às 14:25

O manto de ferro

Quinta-feira, 05.04.18

Durban, South Africa 1959.jpg

Durban, África do Sul, 1959, por Ed Vand Der Elsken

 

O ódio tem a cor do medo

o medo transpira o suor dos cobardes

dos que se cobrem das vestes do poder

sob mantos engomados de vergonha e soberba.

 

O pecado toca-lhes a vida

traça-lhes o destino.

 

Nunca entenderão porque na derradeira hora,

perante o precipício sem fim,

só eles e o seu medo habitam a solidão do penhasco

já despidos de ódio e soberba

sós

entregues

para sempre perdidos no medo

de viver a vida sem o manto de ferro do ódio.

   

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publicado por bolaseletras às 15:02

O assobio

Quinta-feira, 29.03.18

 

  

Berlim, 1957.jpg

Berlim, 1957, por René Burri

 

Pouco mais que sombras pouco menos que gente

seres que levitam na escassez de peso e de existência

batimentos inertes em dúvidas

submersas na certeza da sua trémula opacidade.

 

O assobio que se escuta nas escadas cinzento metálico

não é o de uma alegria quente

expectável

de quem está vivo

de quem tem a possibilidade de amar

é apenas o vento frio que confronta as brechas envelhecidas

do ferro e das gentes

na esperança vã de que alguém recorde como é assobiar.

 

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publicado por bolaseletras às 09:51

O papagaio de asas quebradas

Quarta-feira, 28.03.18

  

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 Fotografia de René Burri

 

Nada há mais triste do que a infância que se esfuma

o adulto que se molda em oposição ao vento

contra a corrente do rio que corre livre e abraçado a sonhos crus.

 

O papagaio voa agora solitário

não pelo impulso generoso da criança

mas soprado pela indiferença do abandono,

longe da ingenuidade perdida

saudoso dos dedos quentes e felizes que jamais voltará a sentir.

 

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publicado por bolaseletras às 15:38

Conselhos para 2018

Sexta-feira, 29.12.17

MAIS POESIA 

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  DEIXAR O SOL ENTRAR 

Deixar o sol entrar.jpg

 

  NÃO DAR PÉROLAS A PORCOS

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 PRIVILEGIAR A LEITURA

privilegiar a leitura.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 15:43

No palco dos sonhos

Sexta-feira, 17.02.17

  

z_teatro.jpg

 

- Esta noite sonhei que estávamos numa peça de teatro. Fugimos da realidade e no palco, expostos a tudo e a todos, vivemos finalmente o sonho sempre adiado.

- Sonha meu querido. É para isso que serve a arte.

- Não minha sereia, a arte serve para criarmos o sonho perfeito. É a vida que o realiza, em todas as suas imperfeições.

- És um poeta.

- Diante de ti sou muito mais do que sou.

 

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publicado por bolaseletras às 12:13

"Caminharemos de olhos deslumbrados", por Ary dos Santos

Sexta-feira, 10.02.17

  

z_ary1.jpg

 

Caminharemos de olhos deslumbrados

E braços estendidos

E nos lábios incertos levaremos

O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

 

Onde estivermos, há-de estar o vento

Cortado de perfumes e gemidos.

Onde vivermos, há-de ser o templo

Dos nossos jovens dentes devorando

Os frutos proibidos.

 

No ritual do verão descobriremos

O segredo dos deuses interditos

E marcados na testa exaltaremos

Estátuas de heróis castrados e malditos.

 

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!

Ó deus das virgens loucas

Dos amantes com cio,

Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,

Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

 

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,

Fustiga-nos os membros como um látego doido,

Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,

Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

 

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,

Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,

Atapeta de flores a estrada que seguimos

E carrega de aromas a brisa que nos toca.

 

Nus e ensanguentados dançaremos a glória

Dos nossos esponsais eternos com o estio

E coroados de apupos teremos a vitória

De nos rirmos do mundo num leito vazio.

 

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publicado por bolaseletras às 11:01

A casa de Vinicius e a Nação de Donald

Quarta-feira, 01.02.17

  

z_nação por terra 2.jpg

 

Era uma nação

muito engraçada

não tinha juízo

não tinha nada

ninguém podia

entrar nela, não

porque o Donald

não dava a mão

 

Ninguém podia

viver o sonho

porque a América

vive um pesadelo medonho

ninguém podia

fazer pipi

porque o Donald

é quem manda ali

 

Mas era feita

com muito jeito

a morte lenta

desse amor perfeito.

 

z_nação por terra.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 12:01

O mergulho

Quarta-feira, 25.01.17

  

z_mergulho no mar.jpg

 

Nunca saberia se aquele seria o momento certo para o mergulho desejado, para a fusão tão esperada no abraço dos elementos, a comunhão mais inexplicável de sensações. Desconhecia igualmente se quando sentisse que aquele era o momento os elementos estariam disponíveis para a receber. O som das ondas devolvia-lhe a memória de mergulhos passados e, recordando toda a beleza e plenitude desses momentos, sabia que o próximo seria sempre único e inigualável. Contudo, hesitava. Porquê? Porque essa dança de avanços e recuos era também o que fazia do momento O momento.

 

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publicado por bolaseletras às 14:52

"Cântico negro", por José Régio

Quinta-feira, 05.01.17

 

z_regio3.jpg

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

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publicado por bolaseletras às 06:33





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