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As I lay dying (pérola 4) - Da loucura

Terça-feira, 05.10.10

 

 

“Às vezes não tenho a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz. (…) Mas também não tenho a certeza de que alguém tenha o direito de dizer o que é loucura e o que não é. É como se existisse um ser dentro de cada homem que está para lá da sanidade e da insanidade e que assiste aos actos sãos e insanos desse homem com o mesmo horror e o mesmo espanto”.

 

Não tenho a certeza de ter captado por inteiro esta abordagem de Faulkner sobre a loucura. Quero crer que a loucura é daqueles estados só definíveis ou explicados por quem já esteve desse outro lado do espelho. A questão é saber se quem já andou por esse universo paralelo alguma vez regressa completamente ao chamado mundo são. É como a morte, muito se escreve sobre esse outro estágio da existência sabendo-se que quem de facto a conheceu nunca se pronunciou sobre ela. Creio não haver maior prova de que o desconhecimento e a ignorância nunca foram impedimento para teses de doutoramento.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 11:01

As I lay dying (pérola 3) - A casa perdida na estrada

Quarta-feira, 22.09.10

 

 

Isto é Faulkner puro e duro, este é o estilo de um escritor imortal. Nada mais me cabe dizer, há apenas que beber estas palavras até que a sede seja saciada.

 

“Disse à Addie que não dava sorte viver à beira da estrada, quando ela passou por aqui, e ela disse para quem quis ouvir, como as mulheres fazem: - «Então põe-te a andar.» - Mas eu disse-lhe que não dava sorte nenhuma, porque o Senhor faz as estradas para a gente as calcorrear: por isso Ele as estendeu pela terra fora. Quando Ele quer que as coisas sejam para andar, fá-las ao comprido, como as estradas e os cavalos ou as carroças, mas quando quer que as coisas fiquem quietas onde estão, fá-las de cima para baixo ou de baixo para cima, como as árvores e os homens. Por isso, ele não fez os homens para viverem nas estradas, porque o que aparece primeiro, digo eu, a estrada ou a casa? Alguma vez O viste a abrir a estrada ao lado de uma casa? digo eu. Não, nunca, digo eu, porque só os homens é que não descansam enquanto não fazem as casas onde toda a gente que passa de carroça lhes pode cuspir na soleira, deixando as pessoas desassossegadas e com vontade de se irem embora para outro lugar, quando o que Ele quer é que fiquem quietas onde estão como as árvores ou as searas de milho. Porque, se Ele quisesse que um homem andasse sempre em movimento de um lado para o outro, não o teria feito deitado ao comprido sobre a barriga, como as cobras? Está-se mesmo a ver que é o que ele teria feito.”

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 20:25

As I lay dying (pérola 2) - Da preguiça

Segunda-feira, 06.09.10

 

 

“Só um preguiçoso, um homem que odeia mexer uma palha, teima em não parar quando se põe em movimento, da mesma maneira que teimava em não se mexer, como se não odiasse propriamente o movimento, mas sobretudo o arrancar e o parar”.

 

Se para nós, pobres mortais, a preguiça é facilmente definível e identificável, para Faulkner há algo mais para além do comum entendimento. O habitual será considerar o preguiçoso como alguém que se entrega à inacção, que revela elevada dificuldade para concretizar as tarefas que a vida lhe impõe. Apontamos geralmente a falta de movimento e a constante entrega à modorra como características de um preguiçoso. Faulkner olha mais fundo, procura no cerne da preguiça a sua verdadeira natureza. No trecho supra, percebe-se que o que está em causa não é tanto a animosidade ao movimento ou ao empreendimento de actividades, mas sobretudo a incapacidade de mudar a agulheta, a aversão às mudanças de rumo. Porque a inacção pode estar mais na longa caminhada mil vezes repetida, do que em dar um mero passo para o lado. O conforto das familiares estradas devem mais à preguiça do que optar por uma vida de constante contemplação. Porque quase sempre a preguiça é mais mental do que física. Como se andar sem parar fosse uma desculpa para não pensar. Como se parar permitisse um imparável movimento das amortecidas meninges.

