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Aparição (pérola 3) - Talvez a paz seja vizinha do desespero

Quarta-feira, 08.07.09

 

"A paz não está em nós, não está a minha em ti, não está em mim a tua. Mas tu queres amar o teu próprio desespero como uma embriaguez, eu sonho a plenitude de umas mãos dadas com a vida. Talvez, porém, que para lá da minha verdade que procuro esteja a tua loucura."

 

Acreditem que não é entrando no contexto de "Aparição" que se apreende toda a força destas palavras de Vergílio Ferreira. A demanda da paz no seio da paixão é missão inglória por perder-se na contrariedade dessa busca. Nos recantos de dois corpos submersos em suor e em dúvidas que nunca acabam, mais facilmente se encontra a loucura e o desespero do que a celestial paz, a plenitude que os poetas acreditam habitar nas paixões terrenas.

 

Talvez a passagem da louca paixão para o sereno amor marque com ferro em brasa a transição da turbulência para algo mais próximo da paz. Talvez as palavras de Vergílio escapem ao meu entendimento e nada do que aqui escrevo faça sentido. Talvez as palavras de um génio tenham como principal virtude a capacidade de se tornarem inexpugnáveis.

 

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publicado por bolaseletras às 23:12

Aparição (pérola 2) - Estatísticas da vida

Terça-feira, 23.06.09

 

" - Estudou a lição?

- Não peguei em livro - disse ela, sorrindo por entre o fumo do cigarro. - Não está contente?

- Contente? Porquê?

- Ouça, doutor: se alguma coisa me preocupou sempre foi ser consequente, unir o que faço ao que sinto. Porque não faz o mesmo?

- Como não faço o mesmo?

- Oh, não faz...Se o fizesse, já me tinha beijado...

 

A violência que me apanhou não foi súbita. Houve um silêncio de atordoamento. Até que na intimidade dos meus ossos, dos meus nervos, uma raiva de dentes me endoideceu. Sofia estava na minha frente, frágil e intensa como uma fibra de nervo; e eu senti-a toda colada ao meu apelo, aniquilada, num esmagamento de mãos torcidas, de mastigação...Ergui-me trémulo, apoderei-me dela, cerreia-a violentamente no meu calor, tentei reduzi-la toda a esse ápice incandescente, onde a vida infinita se me centrava.

 

Mas ela, com uma energia que era eficaz por me pôr diante de mim, por vir dela - um ser frágil -, repeliu-me com raios no olhar. Senti-me miserável como quem é apanhado nu: o que era do meu mistério, do meu segredo, ficara ali exposto, sem que Sofia me pagasse a minha revelação com a revelação de si própria."

 

 Vergílio Ferreira arrasa qualquer pretendente a escritor com este trecho de "Aparição". A beleza destes parágrafos só é ensombrada pela violência das sensações que pulsam das palavras, dos roçagares de roupa, dos silêncios estridentes, do desespero que só a paixão desperta no ser humano.

 

Uma aluna e um professor. Nada de exames nacionais, médias de entrada, exames facilitistas, estatísticas intermináveis que estreitam o processo educativo a estéreis realidades numéricas. É esta a verdadeira aprendizagem, deveriam ser estas as estatísticas a fazer:

 

 

- Quantos professores desesperadamente apaixonados por raparigas que estão, supostamente, proibidos de tocar?

 

- Quantos alunos platonicamente perdidos de amor por aquela professora que, em cada sorriso, se insinua nos seus sonhos molhados?

 

- Quantos professores Adão se aproveitaram das ingénuas mordidas das jovens Evas? Quantas maçãs podres nesse cesto?

 

- Quantos inexplicáveis insucessos escolares explicados por sentimentos que não se explicam?

 

- Quanta paixão perdida e irrecuperável no futuro? Quantos sonhos esmagados pela realidade dos números?

 

 

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publicado por bolaseletras às 22:10

Aparição (pérola 1) - O rasto divino

Segunda-feira, 15.06.09

 

"O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num país velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos. Mas o homem nasceu - nasceu agora da sua própria miséria e eu sonho com o dia em que a vida fique cheia do seu rasto de homem, tão certo e evidente e tranquilo como a luz da tarde de um dia quente de Junho..."

  

Como escrevi há umas semanas, ler Vergílio Ferreira apenas é aconselhável em momentos de disponibilidade para pensar, quanto mais escrever sobre ele. Terminadas agora as mini-férias, em fase de progressiva desintoxicação do estupidificante efeito "nada como a novela Cristiano Ronaldo para descansar o cérebro", permito-me entrar no universo de Vergílio Ferreira.

    

Não me parece que consiga por minhas palavras dizer mais e melhor do que escreveu Vergílio. Portugal está ainda, mais do que possamos pensar, intrinsecamente casado com uma religiosidade que o prende às amarras de um país que teme o salto para a modernidade. Apesar dos Magalhães, apesar dos ventos da Europa, muito do que nos enclausura em nós próprios reside ainda nas castas paredes da sacristia.

 

Em que se traduz esta limitação, em que me inspiro para esta percepção? No conformismo lusitano. Na recusa em afrontar os poderes mal instituídos, na incapacidade de chamar a atenção, na auto-censura em se reclamar o que se tem direito, no baixar a cabeça e não reagir quando o urro de revolta e o murro na mesa seriam as únicas reacções aceitáveis.

Enfim, bebemos do cálice do conformismo católico, esquecemos muitas vezes os bons ensinamentos da igreja católica. Será não um problema de atávica religiosidade, será mais uma dificuldade de interpretação, de focalização no que interessa. O costume.

 

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publicado por bolaseletras às 20:31

Do peso e da leveza, das letras e das bolas

Terça-feira, 26.05.09

  

A leitura de um livro pode ser um prazer ou uma tortura, dependendo da nossa predisposição, da adequação entre o estilo, o peso ou leveza da obra ao nosso estado de espírito. Um livro profundo e que apela à reflexão em momentos de cansaço intelectual pode conduzir à rejeição de um bom escritor para a vida. Um livro leve, bem escrito, mas sem ambições intelectuais desmedidas, pode eternamente desiludir-nos para a obra de um escritor ao abrir-nos as suas leves páginas em alturas de profusa auto-estimulação cerebral.

 

Se há autor que exige uma cuidada mastigação das palavras, uma prolongada digestão de ideias, reflexões e significados de um mundo muito próprio, esse autor é Vergílio Ferreira. O existencialismo é a sua terra Natal, a solidão do homem no mundo o plano de toda uma obra, a condição humana uma preocupação incessante. A reflexão sobre o "Eu", o pensamento reflexivo, não há nada melhor para assustar leitores pouco dados à análise da sua própria consciência. Que me perdoem os visitantes deste blogue mais dados à parte das bolas do que das letras, mas chegou o momento de Vergílio. Dêem-lhe uma oportunidade, pode ser que não se arrependam.

"Aparição" é o romance que alimentará de pérolas alguns dos próximos posts. Na obra de Vergílio encontra-se a riqueza das frases soltas, isto é, das frases que mesmo que desirmandas do seu contexto nos colocam num mundo do tamanho de um livro. Desculpa perfeita para não me pôr aqui a fazer sinopses e interpretações de obra tão discutida. Mil livros existem em "Aparição", mil possibilidades de pensarmos acerca do que andamos aqui a fazer, neste mundo e nesta vida sobre os quais evitamos reflectir. Talvez seja melhor assim. Ou não.

 

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publicado por bolaseletras às 23:39





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