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Conversas n´A Catedral - Por debaixo dos lençois

Quinta-feira, 04.08.11

 

 

“Voltou a ouvir a música que tinha esquecido ou parado; era um tango de Gardel e o gira-discos estava ali, embutido num móvel de acaju. Viu a mulher levantar-se, oscilando, e viu os seus entorpecidos dedos, indecisos, a manipularem uma garrafa e copos, a uma esquina do bar. Observou o seu vestido justo de seda opalina, a brancura dos seus ombros e braços, os cabelos cor de carvão, a mão que cintilava, o seu perfil e, sempre perplexa, pensou que parecida, que parecidas que eram. A mulher dirigia-se a ela com dois copos nas mãos, caminhando como se não tivesse ossos, e Queta afastou o olhar.

 

- O Cayo disse-me que eras linda e eu julgava que era mentira – vi-a de pé e a vacilar, contemplando-a de cima, com uns olhos vidradamente risonhos de gata convencida, e, quando ela se inclinou para lhe estender o copo, sentiu-lhe o perfume beligerante e incisivo. – Mas é verdade, a famosa Queta é linda.”

 

Vargas Llosa tempera a política do Peru com sexo, muita volúpia e desejos incontidos. Os políticos, muitas vezes feios, baixos e gordos, sabem que se podem elevar a conquistadores indomáveis pelo uso e abuso do poder discricionário. Quantas mulheres já foram violadas na honra e corpo pelos homens que tecem as redes do poder nunca o saberemos, quantos políticos escaparam às malhas desses nauseabundos abusos fica no segredo dos deuses ou dos demónios. Foi também por debaixo dos lençóis que o Peru se auto-fecundou.

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publicado por bolaseletras às 12:56

Conversas n´A Catedral - Nos cantos escuros dos corredores

Quinta-feira, 07.07.11

  

 

“- A lealdade desse grande senhor nunca me convenceu – disse o major Paredes. – Está com o regime para fazer negócios. Por pura conveniência.

- Todos nós estamos com o regime por conveniência, o que é importante é que a conveniência de tipos como o Zavala seja estar com o regime – sorriu ele.”

 

Vargas Llosa penetra nos podres dos corredores do poder do Peru com uma desiludida ironia. O interesse dos políticos pela política, pela coisa e causa pública, soçobra inevitavelmente à sua fome de benefícios pessoais, ao seu desejo de melhoria do estado das finanças lá de causa em detrimento das finanças do país. As lutas pelo Governo da Nação são meras querelas por um ordenado jeitoso e uma mão cheia de benesses interessantes, mas sobretudo por uma carteira de clientelas bem recheada e por um futuro assegurado por aqueles que se beneficiará aquando da detenção do poder decisório. Não arriscaria dizer que estes tumores malignos que são a corrupção, o abuso e o desvio de poder são prática convicta e reiterada dos nossos representantes políticos, mas diria que as metástases que contaminam os corredores do poder central, regional e autárquico são meio caminho andado para que a doença se propague pelas células de um país fragilizado. Há que combater e eliminar as células contaminadas, rápida e eficazmente. A bem da Nação.

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publicado por bolaseletras às 19:27

Conversas n´A Catedral - A falta que as mulheres fazem

Terça-feira, 28.06.11

 

 

“As mulheres são formidáveis – disse Carlitos. Farristas, comunistas, burguesas, sopeiras, têm todas qualquer coisa que nós não temos. Não seria melhor ser maricas, Zavalita? Entendermo-nos com qualquer coisa que conhecêssemos, e não com esses animais estranhos?”

 

“- A sabedoria das mulheres – disse Carlitos. – Se a Ana o tivesse pensado, não lhe teria saído tão bem. Mas não pensou, as mulheres nunca premeditam essas coisas. Deixam-se guiar pelo instinto e nunca falham, Zavalita”.

 

Estes dois curtos e exemplares trechos da monumental obra de Vargas Llosa, entreabrem uma visão da supremacia feminina que o Peru decidiu olvidar e asfixiar. Os homens dominam a sociedade, ocupam as majestáticas cadeiras do poder, aplicam toda a sua arrogância na definição dos destinos do povo e do país. As mulheres, essas úteis bengalas dos grandes senhores, desfalecem na dureza das tarefas domésticas e na humilhação da eterna subalternidade aos inúteis e ridículos machos que lhes impedem a ascensão. Foi também isso que conduziu à decadência do Peru, é também essa risível representatividade das excelentes cabeças e sensibilidades femininas que danificam o tecido com que se cose um país. Ai Portugal, Portugal, do que é que tu estás à espera?

 

 

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publicado por bolaseletras às 23:47

Uma vida literária num país de ignorantes

Quinta-feira, 16.06.11

 

 

"Uma vez que é impossível perceber o que realmente está a suceder, nós peruanos mentimos, inventamos, sonhamos e encontramos refúgio na ilusão. Por causa destas estranhas circunstâncias a vida dos peruanos, uma vida em que tão poucos efectivamente lêem, tornou-se literária."

 

Leio estas palavras de Vargas Llosa e assola-me imediatamente a ideia de que as mesmas se aplicam na perfeição a Portugal e aos portugueses. Um oceano nos separa, um trágico destino nos une.

 

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publicado por bolaseletras às 18:22





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