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A sangue frio (pérola 2) - Alvos em movimento

Sexta-feira, 16.07.10

 

 

"Se estou arrependido? Se é isso o que queres saber poder crer que não. Não sinto nada que se relacione com isso. Desejaria sentir. Mas a verdade é que a coisa não me preocupa. Meia hora depois do caso passado, Dick estava a dizer piadas e eu a rir-me com elas. Talvez sejamos ambos desumanos. Mas eu sou suficientemente humano para sentir pena de mim próprio. Pena de não poder sair daqui para fora contigo quando te fores embora. Mais nada. (…) Matar é fácil. Fica sabendo, é muitomais fácil do que passar um cheque falso. Mas lembra-te: eu só conheci os Clutter durante uma hora. Se os tivesse conhecido há mais tempo aposto que sentiria de maneira diferente. Acho que nunca perdoaria a mim próprio. Mas, assim, era como atirar ao alvo numa barraca de feira."

 

 

 

Na tentativa de pôr para trás das costas o Mundial e dedicar-me a escritos sérios e menos esféricos, regresso ao “A sangue frio" de Truman Capote. E regresso à razão porque este livro nos prende da primeira à última página. Porque, imitando a vida, procuramos nos livros sempre um sentido para a razão de ser dos actos, dos sentimentos, os porquês, as motivações, para nós uma acção tem que ter sempre uma causa, inelutavelmente os acontecimentos estão revestidos de motivações lógicas. Aqui, embrenhamo-nos no relato do crime, em toda a conjuntura, origens e circunstâncias dos dois criminosos, para perceber os porquês da crueldade e do sangue gélido. Perry, um deles, ri-se de nós e explica singelamente: não há arrependimento, matar é fácil quando não se conhece a vítima. A bofetada dói no mais fundo de nós. Somos todos alvos em movimento porque somos todos desconhecidos de alguém. Sem causas, razões ou porquês.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 19:40

A sangue frio (pérola 1) - O insignificante peso da vida e as consequências da sua leveza quando levada ao extremo

Quinta-feira, 03.06.10

 

 

«“O que é a vida? O brilho de um pirilampo na noite. O bafo de um búfalo no Inverno. A sombra minúscula que desliza na relva e se perde no crepúsculo”. – disse o chefe Pé de Corvo, dos índios Blackfoot.”» - esta última tirada estava escrita a vermelho e decorada com uma cercadura de estrelas a tinta verde; o compilador desejava acentuar o seu «significado pessoal». «O bafo de um búfalo no Inverno» evocava precisamente o seu conceito de vida. Para quê preocupações? Porque havíamos de nos esfalfar? O homem não é nada, uma névoa, uma sombra engolida pelas sombras.

  

Perry Smith, um dos dois assassinos, transportava sempre consigo uma pilha de coisas de que não queria separar-se. Para alguém que deambulava de terra em terra, pouco prático, mas há vícios de que não nos conseguimos libertar. Um dos pesos que carregava era o de um livro de apontamentos, uma “antologia de factos obscuros” como lhe chamou Truman Capote. No trecho acima uma imagem tremida de quem era Perry, o que se podia esperar dele, quase que se vislumbra o porquê das suas acções homicidas. Quando o peso da insignificância sufocou Perry, quando a ausência de qualquer motivo para se comprometer com a mais ínfima responsabilidade pessoal ou social lhe delineou o rumo, a tragédia infiltrou-se insidiosamente no seu íntimo e foi só uma questão de tempo. Tempo que sempre chega, mais cedo ou mais tarde. Como chegou para uma inocente família. Como chegou para Perry Smith.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 20:58

"A sangue frio", por Truman Capote

Domingo, 30.05.10

 

 

Estávamos no santo ano de 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, quando um fatídico acontecimento isolado teve lugar no seio de uma família. Nos anos que se lhe seguiram, nada o fazendo esperar, essa tragédia ganhou inimagináveis proporções. Voltando a 1959, Truman Capote, cujo verdadeiro nome era Truman Streckfus Persons (1924-1984), lê um artigo perdido nas últimas páginas do New York Times sobre o homicídio dos quatro membros de uma proeminente família de Holcomb, no Kansas. Histórias como essa surgem diariamente nos jornais americanos, mas nesta, um qualquer pormenor despertou o instinto de Capote. Foi nesse momento que ele acreditou que aquela era a oportunidade de testar a sua antiga teoria de que, pela pena do escritor certo, a realidade poderia aspirar a tornar-se tão apaixonante como a ficção.

 

 

 

“A sangue frio” (“In cold blood”), um trepidante “romance de não ficção” que muitos consideram ter aberto as portas para esse estilo de jornalismo romanceado, constitui uma leitura poderosa e imperdível. Truman Capote permite-nos entrar nas mentes dos criminosos (Dick Hickock e Perry Smith) enquanto recria os eventos que deram origem e que se seguiram ao terrível crime. Capote examina o passado familiar dos assassinos, entrevista-os no corredor da morte, analisa milhares de documentos relacionados com a investigação. Ainda assim, será que alguma vez conseguirá o autor explicar-nos as motivações para 4 tiros na cabeça de 4 inocentes, à queima roupa, sendo que como fruto desses crimes tenha resultado o ridículo roubo de uma quantia de 40 dólares?

 

No decurso da sua brilhante peça jornalística, Capote encaminha-nos para os mais importantes temas alguma vez abordados por um escritor americano. Falo no choque das duas Américas: a América segura das relações familiares, do sonho americano que recompensa o esforço dos seus cidadãos, que vive, paredes meias, com a América desenraizada e amoral que não deixou de viver nos tempos selvagens de índios e cowboys. Tinha razão Truman Capote quando escreveu a um amigo: “Por vezes, quando penso quão bom poderá ser este livro, mal consigo respirar”.

  

 

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publicado por bolaseletras às 11:21





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