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Uma tarde no museu

Sexta-feira, 17.06.16

  

A arte como maior arma de sedução.jpg

 

Provavelmente, muitos de nós já fomos passear sozinhos a um museu e, naturalmente, estimulados pelo ambiente artístico-onírico, alimentámos determinadas fantasias. Algo do género de sentir a emoção da arte a percorrer as veias e a aquecer o sangue, conduzindo à crença de que outras pessoas, de preferência compatíveis com as nossas preferências erótico-sexuais, partilhavam, naquele momento, naquele espaço confinado, da nossa emoção, da excitação que crescia dos campos da arte em direcção aos doces vales do erotismo. Nessa tarde não, ele só queria deambular por entre esquissos de inspiração, não para se inspirar, mas para se esquecer da fealdade do mundo em geral e, muito em particular, da merda de vida que o destino lhe dedicara nas últimas semanas. Apesar de distraído com um Brueghel hipnotizante, não descurou o movimento furtivo mas confiante daquele clássico yuppie, escravo de uma qualquer prestigiante empresa de consultadoria. Ela, bem menos formal e “normal”, saltitante no seu vestido leve e na sua cabeleira revolta, não se moveu quando o sentiu aproximar-se, sorriu até, num jeito estremecido e envolvido, quando ele lhe sussurrou algo ao ouvido. Os risinhos frutos das piadinhas suspiradas continuaram, uma brincadeira infantil e nada inocente já não filha da arte mas enteada do desejo. Minutos disso, ela dedicada a observar o quadro e a beber as apreciações da figuraça sobre o mesmo, ele já a revelar alguma impaciência, ou por não saber dar o salto para a etapa seguinte ou porque percebia que as barreiras da corrida não seriam facilmente transponíveis.

Foi então que aconteceu. Desviou o olhar dela, fixou o quadro, e mordeu-lhe as carnes com a mão endoidecida, como se o membro não fosse já dele mas de um primata dos primórdios dos tempos. Ela manteve-se serena, não se moveu, era quase imperceptível perceber se naquela sala, naquele momento, o que reinava era a surpresa, o desagrado mesclado com ódio, ou a simples indiferença dorida de quem se desilude com o semelhante e reconhece a selvajaria como o pão nosso de cada dia. Aqueles escassos segundos que pareceram eternos terminaram com a mão dele, inerte e sem rumo, a esconder-se no bolso do blaser cinzento e envergonhado. Ela olhou-o no fundo dos olhos e sussurrou, não com a boca mas com o gelo do fundo dos seus olhos, “pobre e impotente coitado”. Ele, como um animal acossado, respondeu com a voz mais fina do que desejara: “Já vi que não estás habituada a homens decididos. Pior para ti, não tenho tempo a perder”. Ela esfregou-lhe na face uma gargalhada embrulhada em papel brilhante de desprezo e cuspiu-lhe “Decidido és, inequivocamente, homem não és certamente, e o tempo que não tens a perder será para sempre um tempo perdido”. Ele nunca perceberia o significado daquele quadro e ela nunca mais iria sozinha a um museu.

 

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publicado por bolaseletras às 17:28





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