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 20:22

As I lay dying (pérola 1) – As palavras, o professor e o polvo

Quarta-feira, 01.09.10

 

 

“Foi quando aprendi que as palavras não servem para nada; que as palavras nunca se adaptam nem mesmo ao que elas querem dizer. Quando ele nasceu compreendi que a maternidade foi inventada por alguém que tinha de arranjar uma palavra para isso, porque as que tinham os filhos não queriam saber se havia ou não uma palavra para isso. Compreendi que o medo foi inventado por alguém que nunca tinha tido medo: o orgulho, por quem nunca tinha sentido orgulho.”

 

Faulkner, um artesão das palavras, sente-lhes o vazio, pesa-lhes a ausência de sentido quando desligadas da substância a que dão forma. Por outro lado, mesmo quando impregnadas de vida, prenhes de inebriantes conjugações de letras e sons, as palavras têm como destino, inevitavelmente, o progressivo aniquilamento, letra por letra, de todo o edifício formal que ambicionaram erigir. Porque a representação do que é sucumbe sempre à perenidade da existência que permanece, independentemente do som com que nos é transmitida, indiferente às infinitas grafias com pretendemos apreender o real. Com dizia o nosso seleccionador, um polvo pode ser uma nuvem ou um terramoto. Palavras para quê?

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 19:50

As I lay dying - William Faulkner

Sexta-feira, 27.08.10

 

 

O título desta obra de Faulkner é para mim intraduzível. Ou, pelo menos, a sua tradução nunca fará jus à beleza com que se apresenta na língua inglesa. As I lay dying contém muito mais profundidade e riqueza do que o “Na minha morte” em língua portuguesa, portanto será na língua da velha Albion que me referirei a este livro. Estamos perante uma tragicomédia genialmente urdida, tecida em torno da morte da matriarca de uma família e do seu derradeiro desejo. Toda a história é sustentada num conjunto de monólogos interiores alternados por quinze narradores com diferentes intensidades. Um objectivo norteia toda a história, cumprir o desejo da falecida Addie Bundren de ser enterrada junto à sua família, o que obriga a um estranhíssimo conjunto de sofridas aventuras dos seus familiares, que contra as intempéries e os obstáculos da natureza percorrem oitenta intermináveis quilómetros até ao destino prometido.

 

Faulkner utiliza nesta obra a sua característica estrutura narrativa, recorrendo a múltiplos pontos de vista dos protagonistas, explorando as suas distintas vozes psicológicas interiores. Já li As I lay dying há alguns anos, mas ainda me recordo bem do prazer intenso que senti ao percorrer essas páginas, ao calcorrear os 80 quilómetros de angústias e de quixotescas atitudes dos carregadores do caixão. Faulkner intromete-nos no mais fundo das personagens, vivemo-las de perto e facilmente entramos no ambiente criado pelo escritor. As pérolas deste livro que aqui deixarei são um pequeno exemplo da genialidade deste escritor único. Não entrar no seu mundo é abdicar de uma parcela imprescindível da história da literatura.

  

 

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publicado por bolaseletras às 22:03

William Faulkner, um homem simples

Segunda-feira, 23.08.10

 

 

De nome completo William Cuthbert Faulkner, o escritor norte-americano recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1949. Posteriormente, venceu ainda o National Book Awards e dois prémios Pulitzer. Faulkner é conhecido por ser um escritor difícil que produziu grandes obras, mas reconhecidamente herméticas para o leitor médio. A dificuldade em penetrar no mundo construído por Faulkner deve-se às mudanças constantes e bruscas dos tempos narrativos e à descrição de múltiplos pontos de vistas por diferentes personagens, muitas vezes em simultâneo.

 

Da minha experiência (li “O som e a fúria” e “As I lay dying”) Faulkner é de facto um escritor hermético e que nos desafia ao limite, sobretudo porque nos exige a máxima concentração, nos impõe dedicação exclusiva. Actualmente pedir isso a um leitor é pedir o impossível, o tempo para leituras concentradas e com uma dedicação sem distracções é uma utopia do passado. Faulkner foi um escritor doutra época para outras épocas. Era um homem tímido e de gostos simples, que costumava dizer preferir a companhia dos seus amigos caçadores e da gente simples da sua fazenda aos holofotes dos grandes salões e eventos literários. Em 1950, foi enquanto arava a sua terra que recebeu a notícia de que ganhara o prémio Nobel referente ao ano anterior. Um homem simples de escrita difícil.

 

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publicado por bolaseletras às 20:59





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